José Gobbo Ferreira
Cadete 879, MatBel, 1962
Há 50 anos atrás minha turma deixava a Academia. Nossa vida de Aspirante e de 2º Tenente foi vivida dia e noite dentro dos quarteis, em sucessivos sobreavisos e intermináveis prontidões. Um bando de mercenários, a soldo da União Soviética de então, de seu satélite Cuba, pobre ontem, e paupérrimo hoje, e da China, tentavam implantar o comunismo em nossa Pátria. Atualmente, aqueles que restaram daquele grupo, mais uma quadrilha de aproveitadores voltam a ameaçar nossa liberdade, agora de maneira mais sutil, beneficiados pela democracia da qual hoje e sempre se aproveitam, para destruí-la depois de usá-la
Texto completo.
As Escolas Militares estão na mira desses criminosos. Pensam em modificar seus currículos e de intervir na formação de seus estudantes, pois as Forças Armadas são a reserva moral de nossa Pátria, e uma das últimas barreiras a impedir a vitória dessas ideias alienígenas em nossa Pátria. Por isso eles buscarão sempre maneiras de corromper a formação de seus alunos, distorcendo a verdade e tentando atraí-los com cantos de sereias.
Eis porque resolvi dedicar a você algumas palavras, fruto do que aprendi e resumo do comportamento que procurei adotar ao longo de minha carreira. E até hoje, pois tenho apenas 72 anos de idade e muito preciso ainda aprender para me tornar um soldado cada vez melhor, sempre aprestado para defender esta terra em que nasci e que amo de todo o coração.
A carreira das armas não lhe trará riqueza amoedada. A fortuna do soldado é sua honra. Ela é a bússola que lhe mostra o azimute do correto. Resguarde-a, ainda que a custa de sua vida, pois não existe vida sem honra. O Cristo perguntou: de que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro se para isso vier a perder sua alma? (Mt 16:26). E nós, soldados, devemos nos perguntar: de que vale acumular estrelas no ombro e medalhas no peito se for à custa da honra? De que adianta galgar as mais altas posições da Força se for preciso praticar a bajulação e a subserviência? Vale a pena se elevar na hierarquia e se rebaixar no respeito e na consideração de pares e subordinados? Os despudorados ignoram essas perguntas. E prosperam na carreira, ricos de sucessos ilusórios e tão pobres em dignidade.
Ao longo de sua vida militar, você terá comandantes e Chefes. Os comandantes lhe serão impostos. Os Chefes se imporão a você. Obedeça a ambos com exação, pois que a isso lhe obrigam seu Compromisso e a letra dos regulamentos. E ainda que obedeça aos primeiros só com o corpo, mecanicamente, obedeça aos Chefes com o corpo, a alma e tudo mais de que dispuser à mão. O Chefe é aquele para o qual todos os olhares se voltam nos momentos de aflição. Ele traz nos olhos a centelha do entusiasmo, enquanto os outros exibem as sombras da acomodação. Com esse brilho sagrado no olhar, ele é capaz de arrastar qualquer um de nós para segui-lo através da ponte do Itororó, como fez Caxias, sublime modelo de Chefe, com os seus. E iremos confiantes, mesmo sob o intenso fogo do inimigo, pois o soldado de escol se agiganta a comando de um verdadeiro Chefe, e lhe oferece o melhor de si.
Ame fervorosamente o Exército e esforce-se por fazer o máximo em sua carreira. Estude, dedique-se de corpo e alma ao aprimoramento constante de sua competência profissional. O caminho para a mediocridade é largo, suave e confortável. Muitos se deixam ficar às suas margens, na sombra, hibernando e esperando que a carreira se escoe burocraticamente. Mas a trilha que forja o Chefe é árdua, estreita e íngreme. Siga por ela! Jovem Tenente na singela guarnição de fronteira ou General maduro no Alto Comando, por mais que lhe custe, pratique sempre a honra, a verdade, a lealdade, a justiça, o exemplo e a sadia camaradagem. Não permita que tentação nenhuma ou receio algum possa afastá-lo dessa conduta. Não tema afrontar os poderosos em nome da honra e da justiça. Sinta a presença inefável da Pátria à sua
volta, e deixe que isso permeie todos os seus atos. Esteja sempre pronto para defendê-la, atento para que ideologias criminosas não prosperem em seu solo. Assim, um dia, perceberá que você terá se tornado um daqueles ungidos em que os olhos se fixam na hora da dificuldade.
Como toda grande instituição, o Exército atravessa fases boas e más. Mas tudo passa. Haja o que houver, cumpra seu dever. Haverá tempos nebulosos e sombrios em que você não divisará Chefes à sua frente. Mas seja sempre um Chefe para os que lhe seguem. Uma tropa sem Chefe é um rebanho à mercê dos lobos, e lobos os há por toda parte, os mais vorazes onde você menos espera. Mantenha viva a chama da fé: A grandeza do Exército prevalecerá sempre.
Você tem a obrigação de buscar a verdade, e tudo farei para lhe auxiliar nessa busca. Ela lhe libertará das incertezas e lhe protegerá da doutrinação mentirosa, principalmente sobre os fatos que cercam a contrarrevolução de 1964. Milhões de pessoas morreram sacrificadas pelo comunismo e outras tantas viveram uma vida de medo, angústia, penúria e humilhação. Stalin na Rússia, Mao na China, Pol Pot no Camboja, Fidel e Guevara em Cuba e outros da mesma laia provocaram mais dor e sofrimento que todos aqueles descritos no Inferno de Dante. E, no entanto, por pura avidez pelo poder, ainda há quem defenda esse regime maldito e pretenda vê-lo implantado em nossa Pátria. Se aqueles exemplos citados acima são distantes, no espaço e no tempo, basta ver o que se passa hoje em nosso país. Aqueles que foram, de uma maneira ou de outra, afastados pela contrarrevolução, aí estão de novo, beneficiados pela Lei da Anistia que, aliás, uma vez que já se serviram dela, agora pretendem revogar. Você é testemunha e o Supremo Tribunal Federal confirmou que o grupo que chegou ao poder é o que de pior a política pode produzir em termos de ética, moral, pudor, escrúpulo e todas as demais virtudes que nós militares veneramos. São esses que defendem o comunismo e querem reescrever a história a seu modo. Foi contra eles que lutamos naquela época, e vencemos. Fomos magnânimos na vitória. Aprenda que essa é uma cortesia que não pode ser concedida indistintamente! O Cristo já havia ensinado: Não deveis lançar pérolas aos porcos (Mt 7:6). Caxias, é verdade, foi magnânimo com os Farroupilhas. Mas Canabarro era Canabarro e aqueles que vencemos nem apenas barro conseguem ser. São somente lama, que a Justiça está pouco a pouco varrendo para a lixeira da história.
Seus subordinados representam a pedra angular sobre a qual repousa sua carreira. Você está sendo preparado para comandar. Mas, se não houvesse comandados, como fazê-lo? Seu subordinado pode ser o amigo leal, o colaborador dedicado que há de constituir com você, e outros mais, uma equipe harmônica e eficiente. Mas pode ser também uma fonte contínua de problemas. Com qual deles você terá que lidar? A resposta está nas suas atitudes. Tenha o respeito irrestrito ao subordinado como uma das colunas mestras de sua vida militar. Seja enérgico, se for preciso, porém cortês. Seja exigente, porém sensato. Puna com tristeza, se necessário for, mas premie com entusiasmo sempre que possível. Jamais se furte de fazer a defesa deles e garantir-lhes proteção quando estiverem ameaçados. Procure atender aos seus anseios e às suas expectativas dentro dos limites do bom-senso, tendo sempre em mente que é próprio da condição humana ser impossível agradar a todos. Cultive a empatia e acostume-se a ver em seus subordinados seres humanos como você e, como você, capazes de atos grandiosos e de deslizes acabrunhantes. Assim procedendo, você conquistará seus corações e mentes e formará com eles uma equipe unida, disciplinada e competente.
Amigos são pedras preciosas que garimpamos ao longo da existência. E o Exército é uma mina inesgotável delas. Eles lhe propiciarão momentos da mais pura felicidade. Entre eles você estará em sua tribo, posto em sossego, alma em paz e coração alegre. Esteja sempre pronto a oferecer a seus irmãos de armas a paciência que escuta, a mão que auxilia e o ombro que consola, e deles receberá o mesmo, se um dia vier a precisar.
Conduza sua carreira de forma a chegar ao termo do serviço ativo respeitado por aqueles que conviveram com você, convicto de ter combatido o bom combate e com o glorioso direito de encarar a todos, olhos nos olhos, sorriso nos lábios, com a consciência tranquila e o espírito em paz. Assim como Osório asseverou que a farda não abafa o cidadão no peito do soldado, posso lhe assegurar que o traje civil não expulsa o soldado da alma do cidadão. Por isso, para sua felicidade, soldado você será eternamente. Mantenha cada vez mais vivos seu amor à Pátria e ao Exército e forme sempre entre os melhores!
Muito mais teria a lhe dizer, mas o bom senso recomenda parar aqui. Suplico ao deus de cada um, e ao Deus de nós todos, o Chefe Maior e Senhor dos Exércitos, que lhe oriente ao longo da carreira, iluminando seu espírito e apontando-lhe o caminho do dever. Que Ele lhe proteja nos combates da existência e lhe dê tenacidade para superar os obstáculos que ousem tentar separá-lo de seus ideais.
Quando o Portão dos Aspirantes se fechar atrás de você, as portas de uma nova vida se abrirão à sua frente. Mergulhe nela confiante, sem medo. É para isso que nossa Academia lhe prepara! Foi especialmente para você nessa hora, meu jovem e caríssimo guerreiro, que Gonçalves Dias deixou essas palavras:
As armas entesa,
penetra na vida.
Pesada ou querida,
viver é lutar.
Se o duro combate
aos fracos abate,
aos fortes, aos bravos,
só pode exaltar!
(Canção do Tamoio)

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