Governo também temia volta de Cuba à OEA
O Globo - 01/07/2012
BRASÍLIA. Além de negociações para cessão de armamentos ao governo chileno, documentos produzidos pelo Estado-Maior das Forças Armadas mostram a preocupação da ditadura brasileira com ligações entre grupos de guerrilha locais com os vizinhos latino-americanos. Em documento reservado de novembro de 1974, o ministro-chefe do Emfa, Antônio Jorge Corrêa, discorre sobre a "suspeita de entendimentos entre organizações terroristas argentinas e brasileiras" .
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Ofício endereçado ao comandante da Escola Superior de Guerra, Walter de Menezes Paes, dá instruções sobre "providências de segurança" a serem tomadas. "Esta chefia teve conhecimento através de órgãos de informação que há suspeitas de entendimento entre organizações terroristas argentinas e brasileiras, visando a atentados contra elementos indicados pelas ditas organizações", diz o ofício.
O ministro refere-se então a uma viagem de intercâmbio entre os dois governos militares e pede precauções devido às suspeitas de cooperação entre guerrilhas dos dois países: "Devendo a ESG coordenar a visita da Escola de Defesa Nacional da República da Argentina, na segunda quinzena de novembro próximo, alerto V.Exa, para as providências de segurança que se tornam necessárias. Em face do acima exposto, recomendo V.Exa. que realize as necessárias ligações com o Exmo. Sr. Comandante do I Exército", aponta Corrêa.
Em outro despacho, de 31 de outubro de 1974, Antônio Jorge Corrêa se dirige ao presidente da República, Ernesto Geisel, para manifestar a "preocupação" da Junta Interamericana de Defesa (JID) sobre a "possibilidade de reingresso de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA)", diante da discussão da revogação das sanções impostas em 1962 e 1964 ao governo cubano, como a exclusão da JID .
"O atual governo de Cuba, no momento em que passou à situação de integrante do Bloco Comunista, tornou-se incompatível junto à JID, devido ao fato de que os planejamentos militares desta já consideravam como principal ameaça ao continente americano a atuação do movimento Comunista Internacional, materializada, naquela época, por uma agressão militar de origem externa", afirma Corrêa.
Corrêa sugere, então, duas "diretrizes" para a representação brasileira na JID. A primeira, de que não participasse das discussões e se abstivesse de votações relativas a Cuba. A segunda, de que, caso fossem suspensas as sanções, o Brasil permanecesse na posição de observador e o Estado-Maior fosse "constantemente informado" .
 
 
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