- http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoriapolitica  - Fonte: Valor Econômico

O atual coordenador da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Paulo Sérgio Pinheiro, rebateu ontem as diversas críticas veiculadas sobre o trabalho do grupo e garantiu que a presidente Dilma Rousseff está satisfeita com as atividades do colegiado.

"Vi alguns comentários "psicografados" sobre o que ocorre dentro da comissão, "entre o secretismo e a divulgação". Isso não existe. Todas essas notinhas "mediúnicas" de que a presidente Dilma não está gostando [do trabalho] da Comissão... só se estão fazendo telepatia. O que a presidente me diz não é isso", afirmou exaltado o coordenador. Ele se referia a reportagens que dão conta de uma insatisfação da presidente com os rumos do trabalhos do colegiado, que pretendia mais aberto a sensibilizar a opinião pública com divulgação das apurações feitas.

"Da mesma maneira que uma investigação criminal não pode ser acompanhada em tempo real na internet, alguns depoimentos não podem ser públicos. Assim foi na África do Sul, no Chile, no Peru. Não achamos necessidade de informar cada passo do que fazemos", argumentou Pinheiro, que participou do evento de publicação na internet de 1 milhão de páginas de documentos produzidos pela Delegacia Estadual de Ordem Política e Social, DEOPS-SP, encontro do qual o governador Geraldo Alckmin foi o anfitrião. O coordenador da CNV aproveitou o ensejo para anunciar a digitalização até julho de 16 milhões de páginas de documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI) localizados no Arquivo Nacional.

Pinheiro disse que a CNV identificou de 200 a 250 agentes da repressão e já estabeleceu um cronograma para ouvi-los. "Nós almejamos que todos os torturadores sejam chamados a depor, ninguém precisa nos convencer disso. Temos um grupo de pesquisadores extremamente capazes conosco".

Em 29 de abril, a comissão realizará em São Paulo audiência pública com mais de 90 representantes de familiares e comitês de memória de todo o país. "Vamos decidir com os familiares um mecanismo para dar essa agilidade que nos está sendo cobrada, mas não é verdade que vamos deixar tudo para o relatório final", observou.

A conclusão dos trabalhos da CNV está prevista para maio de 2014. Questionado pelo grupo estudantil "Levante Popular da Juventude" sobre uma possível extensão do prazo, Pinheiro disse ser esta uma prerrogativa da presidente da República. "Não é algo que desejamos ardentemente, mas se ela decidir, estamos aí". Pinheiro disse "adorar" os escrachos feitos por estudantes em frente das residências de notórios torturadores. "Eu adoro os escrachos! Mas estou com 70 anos, não dá mais para participar. No mais, estou na Comissão da Verdade, não dá para assobiar e chupar cana. É ótimo que seja feito e os estudantes se sintam comprometidos com isso", afirmou com bom humor. A divulgação de um relatório parcial no próximo mês, quando a CNV completa um ano, está sendo estudada.

A Comissão, garantiu o coordenador, não está tendo dificuldade em acessar documentos relativos ao período investigado. "Temos acesso a qualquer documentação, não importa o nível de sigilo, e estamos exercendo isso. Pouquíssimas comissões no mundo contaram com a profusão de arquivos a que temos acesso". Pinheiro contou ainda que há pesquisadores ligados à CNV na busca de documentos junto ao alto comissariado das Nações Unidas para refugiados, no comitê internacional da Cruz Vermelha e em arquivos nacionais de países das Américas.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi ao evento acompanhado de antecessor, José Serra (PSDB). Levou também o assessor Ricardo Salles, fundador do movimento "Endireita Brasil", contrário ao trabalho da CNV. "Esses que estão no poder, que no passado assaltaram, sequestraram, mataram pessoas na tentativa de instaurar uma ditadura de esquerda, querem o revanchismo", disse Salles em seu blog à época da criação da Comissão.

Já o governador saudou o trabalho do Arquivo Público na busca de informações sobre a ditadura militar. "Foi um triste período de violência e arbítrio do país. As pessoas terão acesso de casa, não precisa de senha nem cadastro. Tenho certeza de que esse exemplo de São Paulo fará com que outros Estados façam o mesmo", afirmou. Serra não quis falar à imprensa.

 

 

 

 

 

 

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