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Categoria: Corrupção
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 Cachoeira não é preso político pois sua ideologia é obter vantagem financeira ilícita
Wálter Fanganiello Maierovitch 
Diz um ditado popular que quem sai aos seus não degenera. Pois bem, Carlinhos Cachoeira era filho de banqueiro do jogo do bicho. Só que diferentemente do pai ele fez a sua “fezinha” no “polvo”. O polvo (la piovra), para quem não sabe, é o secular símbolo da Cosa Nostra siciliana. Como um polvo, Cachoeira lançou os seus tentáculos em todos os cantos onde pudesse obter lucros sem causa lícita. 

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Como, há anos, Cachoeira pratica continuadamente ilícitos, —e nem se inibiu com  o escândalo Waldomiro Diniz (no palácio do Planalto era assessor do então ministro José Dirceu) que protagonizou ao mandar filmar a entrega de propina—–, não irá obter baeas-corpus. Existe justa-causa para a sua prisão cautelar. Ela é necessária à luz da periculosidade social de Cachoeira que, solto, não vai parar de delinqüir. 
Por outro lado, apresenta-se grotesca a revelação da sua convivente Andressa Mendonça. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Andressa contou que o companheiro Cachoeira se considera um “preso político”. 
Pelo jeito, Cachoeira entende bastar para caracterizar crime político a ação cometida com a participação de deputados, senador (Demóstenes Torres), vereadores, prefeitos e governadores. Ora, no Direito não existe,– em lugar nenhum do mundo–, algo assim. E como sabe até a torcida do Flamengo, a única ideologia de Cachoeira é a obtenção de  vantagem patrimonial indevida.  
Cachoeira não é de esquerda, de direita ou do centro. Ele é da “grana fácil”, com violação da lei. 
Sobre o cenário criminal  onde Cachoeira cresceu e formou a sua organização criminosa, preparei algumas reflexões para a revista Carta Capital. 
Com efeito. A historiografia nos revela que o imperador Pedro II ficou frustrado com a falta de empolgação da população com o recém-inaugurado Jardim Zoológico. Para atrair visitantes, então, o imperador apostou todas as fichas no projeto do mineiro João Batista Viana Drummond, que já havia administrado a Estrada de Ferro Pedro II. 
O projeto Drummond restou implantado em 1880 e teve pleno êxito, com os visitantes a apostar nos bichos do Zoológico, divididos em 25 grupos em combinações que alcançavam o número 100. Logo cedo, à entrada do jardim zoológico, colocava-se uma caixa com um bilhete numerado dentro. Em seguida, ela era içada para o alto de um poste. No fim da tarde, abria-se a caixa para divulgação do número e o vencedor apresentava o bilhete comprado para levar o prêmio em dinheiro. 
Drummond, que virou barão só em agosto de 1888, povoou de humanos o Zoológico do imperador. Na República, o seu invento, popularizado pelo nome de jogo do bicho, sustentou, embora proibido em 1890, o carnaval carioca. Mais ainda, a jogatina alimentou o Caixa 2 de políticos, corrompeu policiais, deu apoio à ditadura militar (à época, os bicheiros tinham credibilidade e “voz” junto aos cidadãos) e completou a aposentadoria de velhinhos colocados nas ruas como “apontadores” dos jogos. Fora isso, a jogatina com banqueiro garantiu impunidade ao reformado capitão-bicheiro Guimarães, do serviço secreto do Exército e um dos torturadores do regime militar. 
O grande expoente da contravenção que deu um upgrade nas ilicitudes em termos de controle, modernidade e transnacionalidade foi Castor de Andrade, um advogado formado sem nunca ter frequentado aulas na faculdade e que herdou as bancas de jogos da mãe Carmem de Andrade, a primeira mulher a comandar essa modalidade contravencional no planeta. 
Castor de Andrade “importou” o capo-máfia Antonino Salamone, contemplado com a cidadania brasileira em um jogo de troca-troca e cartas-marcadas por ato do ministro Armando Falcão, da pasta da Justiça. Falcão, de triste memória e “nada tinha a declarar” aos cidadãos, desconsiderou as condenações de Salamone, um foragido da Justiça italiana sentenciado por associação à Máfia e por ter integrado a cúpula de governo da Cosa Nostra siciliana. Com a orientação de Salamone, o contraventor Castor de Andrade criou, no Rio de Janeiro, a cúpula dos bicheiros que, à força, deliberava sobre repartição de territórios, acabava com as guerras entre bicheiros e impunha férrea hierarquia. Tudo no interesse na difusão da jogatina, incluída a cooptação de políticos e financiamento de campanhas. 
Esse decano dos bicheiros, falecido em 1997, percebeu os problemas que viriam com a Lei Pelé, que abriu as portas do Brasil para as internacionais criminosas, sob o falso manto do incentivo ao esporte. 
A Lei Pelé possibilitou ao italiano Fausto Pellegrinetti, lavador de dinheiro da Máfia e dos cartéis colombianos de cocaína pós-Pablo Escobar, introduzir no Brasil os jogos de azar com máquinas eletrônicas. Os componentes eletrônicos eram adquiridos na Espanha e aqui montados. Pellegrinetti despachou ao Brasil, a fim de acertar com a cúpula dos bicheiros do Rio e com Ivo Noal, o mandachuva paulista da contravenção, o mafioso Lillo Lauricella, que aqui se estabeleceu sem ser incomodado pela polícia. 
Preso na Itália pela chamada Operazione Malocchio (Operação Mau-olhado), iniciada em 1995 pela Direção Antimáfia dirigida pelo coronel Angiolo Pellegrini, o mafioso Lauricella contou, em juízo, do acordo celebrado com os bicheiros brasileiros. Numa das interceptações telefônicas entre Lauricella e Pellegrinetti foi dito que a Lei Pelé pegara o Brasil de surpresa, sem empresários com capital suficiente para a aquisição de máquinas e as espalhar pelo vasto território nacional, que não se resumia ao eixo São Paulo—Rio de Janeiro. 
Para lavar o dinheiro dos cartéis colombianos da cocaína, Pellegrinetti escolheu o Brasil, a República Dominicana, onde lavava o dinheiro em flores exóticas e frutas, e a Rússia, com placas de alumínio. Por aqui, Pellegrinetti, com capital da cocaína colombiana, disseminou, no Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Minas e Ceará, máquinas de jogos eletrônicos de azar. 
Na primeira leva, foram 35 mil máquinas eletrônicas, todas com componentes da empresa espanhola Recreativos Franco, com sede em Madri e representação em 50 países, incluídos os EUA. Há décadas, a empresa fabrica e exporta máquinas e componentes eletrônicos para jogos de azar. O empresário Franco foi preso nos Estados Unidos, acusado de subornar um funcionário do Departamento de Fiscalização de Jogos de Azar do Estado do Arizona. Além do crime de corrupção, Franco respondeu por fraude por suspeitas relativas à alteração de programas de computadores, que afetaram 3.900 arquivos de três distintos sistemas de jogos. Em São Paulo, a família Ortiz, cujo inquérito foi arquivado por se aceitar a explicação de desconhecer que tratavam com criminosos internacionais, dividia com Ivo Noal a exploração da jogatina, com apoio na Lei Pelé.
Com o sucesso da Operazione Malocchio, quebrou-se a conexão brasileira executada por Fausto Pellegrinetti. Abriu-se espaço, então, para velhos (a juíza Denise Frossard condenou 14 deles) e novos empresários da jogatina substituírem os mafiosos: Lauricella virou colaborador de Justiça e, dois anos depois com outra identidade, acabou metralhado ao deixar um de seus cassinos abertos na Venezuela, naquilo que foi considerado um acerto de contas por ter delatado. Na noite do assassinato, Lauricella portava uma mala com vultosa renda do cassino, que permaneceu intata ao lado do corpo. 
Carlos Augusto Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira, é um dos filhotes da Operazione Malocchio e da incúria de algumas autoridades brasileiras, a começar pelo então ministro da Justiça, o atual senador Renan Calheiros. Com técnica mafiosa, Cachoeira montou uma “holding criminal” e recicla dinheiro lavado em atividades formalmente lícitas, por meio de inúmeras empresas, de remédios a automóveis.
Como um “capo-máfia”, Cachoeira infiltrou-se no poder, cooptou o senador Demóstenes Torres, que vestia panos de Tartufo à Molière, e sua organização criminosa passou, como faz a Cosa Nostra, a atuar parasitariamente. Também influenciava nas licitações, escolhendo os ganhadores de obras públicas e apadrinhando para cargos públicos, como aconteceu, por meio de interposta pessoa na mediação (Demóstenes), com indicação feita pelo senador Aécio Neves. 
Como se nota, jamais o barão de Drummond imaginou tal evolução para o seu inocente jogo do bicho. Como fica claro no caso Cachoeira com a Operazione Malocchio, a Las Vegas, que dormiu o sono de Morfeu acalentado pelo procurador-geral Roberto Gurgel, e a Monte Carlo, o crime organizado no Brasil opera em rede, coopta autoridades, sustenta políticos. Mais ainda, como um parasita suga o Estado-nacional.
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, cujo relatório final não vincula o Ministério Público, não será suficiente para contrastar ou inibir esse fenômeno criminal que mina o Estado Democrático de Direito. Recente proposta de tipificação de crime de corrupção para agentes públicos com patrimônio sem origem mostra o quanto estamos capengas e desconhecemos a experiência de fora. Na Itália, o patrimônio suspeito é de pronto apreendido e, em 20 dias, se não comprovada a origem, passa a ser propriedade do Estado-nacional. 
Nas organizações criminosas especiais, que não são meras quadrilhas ou bandos, as pessoas que agem como intermediários, como senadores, governadores ou deputados, são enquadradas por associação externa ao crime organizado, algo não contemplado no nosso Código Penal. Um código em vias de reforma, com novos tipos, aumento de penas e prazos prescricionais, mas sujeito a um sistema de Justiça moroso, com foro privilegiado e escolha dos procuradores-chefes pelos governadores e pelo presidente da República. Quando os fiscalizados escolhem o fiscal, existe o risco de interferência dos Cachoeiras.    
Só para lembrar, CartaCapital, em três edições, denunciou o esquema da jogatina eletrônica de azar no Brasil, as suas ramificações internacionais e, por aqui, a lavagem de dinheiro escancarada do tráfico internacional de drogas proibidas. CartaCapital entrevistou o responsável pela Operazione Malocchio sobre a conexão criminal Itália—Brasil. Do lado italiano foram todos definitivamente condenados. No Brasil, o inquérito foi arquivado a pedido de um membro do Ministério Público Federal. Com o arquivamento, a conexão brasileira foi apagada, como se nunca tivesse existido. Com o “apagão”, os Carlinhos Cachoeiras acabaram “vitaminados” e posaram à sombra de políticos e da velha guarda do bicho, como Anísio Abraão, Capitão Guimarães, Turcão etc.
Wálter Fanganiello Maierovitch -
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