Recife – PE, em 09 de novembro de 2012.
 Luiz Osório Marinho Silva – Cel Eng Res Rem - Turma Marechal Castello Branco –AMAN/1971
 O texto, manuscrito em 1980, em papel agora amarelado pelo tempo, não é oficial, por não ter sido protocolado e entregue à chefia do Curso de Engenharia da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO). Assim, faz parte apenas do arquivo pessoal de um oficial do Exército Brasileiro. Mas, pode ter algum valor histórico para a compreensão de fatos que até hoje atingem as Forças Armadas.
 Quando foi escrito pelo jovem capitão, então com 31 anos, o Brasil era governado pelo Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, último dos presidentes da República do chamado regime militar. O Ministro do Exército era o Gen Ex Walter Pires de Carvalho e Albuquerque. O Partido dos Trabalhadores (PT) estava sendo fundado. Um ano antes, em 1979, havia sido assinada a Lei da Anistia, para permitir o regresso ao Brasil de exilados e autoexilados, ditos políticos. E beneficiar, particularmente, aqueles que pegaram em armas e praticaram atos de terrorismo e guerrilha, como assassinatos, atentados, sequestros, assaltos, justiçamentos e toda a sorte de crimes, visando derrubar o governo constituído e implantar um regime ditatorial comunista, como posteriormente confessaram vários dos integrantes dessas organizações armadas. Buscava tal Lei, hoje deturpada pelos atuais donos do poder, naquele período em que estava sendo processada a abertura política, já iniciada no governo anterior do Presidente Geisel, a reconciliação nacional.
 Dizem que não devemos nos arrepender do que fizemos, apenas daquilo que deixamos de fazer. Talvez, isso seja correto. Em um ambiente de escola militar, quando prepondera o sentimento de camaradagem e companheirismo, o capitão, aconselhado por companheiros do Curso, que leram o documento, de que não deveria encaminhá-lo aos seus superiores, assim deixou de fazê-lo. Porém, no seu entendimento, o texto, que se referia à palestra então proferida para todos os oficiais instrutores e alunos da EsAO, em 1980, pelo então Ministro do Exército, representava um ato de lealdade ao Exército Brasileiro, sem nenhum intuito de quebra da disciplina e da hierarquia, valores indispensáveis à vida militar e considerados os pilares das Forças Armadas.
 No ano de 2001, aquele capitão, então um dos coronéis mais antigos, ao se despedir do serviço ativo do Exército, disse, dirigindo-se particularmente aos mais jovens, que a disciplina e a hierarquia constituíam dois pilares fundamentais para a manutenção da Instituição Militar, mas que apenas duas colunas talvez fossem insuficientes para sustentar tão grande estrutura. Dois outros importantes valores deveriam, também, constituir os pilares básicos: o exemplo e a lealdade. 
 Ao longo da carreira, em obediência a esses princípios, teve aquele oficial a oportunidade de expressar, por escrito ou oralmente, no âmbito da cadeia de comando, os seus pontos de vista. Mas, muitas vezes, ao contrário do que já dizia o General Osório, Patrono da Cavalaria, a farda abafa o cidadão no peito do soldado.
 Hoje, sem a farda, aquele oficial tem, amparado por lei, a garantia de poder tratar, livremente, de todos os temas, inclusive os políticos, assumindo a responsabilidade pelos seus atos. E assim tem feito, sempre com o devido respeito e lealdade aos chefes militares que, pelos seus atributos profissionais, tiveram e têm o dever de conduzir os destinos do Exército de ontem e de hoje, mas sempre o mesmo Exército de Caxias.
 Nos idos de 1980, o então Ministro do Exército disse: "Estaremos sempre solidários com aqueles que, na hora da agressão e da adversidade, cumpriram o duro dever de se opor a agitadores e terroristas de armas na mão, para que a Nação não fosse levada à anarquia". Passados mais de trinta e dois anos, com a recente criação da chamada “Comissão Nacional da Verdade”, vemos, com mais ênfase, como se fossem verdades absolutas, a infâmia, a calúnia e o achincalhamento atingirem ao Exército e, particularmente, aos que combateram, em nome do Estado Brasileiro, os terroristas e assassinos do passado. Ao longo dos anos, somos todos culpados, sem exceção, por acreditarmos que os inimigos de ontem estariam também possuídos de valores como lealdade, desprendimento, probidade, espírito de reconciliação e de amor ao Brasil. Para eles, com o ódio que ainda lhes corrói as entranhas, o interesse reside na vingança e no vil metal, sendo a conquista e a manutenção do poder essenciais para os seus mesquinhos intentos.
 Contudo, sem a intenção de abalar os pilares básicos da nossa Instituição, mas até mesmo para preservá-los, não podemos deixar antigos companheiros de farda e de ideais desamparados, nem que o Exército seja atingido em seus mais caros valores.  O limite da honra, a do Exército e a do soldado, não pode ser ultrapassado.
 O texto, a seguir transcrito, sem revisões e mantida a antiga ortografia, deve ser lido na compreensão de que foi escrito há trinta e dois anos, como documento reservado, expondo o sentimento, naquela época, de um jovem capitão. Muitas coisas mudaram, outras não, mas o sentimento de amor ao Exército e ao Brasil permanece inalterado na alma do velho soldado, prestes a ser, por idade, reformado.

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