Ricardo Noblat - O Globo - 08/10/2012  
 "De uma vez por todas, é preciso que, no Brasil, a lei valha para todos"
Roberto Gurgel, procurador-geral da Republica
No início de 2006, quando o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), da CPI dos Correios, divulgou seu relatório final sobre o caso do mensalão denunciado por Roberto Jefferson em meados do ano anterior, jornalistas de Brasília procuraram Lula para ouvi-lo a respeito. Texto completo
Diante de assunto incômodo, como é do seu feitio, Lula se esquivou. E disse: "Não vou ler. Aguardarei o pronunciamento final da Justiça"
Alguns meses antes, Lula ocupara rede nacional de televisão para, aparentemente constrangido, pedir desculpas aos brasileiros. Lamentou tudo o que tinha ocorrido, numa admissão velada de que algo de muito grave tinha ocorrido de fato. Ora olhando para a câmera, ora para o teto, se disse traído. E apunhalado pelas costas. Não revelou o nome dos traidores. Nem de quem o apunhalara.
Se o tivesse feito daria margem para que seus desafetos alardeassem: "Estão vendo? Tanto ele sabia da existência do mensalão que não teve dificuldade em identificar os mensaleiros." De lá para cá, Lula tratou o caso de duas maneiras. A primeira: garantindo que tudo seria apurado pela Justiça, e os culpados punidos. A segunda: afirmando que o mensalão não passara de uma farsa. De uma grande farsa.
A primeira maneira serviu para que Lula atravessasse como um coitadinho os meses que faltavam para a eleição de 2006. Reeleito, adotou a segunda maneira. O que existira, o que fora chamado de Caixa 2, o que resultaria em punições, cedeu lugar à teoria da farsa. E se fora uma farsa ... Bem, nada mais lógico do que deduzir que ninguém pagaria por ela. Sem crime, sem culpados.
Lula bateu à porta de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) empenhado em convencê-los a adiar o julgamento do processo do mensalão. Não porque temesse a punição dos seus comparsas. Como eles seriam punidos, se Lula e Dilma juntos haviam nomeado sete dos atuais dez ministros? Nada mais republicano do que esperar que tais ministros votassem, para poupar seus padrinhos de constrangimentos.
O adiamento pretendido por Lula tinha a ver com 0 fato de que o julgamento poderia correr paralelamente a campanha eleitoral. Lula temia que o PT perdesse com isso. O PT perdeu com a atitude de Lula de interferir no calendário da Justiça. E deve ter perdido alguns votos em São Paulo, com a contaminação do debate político pelo julgamento. Lula tinha razões para se preocupar. E nenhuma para se meter.
Agora, às vésperas de o STF confirmar o nome dos que o traíram, Lula elogiou o voto do ministro Ricardo Lewandowski, que absolveu o ex-ministro José Dirceu. Para ele, Lewandowski foi claro e abordou "questões centrais" durante a sua exposição, segundo Gustavo Uribe, repórter do GLOBO. Lula tem repetido que não existem provas capazes de mandar para cadeia o acusado de ter chefiado o esquema do mensalão.
Cadê o Lula que se recusou a ler o relatório da CPI dos Correios porque preferia aguardar o pronunciamento da Justiça? E cadê o Lula que garantia estar convencido de que a Justiça apuraria o caso e puniria os culpados? O gato comeu. Não comeu. O Lula que disse tudo aquilo era apenas um farsante. Confiram o que ele dirá tão logo termine o julgamento.
O comportamento de Lula em relação aos mensaleiros é típico de quem se sabe culpado pelo crime que os outros pagarão sozinhos. De resto, é típico também de quem se sente refém de segredos. Marcos Valério espera receber em dobro a atenção e o carinho que mereceu do PT até aqui. Do contrário...

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