General Marco Antônio Felicio da Silva
O general e cientista político, em entrevista para O TEMPO explica o que é o Foro de São Paulo e como ele influencia na política externa do Brasil, que investe na criação de embaixadas
Publicado em - 25/07/13
- O senhor identifica na política externa brasileira um alinhamento entre Brasil, Venezuela e Cuba no sentido de ampliar as influências da chamada aliança bolivariana?
Não há dúvidas quanto a tal alinhamento, responsável pela criação do Foro de São Paulo (FSP) pelo PT, por sugestão de Fidel Castro (Cuba), e apoiada de imediato pela Venezuela. Não é uma política externa acertada, pois é política de cunho ideológico, praticada por Lula e Dilma, gestada dentro do Foro de São Paulo, que fere a soberania brasileira ao submeter o interesse nacional a interesses estrangeiros, e que renega os princípios constitucionais de independência, de não-intervenção e de autodeterminação. Agride as mais caras tradições do Itamaraty de bem servir ao país. O FSP, presidido por Lula e coordenado por Marco Aurélio Garcia, realizou o primeiro encontro em São Paulo, em 1990, com representantes de 48 organizações, partidos e frentes de esquerda da América Latina e no Caribe. A proposta principal foi discutir uma “alternativa popular e democrática” ao neoliberalismo. Entretanto, o objetivo estratégico a atingir é o de recuperar para o comunismo na América Latina tudo o que foi perdido no Leste europeu, após a queda do Muro de Berlim, em 1989. É a reconstrução da Internacional comunista soviética. Embora o Foro de São Paulo tenha sido presidido por Lula até a sua eleição, em 2002, quando passou a presidente de honra da organização, como presidente do Brasil, ele adotou uma política de favorecimento aos demais países partícipes do foro, fruto de acordos realizados dentro do próprio foro e sem aprovação do Congresso, segundo declarações do próprio Lula e, portanto, ilegais. Assim, Lula desenvolveu uma diplomacia “ditada” pelo FSP. Traduzindo: política externa de cunho ideológico, intensamente prejudicial ao Brasil.
 
- Quais são os exemplos dessa política?

A defesa incondicional do governo socialista-bolivariano de Hugo Chávez, na Venezuela, e o apoio a Evo Morales, na Bolívia – mesmo quando ele contrariou interesses brasileiros – como também a Rafael Correa, do Equador, as relações sempre especiais com a tirania cubana, a oposição do Brasil à deposição legal do presidente hondurenho Manuel Zelaya, a ilegal manobra de exclusão do Paraguai do Mercosul e a consequente inclusão da Venezuela fazem parte do alinhamento e dos acordos, nem sempre declarados, do PT com o Foro. 

- A criação de embaixadas em pequenas ilhas do Caribe é uma forma de reforçar essa política?
Eu diria que é uma consequência natural da busca da consolidação da unidade da América Latina e do Caribe, preconizada pelo FSP, tendo sido já criada a comunidade respectiva. 

- O senhor acredita que os países bolivarianos e o Brasil estejam preparando um bloco socialista em oposição à hegemonia dos EUA e dos países da Europa Ocidental?
Não resta dúvida de que há uma articulação desses países nesse sentido. Uma articulação, a meu ver, liderada pelo Brasil, tendo o PT no governo com um projeto de poder pelo poder, na busca do retrocesso e do atraso, na contramão da história. Isso mostra como a classe política brasileira é incompetente, sem visão estratégica de país e de mundo, levando, a cada dia e cada vez mais, o país ladeira abaixo. E a culpa de tal situação, embora em maior parte caiba ao PT e aos seus aliados prenhes de benesses, cabe, também, aos governos que se sucederam nesta chamada ‘Nova República’. Presidentes como Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e a atual governante (Dilma Rousseff) estão deixando uma herança que será difícil de ser carregada pelos nossos filhos e netos. Se compararmos o Brasil de 30 anos atrás com a China e a Índia, verificaremos, hoje, o nosso lamentável fracasso durante todos esses 30 anos passados. 

- Quais são as formas de atuação desses países no sentido de criar essa hegemonia de esquerda na América do Sul e no Caribe?
Quando ouço o ex-presidente Lula em suas arengas demagógicas, elogiando a revolução cubana, afirmando que a diferença entre o povo cubano e o brasileiro é a dignidade do povo cubano, e vejo a triste realidade que é a Cuba “socialista”, e ainda as realidades da Venezuela, da Bolívia e de outros “bolivarianos” e, ao mesmo tempo, no que estão transformando o Brasil, creio que estão atuando na busca da hegemonia do fracasso, da corrupção, da supressão das liberdades e da dignidade humana.

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