Imprimir
Categoria: Diversos
Acessos: 3438

 Por Percival Puggina - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  - Zero Hora
 Por alguma estranha razão, as declarações de D. José Maria Libório Saracho, bispo de Presidente Prudente, sobre invasões de terra, causaram surpresa em círculos da mídia brasileira. O que disse ele? Que "o único jeito de chamar a atenção do governo para a reforma agrária é invadir e criar uma situação de insegurança”. Pergunto: desde quando se constitui em novidade o fato de um bispo apoiar o MST e pregar a invasão de terras?  

 

Texto completo  

          Há mais de duas décadas venho denunciando isso, periodicamente, como desvio pastoral, moral e doutrinário. O bispo de Presidente Prudente é novato numa militância onde dezenas de colegas seus são bem mais notórios e experientes, useiros e vezeiros. Tanto assim que o falecido papa João Paulo II – não, não direi que morreu de desgosto – na homilia que proferiu durante missa celebrada em São Luiz“Cabe ao Estado assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Nem a Justiça nem o Bem Comum consentem danificar alguém, nem invadir sua propriedade, sob nenhum pretexto”. Ou seja, 17 anos atrás, os desvios de conduta pastoral em curso já justificavam uma diretriz pontifícia.  do Maranhão, no dia 14 de outubro de 1991, ensinou:

          As palavras do papa, no entanto, entraram pelo ouvido esquerdo de quem deveria entender e saíram por ali mesmo. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) já existia desde 1975, nascida durante o Encontro da Amazônia, convocado pela CNBB, e lutando, conforme definição de Ivo Poletto, primeiro secretário da CPT, pela “liberdade e dignidade numa terra livre da dominação da propriedade capitalista” (www.cptnac.com.br). No site da CNBB, por sua vez, a CPT aparece entre “Outras organizações católicas relacionadas” no link “Organismos e pastorais” (http://www.cnbb.org.br/). Ninguém, no Brasil ou no Vaticano, desconhece as relações entre o MST e a CPT, nem a participação de diversos bispos católicos nas estruturas regionais e nacional desta entidade. 

          Por força disso, João Paulo II, falando a dezenas de bispos do Brasil, no dia 26 de novembro de 2002, julgou imperioso retomar o assunto. E o fez com firmeza: “Para alcançar a justiça social se requer muito mais do que a simples aplicação de esquemas ideológicos, originados pela luta de classes, como, por exemplo, através da invasão de terras – já reprovadas na minha Viagem Pastoral de 1991 – e de edifícios públicos e privados” (ZH 28/11/2002). Desta vez, alguns senhores bispos julgaram que o Papa havia ido longe demais. D. Tomás Balduíno revirou a frase e concluiu que João Paulo II se referira aos latifundiários... D. Orlando Dotti  já havia declarado que “as ocupações são uma forma de pressão legítima” (ZH 28/11/2002). E D. Jayme Chemello, então presidente da CNBB, disparou a mais preciosa pérola: “A Igreja não gosta das invasões feitas como método constante. Mas uma ocupação de terra, uma vez ou outra, quando não há jeito de entrar e ninguém quer ajudar, é como se fosse um grito, um clamor” (ZH 30/11/2002). Repito: João Paulo II morreu de septicemia. Não foi por desgosto. 

          Apoiar a usurpação (e a freqüente destruição) dos bens alheios não custa coisa alguma. Mas isso jamais corresponde à doutrina moral e social da Igreja. Gostaria de saber o que fariam esses senhores se, todos os anos, igrejas, catedrais, casas paroquiais e cúrias, às centenas, fossem invadidas e depredadas – assim, “como se fosse um grito, um clamor” – por mulheres desejosas de compartilhar seu ministério sacerdotal e episcopal.