Cel Adalto Luiz Lupi Barreiros

Apesar de estar na muda, pois que não há muito que falar diante dos fatos e, além disso, silêncio é um bom conselheiro diante do que se vê no país e em sua “democracia”, vou me manifestar sobre a audiência pública dos militares sobre salários e orçamentos. A íntegra dela poderá ser vista no final do texto.

Sobre esse assunto ressalto aumento de salários. Já falei do orçamento militar e do que ocorreu nos últimos anos. A resposta do Dr. Ary, por mais que haja promessas como a que ele respondeu ao Bolsonaro, com a sugestão de que o Dep iria gostar da resposta, só quem acredita em história de carochinha poderia esperar que alguma coisa mude, conforme a promessa do Secretário do Ministério da Defesa que, aliás, ainda que seja uma pessoa ilibada (é um dos poucos assim que passaram por ali como civis), só está ali porque a estrutura do segmento militar foi mudada pelo Calabar Poliglota, em grande parte por imposição dos americanos. O Clinton só socorreu com os US$ 40 bi o governo FHC de quebrar, sob essa como uma das condições. Mudou a cúpula da estrutura de defesa, mas a coisa só piorou.

 

 Essa mudança, de quebra, submeteu os militares a se excluírem do processo decisório de governo, além de "prevenir" e submeter o segmento militar ao dito “poder civil”. Aliás, essa é outra piada! O que fez foi colocar gente que nunca entendeu de defesa para tratar do assunto, repito, num país em que o segmento civil nunca teve cultura de defesa. Isto para não falar de cada incompetente que já assumiu o Ministério ou por razões ideológicas ou por ajustes políticos do presidencialismo autocrático que nos governa.

Ora, porque digo isso! Mesmo correndo o risco de ser visto como um pessimista crônico?

É fácil entender. Se alguém faria essa reforma ela já deveria estar feita, primeiro porque em matéria de defesa não se improvisa. Levam-se anos para consolidar doutrina de emprego e muito mais ainda para se prover e desenvolver material adequado a essa doutrina. Se o PIB triplicou no período pós-militar (e teria crescido de qualquer jeito pelo crescimento da população e, certamente, não o fez por eficiência de gestão dos governos) mesmo com essas taxas de crescimento pífios, então porque o orçamento foi caindo de 3,2% para 1,5% ao longo dos anos? Ou seja, os governos estreitaram o orçamento de defesa e tornou o salário dos militares o menor de todas as carreiras de estado (ganha hoje 60% dos demais do Executivo; 1/3 dos salários do Legislativo e 1/4 dos salários do Judiciário). Mas, o pior é que uma reforma do tipo a que se refere o Dr. Ary poderia resolver o problema de salários (só mesmo anjos acreditam nisso), mas o problema de defesa não é só salário. Se meu neto prestasse o serviço militar ganharia R$ 548, menos que um salário mínimo! É preciso investimento em defesa e isto exige muito dinheiro, pois exércitos são um brinquedo caro.

Hoje, mesmo com esses salários totalmente defasados, o orçamento militar consome cerca de 90% com pagamento de pessoal. Restam menos de 3% para investimento e o resto é consumido em custeio. Estes números põem variam pouco em cada ano. Salário não paga telefone, papel, combustível, materiais, munição, materiais, manutenção de equipamentos, etc.

Depois de reduzir a frangalhos as FFAA, agora se fala numa promessa destas. Como não sou idiota, não acredito nem um pouco nisso e acho que não sai do papel se é que está no papel, conforme diz o Secretário do MD. O meu salário, após o Plano Real já perdeu 48% do seu valor mesmo com as migalhas de aumento que o FHC, Lula e a Dilma aplicaram. O seu, confesso, não sei!

Ora, os fatos apontam em direção contrária. A situação econômica do país vai piorar. Em 2014 será igual ou pior que foi em 2013 e 3m 15, provavelmente, será pior. Simplesmente porque os governos foram incompetentes. O déficit acumulado do governo Dilma é de mais de 540 bilhões e não para de crescer. Piorando tudo, ai é que será resolvida a defasagem salários dos militares? O pior é que se derem um aumento os milicos continuarão de bico calado. Sempre foi assim. Já estou com 76 anos. Nunca mudou.

De forma que se lida com fatos de mais de 20 anos. Orçamento e salários. Lidamos com fatos e os fatos apontam em outra direção. Quem quiser que acredite! Nada vai acontecer no curto e médio prazo em matéria de defesa.

Até porque, de modo subjetivo, estou convicto que esta escalada faz parte de dar tempo de domesticar as novas gerações de militares para a ideologia e para o que pretende o processo de poder. A presença do fator ideológico nos atos de governo reforça a ideia, além de ser um dos fundamentos para nos tornarmos um país “cinzento” onde a ingovernabilidade pode nos encaminhar para a condição de “estado fracassado”.

Isto está sendo feito de várias formas. Começou com a mudança da estrutura militar da defesa, passa pelo desestímulo salarial e vai às mudanças nos currículos das Escolas Militares. Durante esse tempo de domesticação as coisas ficarão exatamente como estão.

Ou seja, na verdade, as nossas FFAA, não fossem pelo tamanho do recurso humano que compõe o fator de poder-território + população, não ganharia uma guerra nem contra o Chile ou a Venezuela, para citar dois em campos opostos ideológicos. Para que se pudesse adquirir status de defesa para qualquer coisa, seriam necessários 1/4 de século e muito dinheiro. Tempo enorme já foi perdido em face do interesse ideológico e ai não se distingue tucanato de petralha. Em termos de dinheiro, não será pagando mais de US100 bilhões por ano de serviço da dívida que teremos recursos para investimento em defesa e em qualquer outra necessidade estrutural do Estado.

Imagine defender o pré-sal (o ovo ainda na galinha) de um vaso de guerra nuclear americano ou da OTAN que transporta uma máquina de guerra de 3.000 homens e outros tantos aviões com alta tecnologia. Ou a fronteira amazônica? Ou mesmo um aquífero ou centro energético no cone sul! A FAB não sai do chão e a Marinha não sai dos portos, exatamente como a Argentina que ao sair, foi afundado. E o EB sequer conseguirá recrutar gente para defesa terrestre. É o que apontam pesquisas em universidades sobre serviço militar e defesa.

O que seria necessário para bloquear a foz do Amazonas?  Um único vaso de guerra nuclear!

Essas são as razões que, mesmo que por questão ética não intervi para livrar o meu neto do serviço militar, o fato é que torci para que ele fosse dispensado, mesmo sendo um coronel reformado e tenha tido um conflito moral com o fato. Seria um desperdício ir servir e dar dois ou três tiros de fuzil num ano inteiro e pilotar uma vassoura varrendo os quartéis. E esse é outro problema decorrente de deficiência orçamentária. As FFAA, cada dia menos, podem absorver contingentes de jovens. Hoje nem 10% prestam o serviço militar. Isto é outro fato que afasta os jovens do conhecimento da cultura militar e isto significa "desindentificação", já aprofundada nas escolas de hoje com a abolição de estudos da história necessária à construção de novos mitos. Este fato facilita o controle hegemônico das ditas classes subalternas, enquanto as escolas se tornam núcleos de doutrinação marxista e reforçam a "desindentificação". A mídia dá a versão final contando a história dos "réus da história" dos anos de chumbo. Isto num país onde a população civil não tem cultura de defesa como nos países centrais.

Essa audiência no Congresso é pura pirotecnia. Não é e primeira e nem será a última!

O fato é que as FFAA estão em frangalhos. O orçamento do programa bolsa-família é apenas um pouco menor do que todo o orçamento de defesa. Num orçamento como os verificados nos últimos anos é uma piada o que diz o Dr. Ary. É inconsistente! Não é só inconsistente. Além de reduzido, ano após ano, a sua estrutura contamina a afirmação do "paisano". Mas, a quem acredite em promessas.

O resto é papo furado. O fato é que o Estado e o povo devem definir o que querem de suas FFAA. O nosso já definiu - querem elas como polícia ideológica de governos. Nada muito mais que uma “gendarmeria” apta a cumprir missões complementares. No fundo é no que elas estão sendo transformadas. Com a ajuda do descontrole do uso do monopólio da força e da violência que o governo permitiu que lhe escapasse da mão e transferiu aos MST e aos núcleos radicais a serviço dele.
OK!
Barreiros

http://www.youtube.com/watch?v=N31lCc8OOR0 íntegra da audiência.

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