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Categoria: Diversos
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 Por Villas-Bôas Corrêa - Jornal do Brasil

A seriedade não é certamente uma das virtudes mais prezadas pelo governo do presidente Lula. Sempre que é pilhado numa das escorregadelas dos improvisos de cada dia, sai pela tangente das desculpas que acodem à esperteza de hábil comunicador.  Se os bons e maus exemplos vêm de cima, a paixão presidencial pelas viagens aéreas, apesar do confessado medo de avião, é seguida à risca pelos ministros e secretários, que se inscrevem entre os mais constantes fregueses dos aviões da Aeronáutica. Sem o luxo requintado do Aerolula, os aviões da FAB cruzam os ares para levar e trazer os caronas oficiais dos mais diversos Estados do Brasil, além da delícia dos vôos internacionais.

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A cuidadosa pesquisa de O Globo ouviu 35 ministros e obteve 19 respostas, o que é um bom índice para a bisbilhotice sobre os encantos do poder.

Para ficar nos exemplos que edificam os espertos e consagram o rigor ético do paraíso oficial, basta catar na relação dos bem-aventurados alguns nomes de peso e alto conceito. A começar pelo recordista absoluto das 447 viagens ministeriais em aviões da FAB, das quais 43 em trechos de ida, de volta ou de ida-e-volta às mansões residenciais dos que nasceram empelicados e desfrutam um momento da vida que jamais será esquecido. Pois o correto e severo ministro Tarso Genro, da Justiça, confirmou a sua preferência pelas gentilezas da Força Aérea Brasileira em 95 viagens - sendo que oito para ir ou voltar para casa. Um luxo!

Logo em seguida, com desempenho espetacular, a ministra Marta Suplicy, do Turismo, para dar o exemplo da sua paixão pelos assuntos da sua pasta, voou nas asas da Aeronáutica em 74 viagens. Merece a indulgência de um desconto: depois do conselho azarado aos padecentes do apagão aéreo (o celebre "relaxem e gozem") a ministra com a mais sábia prudência evitou misturar-se com os passageiros comuns, a turma que compra e paga pela espera de horas que emendam dias e noites no desconforto interminável, para driblar vaias e outras manifestações de entusiasmo. Modéstia da ministra.

Em terceiro lugar, o ministro do Combate à Fome, Patrus Ananias; com 63 viagens, sendo 39 para as exaustivas jornadas de trabalho e 24 para voltar para casa. Daí por diante, depois das 40 viagens do ministro da Saúde. José Gomes Temporão - que não necessita explicar o que anda fazendo pelo Brasil a fora, pois a mídia se incumbe de acompanhar seus passos - a listagem míngua para os comedidos fregueses das três, duas, uma dezena de viagens: a todo-poderosa ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff; o ministro Orlando Silva, do Esporte; o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e uma dezena de outros.

Ora, com franqueza, se os ministros precisam viajar para os muitos interesses de serviços, obras e demais atividades do seu setor, entre a viúva pagar as passagens aéreas, hotéis, diária, talvez seja preferível apelar para a boa vontade da FAB. Pois as poucas dezenas de aviões em condições de voar não podem permanecer estacionados, sem uso, com a tripulação sem ter o que fazer.

O que se estranha é o farisaísmo oficial, a pregar o rigor nas exigências morais, enquanto ministros usam e abusam da FAB para viagens particulares. O "faça o que eu digo, não façam que eu faço" tem a sua sovada picardia, mas não deve ser o lema de um governo que se respeita.

* Repórter Político do Jb