(Folha de São Paulo, 20/10/2007)
Embaixada recusa-se a dar visto a deputados brasileiros

A deportação dos boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara produziu um contencioso diplomático entre Cuba e o Congresso brasileiro. O embaixador cubano no Brasil, Pedro Núñes Mosquera, informou ao presidente da comissão de Relações Exteriores da Câmara, Vieira da Cunha (PDT-RS), que o governo de Fidel Castro não concederá visto de entrada no país a deputados que pretendiam entrevistar os dois lutadores em Havana.

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Rigondeaux e Lara desertaram da delegação cubana durante os jogos Pan-Americanos do Rio. Presos, foram deportados pelo governo brasileiro, a toque de caixa, em 4 de agosto. Voaram de volta para Cuba num jatinho de prefixo venezuelano, providenciado pelo governo companheiro de Hugo Chávez. O envio de deputados brasileiros a Havana foi aprovado, em 5 de setembro, pela unanimidade dos membros da comissão presidida por Vieira da Cunha. Desejava-se ouvir os pugilistas.

Súbito, começaram a chegar aos ouvidos de Vieira da Cunha informações extra-oficiais de que a embaixada cubana em Brasília torcera o nariz para o requerimento aprovado na Câmara. O pombo-correio da insatisfação foi o deputado comunista Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Em visita ao embaixador Núñes Mosquera, Vieira da Cunha obteve a confirmação.

“O embaixador me disse que, se nós formalizarmos o pedido, ele vai negar os vistos aos deputados. Transmitiu uma posição do governo cubano”, contou Vieira da Cunha ao blog.  “Segundo o embaixador, Cuba considera que esse assunto, além de estar encerrado, é uma questão interna do país dele. Esclareceu que Cuba terá prazer em receber deputados brasileiros para outra programação. Mas deixou claro que, com esse objetivo, os vistos serão negados.”

A conversa foi testemunhada por Aldo Rebelo. Ocorreu no último dia 2 de outubro, às 17 horas. Na próxima semana, Vieira da Cunha vai procurar o deputado Raul Jungmann, autor do requerimento referendado pela comissão de Relações Exteriores.

“Vou relatar ao Jungmann o resultado da visita ao embaixador. Se ele insistir na viagem, o que é um direito dele, vou encaminhar o assunto ao [Arlindo] Chinaglia, presidente da Câmara, para que ele decida, junto com a Mesa diretora da Casa, o que fazer.”

Antecipando-se a Vieira da Cunha, o repórter procurou Jungmann na noite desta sexta-feira (19). Ele disse: “Não sou o dono da decisão. Sou apenas autor da proposta. Foi aprovada pela comissão de Relações Exteriores em votação unânime, com votos do governo e da oposição. Não me compete ou desfazer o que está feito. Tampouco existe no regimento da Câmara regra que autorize o presidente da Casa a barrar a iniciativa. É algo que só poderia ocorrer em caso de falta de verba para a viagem, o que não é o caso. Portanto, a decisão tem que seguir o seu curso natural. Não há o que fazer.”

Antes de visitar o embaixador cubano, Vieira da Cunha recebera documento do Itamaraty com informações sobre a situação atual dos boxeadores Rigondeaux e Lara. Os dados foram coletados pela embaixada brasileira em Havana, em resposta a uma requisição da comissão de Relações Exteriores. Deve-se ao repórter Iuri Dantas a revelação do conteúdo do texto.

A dupla de desertores deportados encontra-se abandonada à própria sorte na capital cubana. Segundo o Itamaraty, Rigondeaux “continua treinando por conta própria, à espera de uma comunicação oficial das autoridades desportivas sobre seu futuro.” Mais: seus companheiros de equipe “estariam evitando manter contato com ele.”

Capitão do time de boxeadores enviados por Cuba ao Pan, recaiu sobre Lara, o segundo boxeador deportado pelo governo brasileiro, “maior carga de recriminação por parte das autoridades cubanas". Anota o texto do Itamaraty: "Tudo parece indicar estar condenado ao esquecimento, sobretudo por não ter, até o momento, alcançado conquistas esportivas comparáveis às de seu companheiro."

A julgar pela indisposição do regime cubano em relação à iniciativa da Câmara, não serão os deputados brasileiros que irão arrancar os pugilistas do “esquecimento”. Entre os deputados que iriam a Cuba estão Vieira da Cunha, Jungmann, Professor Rosinha (PT-RS) e Fernando Gabeira (PV-RJ). Sem os vistos da embaixada, nenhum deles pisa em Havana. O caso de Gabeira é, entre todos o mais emblemático. Proibido de entrar nos EUA por ter participado do seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, há 38 anos, o deputado verde arrosta agora um veto do regime vermelho de Cuba

 

Escrito por Josias de Souza

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