Acusado de ser um dos operadores do esquema do bicheiro, José Olímpio Queiroga Neto aciona corretores para vender propriedades no DF e no Entorno que, segundo a polícia, foram compradas com dinheiro do crime. Seu objetivo seria fugir para os Estados Unidos
João Valadares - Correio Braziliense - 16/09/2012
O patrimônio da quadrilha do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, está sendo vendido às pressas e pela metade do preço nas regiões administrativas do Distrito Federal e cidades do Entorno.
Temendo uma possível ação da Justiça, o grupo criminoso articulou uma rede de vários corretores para "fazer dinheiro" o mais rápido possível e se livrar dos bens adquiridos a partir de atividades ilícitas. Durante a semana, o Correio visitou, acompanhado de alguns corretores, terrenos da organização criminosa em Santa Maria e em Valparaíso (GO). A constatação é de que a operação do grupo para "queimar" todas as propriedades compradas com dinheiro sujo está a pleno vapor. "Tá mais barato (os imóveis) porque o cara tá precisando de dinheiro. Acabaram com a fonte de lucro dele", resume um dos vendedores.
Os terrenos, de tamanhos variados, estão sendo comercializados por José Olímpio Queiroga Neto, um dos presos pela Operação Monte Carlo e apontado pela investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal como um dos principais braços de Cachoeira no DF e responsável por gerenciar as casas de jogo. Ele ganhou a liberdade, por força de habeas corpus, em 14 de junho e estaria juntando dinheiro para fugir para os Estados Unidos.
Em Santa Maria, os corretores oferecem dois imóveis "a preço de banana". Um deles fica às margens da BR-040, no sentido de quem vai para Luziânia, ao lado de um grande supermercado da região. No local, com 1,5 mil metros quadrados de área construída, há um galpão, que serve como depósito. Animados com a possibilidade de fechar o negócio e receber a comissão de até 5%, os vendedores afirmam que o grupo entrega a área por R$ 1,5 milhão. "O preço de mercado é R$ 2,5 milhões. Tem um lá que tava vendendo por R$ 3 milhões. Ele, hoje, entrega por R$ 1,5 milhão", avisa.
"Só vai pagar com escritura na mão, chefe. Não aparece nada. Isso é testa de ferro. Se tu tá fazendo negócio errado, tu tem que chamar um cara para não colocar no teu nome. Se colocar no teu nome, a Justiça pega tudo", explicita outro corretor, também responsável por vender o patrimônio da quadrilha.
Laranjas na família
O terreno está no nome da MZ Construtora LTDA. De acordo com documentos sigilosos do Núcleo de Inteligência da Polícia Federal obtidos pelo Correio, a empreiteira em questão é apontada pela investigação da PF e do MPF como um canal "para movimentar ou fazer trânsito do dinheiro arrecadado com os jogos de azar no interesse e na manutenção da estrutura criminosa organizada". A empreiteira em questão está no nome de Diego Wanilton da Silva Queiroga e Fernanda da Silva Queiroga, filhos de José Olímpio Queiroga Neto. A reportagem tentou contato com Diego e Fernanda, mas não obteve retorno.
Perto da área em Santa Maria, na Quadra 108 da Avenida Alagados, a principal da cidade, o grupo criminoso oferece outro imóvel. São 1,5 mil metros quadrados, murados e com área construída, pela "pechincha" de R$ 1,5 milhão. "O preço certo, pelo tamanho e localização, é R$ 2,3 milhões", afirma o corretor. A área está no nome da empresa Calltech Combustíveis, cujo sócio majoritário, com 99% das cotas, também é Diego Wanilton, filho de José Olímpio.
O Correio identificou pelo menos oito corretores encarregados de comercializar os imóveis da quadrilha. Alguns não têm cerimônia de falar sobre as intenções do grupo. "Os terrenos são do cara que era o braço do Cachoeira em Brasília. É do cara que cuidava das coisas dele aqui no Entorno. É um empregado dele (Cachoeira). O Olímpio comprou os terrenos para ele. Não tá nem no nome do Olímpio. Tá no nome de outras pessoas."
O mesmo vendedor revela os planos de Queiroga: "Ele tá precisando fazer dinheiro. A conversa que chegou para a gente é que ele quer sair daqui e ir embora para os Estados Unidos. Para fazer dinheiro, ele tá vendendo tudo".
Cachoeira está preso na Papuda: quadrilha tenta movimentar recursos
Corretores a serviço da quadrilha
Confira diálogos de como funciona o esquema de oferta dos imóveis que Queiroga tenta vender
Interlocutor Os terrenos estão no nome do pessoal do Cachoeira?
Corretor Não. Tudo é laranja.
Interlocutor O pessoal dele tem quantos terrenos para vender?
Corretor Ele (laranja) me ligou dizendo que, agora, neste momento, tem uns três terrenos lá. Tem um corretor dele aí que cuida de todos os imóveis. Mas ele passou para a gente. Deu exclusividade.
Interlocutor Por ser um terreno que deve ter algum problema seria mais barato?
Corretor Não é que o terreno tenha problema.
Tá mais barato porque o cara tá precisando de dinheiro. Acabaram com a fonte de lucro dele e ele ficou sem dinheiro. Ele era um dos braços do Cachoeira. É o Olímpio (José Olímpio de Queiroga).
Corretor2 Ele (Cachoeira) tem vários laranjas, né? Em cada cidade, o cara tem um (laranja). O terreno, em termo de documentação, tá desenrolado. Tem um grande lá que já vendeu com projeto para 120 apartamentos. Já cavou o buraco.
Interlocutor Mas ele tá vendendo por quanto mais barato?
Corretor Tem um lá que tava vendendo por R$ 3 milhões. Ele, hoje, entrega lá por R$ 1,5 milhão.
Interlocutor Pela metade do preço?
Corretor É. Para 120 apartamentos, já com projeto aprovado, com alvará de construção.»» »
Corretor Os terrenos são do cara que era o braço do Cachoeira em Brasília. Não são do Cachoeira. É do cara que cuidava das coisas dele aqui no Entorno. É um empregado dele. O Olímpio comprou os terrenos para ele. Não tá nem no nome do Olímpio. Tá no nome de outras pessoas. Ele tá precisando fazer dinheiro. A conversa é que ele quer sair daqui e ir embora para os Estados Unidos. Para fazer dinheiro, ele tá vendendo tudo. É o seguinte. É tudo do mesmo povo.
Interlocutor É tudo escriturado?
Corretor Tudo escriturado. Você só vai pagar depois de conferir todos os documentos. São dois em Santa Maria e três em Valparaíso.
Interlocutor E esses são mais baratos mesmo?
Corretor Se você pegar 11 mil metros quadrados, sai R$ 136 o metro quadrado. O metro quadrado lá nessa área de Valparaíso é R$ 500. Venderam um terreno de 12 mil metros lá por R$ 7 milhões.
Interlocutor Então ele tá praticamente entregando.
Corretor Isso.
»» »
Corretor Cachoeira não tem nada no nome dele. É de laranja. Ai você compra barato porque eles têm braço com Cachoeira. É essa a jogada.
Comprador Entendi.
»» »
Corretor Só vai pagar com escritura na mão, chefe. Não aparece nada. Isso é testa de ferro.
Se tu tá fazendo negócio errado, tu tem que chamar um cara para não colocar no teu nome. Se colocar no teu nome, a Justiça pega tudo.
Interlocutor Então eles estão vendendo para a
Justiça não pegar?
Corretor Claro. Ele tá na prisão e de lá não vai sair mais. Precisa de grana.
Interlocutor Mas esse terreno é do Olímpio, não é?
Corretor Também não tá no nome do Olímpio não. Tudo tem corretor na jogada. Não tem como chegar no acesso aí. Ele passou pra gente. Faz o acerto com a gente.

 

Comments powered by CComment