Zero Hora - 07/11/2012
Imagens mostram criminosos seguindo carro de coronel assassinado na Capital
Cenas foram gravadas em prédios da Avenida Nilo Peçanha e da Rua Professor Ulisses Cabral, via onde o militar morava e foi morto
Militar reformado teria reagido a ação dos bandidos e cerca de 15 tiros foram disparados
 Imagens de câmeras de vigilância obtidas pela 14ª Delegacia da Polícia Civil (bairro Vila Jardim), de Porto Alegre, mostram parte dos últimos momentos de vida do coronel reformado do Exército Julio Miguel Molinas Dias, 78 anos, assassinado na quinta-feira da semana passada, no bairro Chácara das Pedras, em Porto Alegre.
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As cenas foram gravadas em prédios da Avenida Nilo Peçanha e da Rua Professor Ulisses Cabral, via onde o militar morava e foi morto ao se aproximar de casa. Na moradia do coronel e nos arredores, a polícia não localizou câmeras que pudessem mostrar outros detalhes do crime.
Os vídeos encontrados foram extraídos de quatro equipamentos, sendo que três registraram com mais precisão a movimentação do carro do militar e de um Gol, pouco depois das 21h de 1º de novembro. Duas câmeras, em cores, mostram o C4 prata de Molinas Dias, seguido pelo Gol vermelho usado pelos bandidos.
As cenas não permitem visualizar os criminosos. Para tentar melhorar a qualidade, a polícia encaminhou cópias dos vídeos para um laboratório especializado que está tratando as imagens. A polícia também faz busca por meio de imagens de câmeras da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Ao menos uma delas mostraria a passagem dos dois veículos pela Nilo Peçanha próximo à Rua Carazinho.
Um dos objetivos da polícia é identificar a placa do Gol que, tudo indica, seria roubado. Um carro de mesmo modelo e cor foi encontrado na noite de domingo, a cinco quadras do local do crime. O veículo, com placas clonadas de um Gol de Caxias do Sul, foi roubado em 14 de outubro, na mesma rua onde Molinas Dias foi morto. O dono do Gol prestou depoimento na 14ª DP, folheou o álbum de fotos de suspeitos, mas não teve condições de apontar suspeitos.
As imagens obtidas pela polícia também não ajudam a esclarecer quantos homens atacaram o coronel. Um dos criminosos estaria dentro do C4 com o coronel e, pelo menos mais um, ao volante do Gol. Segundo relato de uma testemunha, Molinas Dias dirigia o C4 e, ao lado dele, estaria um dos bandidos. A vítima tinha pelo menos três pistolas e costumava andar armada com uma arma calibre 45 — modelo que desapareceu após o crime. Ele reagiu ao chegar em frente à casa de um vizinho.
O coronel teria disparado contra o bandido sem acertá-lo. O criminoso revidou, também com uma pistola, e, dentro do carro, teria ferido o militar de raspão. Em seguida, o bandido conseguiu puxar Molinas Dias para fora do C4, e os dois entraram em luta corporal. O homem do Gol desceu e, com uma pistola, disparou cerca de 15 vezes na direção do militar. A vítima morreu alvejada por três tiros que acertaram o tórax, o rosto e o braço esquerdo.
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OPINIÃo
Sua Segurança: os mistérios do coronel
Ex-comandante do DOI no Rio de Janeiro à época do atentado no Riocentro, em 1981, foi morto em Porto Alegre - Zero Hora 02/11/2012 
Humberto Trezzi
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As pistas colhidas pela Polícia Civil, até agora, apontam para uma luta entre o coronel Júlio Miguel Molinas Dias e seus captores. Teriam ocorrido disparos de lado a lado, conforme revela o repórter José Luís Costa. Uma reação do militar a um possível assalto é vista pelos policiais como muito provável, já que ele estava armado.
Provável é, mas o caso ainda está longe de esclarecido. Por vários fatores. O primeiro é que assaltantes, via de regra, não costumam disparar mais de 10 tiros contra suas vítimas. Eles não têm questões pessoais a acertar com elas, querem apenas roubá-las. Por que teriam desfigurado o coronel Dias a tiros? Difícil acreditar em ladrões tão vingativos.
A segunda questão é a própria trajetória do coronel. Ele foi integrante do DOI (Destacamento de Operações de Informações do Exército) durante a ditadura militar. No livro Aventura, Corrupção, Terrorismo - A Sombra da Impunidade, o coronel Dickson Grael (também do Exército) fala que os autores do atentado no Riocentro, em maio de 1981, trabalhavam com Dias no DOI do Rio de Janeiro. Dias, na época, era tenente-coronel e chefiava a repartição encarregada de vigiar a oposição ao regime militar no Brasil. O livro não chega a implicar pessoalmente Dias no atentado a bomba, mas menciona que a tentativa de explodir o centro de eventos envolvia diversos grupos de militares ligados à repressão política, como era o caso dele.
Ou seja, adversários ideológicos não faltavam para Dias.
O envolvimento do DOI no atentado do Riocentro também é mencionado num livro bem mais recente, "Tempos de Guerra", do ex-delegado capixaba Cláudio Guerra. Guerra atuava no temido Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e relaciona mais de uma centena de nomes de envolvidos na repressão política. Guerra será chamado pela Comissão da Verdade, em Brasília, a depor.
A doutrina da comunidade de informações diz que os agentes aposentados — que se envolveram em episódios pesados — devem se acompanhados por algum tempo. O acompanhamento é feito por pessoas bem próximas, sem levantar suspeitas. Depois de uma certa idade, este tipo de aposentado entra para a comunidade dos "esquecidos": aqueles que têm uma idade avançada e vão levar as informações confidenciais para o túmulo.
Algumas perguntas precisam ser feitas, antes de tudo, a respeito do assassinato do coronel Dias:
— Ex-colegas do tempo da repressão teriam motivos para temê-lo?
— Ex-adversários da ditadura política teriam tentado persegui-lo? — Dias conhecia seus captores?
— Dias foi sondado ou convocado para falar na Comissão da Verdade, que visa esclarecer assassinatos durante a ditadura militar?
— O que fez Dias nos quase 30 anos posteriores ao fim da ditadura militar?
— Dias colheu inimigos em alguma de suas atividades, depois de se aposentar?
Antes de respondidas estas questões, difícil considerar o caso fechado.

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