Nas Entrelinhas 
Denise Rothenburg 
Correio Braziliense - 24/04/2012 
Os partidos se preparam para proteger seus governadores. Se for para chamar chefes de governos que têm contratos com a Delta, Lula e Dilma serão colocados na roda. Afinal, o Executivo federal, no ano passado, tinha mais de R$ 800 milhões em obras com a empresa
Em 2005, quando o então deputado José Dirceu (PT-SP) apresentava sua defesa no Conselho de Ética da Câmara, ele colocou entre suas testemunhas o então ministro de Ciência e Tecnologia e deputado, Eduardo Campos, do PSB. Sempre bem-humorado, ele comentou com amigos: "Não sei se isso é bom. Pense num homem, lá no interior, vendo o Jornal Nacional, e aparece o deputado ou o ministro, sentado, falando. O sujeito pensa logo: "Eita! Olha lá! Tá na CPI, e eu achei que ele era honesto". Até explicar que era testemunha, o prestígio foi-se embora. Isso não é bom nem a favor", comentava, provocando risos na turma sentada à sua volta.
O raciocínio dos partidos, neste momento, vai na mesma linha. Por isso, entre quatro paredes, os líderes partidários farão o que for possível para evitar a presença de seus governadores nos bancos da Comissão Parlamentar de Inquérito que investigará as relações do bicheiro Carlos Cachoeira com autoridades e empresas privadas detentoras de obras públicas. E alguns não estão brincando quando dizem que não é possível convocar um governador só porque o estado tem obras com a empresa Delta.
Dentro do PMDB, a ordem é proteger o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, onde a Delta tinha cerca de R$ 500 milhões em contratos em 2010. Embora ele não seja um assíduo frequentador da cúpula partidária, o PMDB tem em Cabral um de seus ícones atuais. Afinal, ele governa o terceiro maior colégio eleitoral do país. Nesse sentido, há quem diga que, se Cabral tiver que depor na CPI porque o Rio de Janeiro tem contratos com a Delta, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma também devem ser chamados. Afinal, o Executivo federal, no ano passado, tinha mais de R$ 800 milhões em obras com a empresa.
Por falar em depor...
Mesmo em relação aqueles que já foram citados — Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, e Marconi Perillo, de Goiás —, a idéia dos partidos é evitar chamá-los ao palco principal num primeiro momento. A ideia é começar por Carlinhos Cachoeira e pelo senador Demóstenes Torres, que já está para lá de chamuscado e, no mais, torcer para que o tempo passe rápido rumo às eleições municipais, quando a aposta dos políticos é a de que Brasília perca fôlego. A esperança das excelências é de que tudo se concentre nas grandes capitais, onde o eleitor estará ligado em escolher o candidato que melhor corresponder aquilo que cada cidadão deseja para a sua cidade.
Por falar em cidadão...
No papel, o plano dos políticos está perfeito. Mas até as paredes de mármore do Congresso sabem que CPI não funciona como foi planejado. No caso de Cabral, Anthony Garotinho, do PR do Rio de Janeiro, adversário político do governador, vem com a "faca na boca" para tentar colocá-lo no epicentro da CPI e constrangê-lo. Íris de Araújo (PMDB-GO) pretende investir contra o governador Perillo, do PSDB, também adversário de seu partido em Goiás. E, em relação ao Distrito Federal, também não será diferente.
Resta saber, desses partidos, quem terá a coragem de propor a convocação de Lula ou de Dilma. Talvez o PSDB, depois de ter se arrependido da pisada no freio nos tempos do mensalão — e dado o recorde de popularidade do governo Dilma Rousseff — decida convocar os dois nomes que hoje aparecem melhor na corrida presidencial de 2014. Afinal, quem tem mais a perder são Dilma e Lula, que estão por cima da carne seca. E não o PSDB, que procura uma luz para o futuro. Se for assim, o enredo da CPI promete ficar melhor do que a da novela das 9h. Vamos aguardar.
 

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