Cachoeira, Cavendish e Cabral .
         Tem muita gente que tomou água dessa
         cachoeira
        É preciso evitar que apareça a lama 
        e respingue em gente importante...
Membros da CPI estiveram na capital francesa com Cavendish, cuja convocação foi rejeitada ontem
Chico de Gois -Demétrio Weber - O Globo - 15/06/2012
Dois dos integrantes da CPI do Cachoeira estiveram em um restaurante em Paris, na Semana Santa, com Fernando Cavendish, então presidente da Delta. O encontro reuniu o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Maurício Quintella Lessa (PR-AL).
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Estava com os dois o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), que não faz parte da comissão de inquérito. Ontem, por 16 votos a 13, a CPI barrou a convocação de Cavendish numa sessão tumultuada. Ciro Nogueira fez discurso e votou contra a convocação. Maurício Quintella Lessa não estava presente.
O encontro do empreiteiro com parlamentares foi denunciado pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Indignado com o adiamento da convocação do ex-presidente da Delta, Miro, sem citar nomes, pediu que a CPI investigasse se algum parlamentar tinha se encontrado com Cavendish na França. E alertou que poderia haver uma "tropa do cheque" em ação.
O encontro em Paris ocorreu na volta dos três parlamentares da 126 Assembleia Geral da União Interparlamentar, realizada entre 30 de março e 5 de abril, em Kampala, Uganda. Hugo Napoleão (PSD-PI), Átila Lins (PSD-AM) e Alexandre Santos (PMDB-RJ) também integravam a comitiva para a África. A viagem foi uma missão oficial, e cada um dos parlamentares recebeu US$ 350 de diária, para cinco dias, num total de US$ 1.750 cada. O dinheiro serve para refeições e pagamento de hotel. A despesa aérea, em classe executiva, foi paga à parte pelo Congresso.
Depois da Assembleia, Ciro Nogueira, Maurício Lessa e Eduardo da Fonte voaram para Paris para passar a Semana Santa. As suas mulheres já os aguardavam lá. À época, a CPI não havia sido criada, mas o escândalo envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a Delta já tinha vindo à tona.
Ao GLOBO, Nogueira confirmou o encontro, mas disse que foi casual:
- Conheço Cavendish, tenho relação com ele há uns cinco anos. Mas nada que envolva doação de campanha. (Em Paris) Nós só o cumprimentamos. Foi um encontro totalmente casual.
Encontro foi em restaurante famoso
Ele afirmou não recordar o nome do restaurante, mas lembra que ficava na Avenue Montaigne. Essa avenida, junto com a Champs Elysées e a George V, compõe um dos endereços mais chiques - e caros - de Paris, conhecido como Triangle D'Or (Triângulo de Ouro). Embora a Champs Elysées seja mais conhecida dos turistas, é na Montaigne que estão as lojas e restaurantes mais exclusivos.
Segundo Nogueira, os três parlamentares e as mulheres apenas cumprimentaram Cavendish, que, recorda o senador, estava com uma namorada nova, "muito bonita". Ciro Nogueira confirmou a amizade com o ex-presidente da Delta. Em 12 de dezembro de 2009, ele postou no Twitter: "hoje vou ao casamento do meu amigo Fernando Cavendish".
A Delta Construções negou ontem qualquer pagamento a parlamentares no Congresso, bem como eventual encontro de parlamentares com Cavendish "em qualquer lugar que seja". Outra viagem de Cavendish a Paris já causou polêmica: a em que ele apareceu em fotos num jantar ao lado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e secretários do governo do estado.
O GLOBO procurou falar com Maurício Lessa, mas não o localizou. De acordo com o atendente do gabinete, o parlamentar estava em audiência. O GLOBO telefonou para o gabinete do deputado Eduardo da Fonte, mas sua assessoria informou que ele estava voando para Pernambuco e que não seria possível localizá-lo.
Leia Íntegra da matéria no jornal O Globo de 15/6/2002
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Palmas para todos
 EDITORIAL FOLHA DE SP - 15/06
CPI do caso Cachoeira se converte em espetáculo constrangedor, enquanto legalidade das investigações da PF sofre contestação
Não poderia estar mais desgastada a ideia do "decoro parlamentar". Mereceriam rubrica especial, entretanto, certas infrações menores que se cometem no Legislativo, como na CPI do caso Cachoeira.
Sem atingir diretamente a moralidade pública, ou sequer a praxe desejável da conduta política, fazem muito para submergi-la ainda mais no descrédito.
Participantes de uma Comissão Parlamentar de Inquérito agora se dedicam a aplaudir investigados; foi o que se viu nos depoimentos dos governadores Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, e Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal.
Ao tucano, a claque de oposicionistas ao governo do PT prestou homenagem. Chegada a hora do petista, fez-se o mesmo -e a foto do líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto, apareceu na primeira página da Folha de ontem.
O entusiasmo teve como motivo, entre outros, o melodramático anúncio feito por Agnelo Queiroz, oferecendo acesso a seus dados bancários, fiscais e telefônicos.
"Não é usual o que vou fazer agora", disse o governador, "mas não posso conviver com desconfiança". A bancada situacionista e assessores do intrépido administrador prorromperam em aplausos.
Ocorre que seu sigilo já havia sido quebrado pelo Superior Tribunal de Justiça. O ato de Queiroz visava simplesmente a colocar em situação embaraçosa Perillo, que se recusara a franquear seus dados à CPI. Recusara-se, mas depois recuou. Recuou, mas não totalmente, pois não disse com clareza a que dados se referia.
A desmoralização, que já era grande, ganha assim componentes de teatro cômico. Mas ainda pesam denúncias sérias sobre ligações dos governadores com o esquema liderado por Carlos Cachoeira, envolvendo negócios e contratos com a construtora Delta (que a CPI faz de tudo para preservar).
Um assessor de Queiroz teria recebido celular à prova de grampo do grupo de Cachoeira. "Ele me garantiu que não aconteceu", disse Queiroz à CPI. Aplauda, quem puder, a explicação. Um vereador ligado a Cachoeira teria feito nomeações no governo de Perillo; à CPI o governador nega ter atendido a tais pedidos. Palmas para ele.
Uma derradeira ovação, quem sabe, fica reservada à Polícia Federal (PF). Todo o caso Cachoeira ameaça dissolver-se em vapores impalpáveis. No Tribunal Regional Federal, o relator do processo que examina a legalidade das provas da Operação Monte Carlo considera insuficientes os motivos que embasaram a escuta policial das ligações dos envolvidos.
A decisão aponta, mais uma vez, para possíveis abusos e leviandades da PF. Por falta de provas legitimamente obtidas, tudo desaparece por encanto. Merecem de fato palmas, há de se convir: tem sido primorosa a encenação

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