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Categoria: Diversos
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 por Heitor De Paola

Resumo: A mobilização de colunas agindo em várias frentes e a destruição de tratores promovidas pelo MST não é apenas uma escalada nas ações da organização, mas um teste para as autoridades. Sem reação, a organização comunista passará a ações cada vez mais destrutivas.


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Texto completo  

[A compreensão do que se segue será bastante facilitada pela leitura prévia de meus artigos Um Estado dentro do Estado e Um Estado dentro do Estado – Parte II, pois só retornarei brevemente às questões lá levantadas.]

“O estabelecimento das comunas populares tem por finalidade primordial acelerar o ritmo de edificação do socialismo (...) e preparar ativamente a passagem para o comunismo. Pelo que vemos a realização do comunismo, no nosso país, não é um acontecimento que pertença ao futuro longínquo. Devemos nos empenhar em utilizar a forma das comunas populares a fim de explorar um caminho concreto de passagem ao comunismo”. 
(Resolução do Comitê Central do PC chinês sobre o estabelecimento de comunas populares nas regiões rurais - 29 de agosto de 1958)

Quarenta a nove anos depois parece que esta afirmação se mostra adequada ao nosso país, ao menos para quem tem notícias do que anda acontecendo nos Pampas, no Nordeste, no Pontal de Paranapanema e outros pontos do país. Limitar-me-ei ao sul neste artigo, não somente por ter um interesse especial em meu estado natal, mas porque é de lá que recebo maior número de informações. Enquanto os jornais do interior dão fartas descrições das atividades do MST em todo o território gaúcho, os jornais de âmbito nacional e as redes de televisão raramente noticiam alguma coisa. E quando o fazem é de forma inócua, sempre apresentando o assunto como um problema regional pela posse de terras e com um viés nitidamente coletivista, em que não se noticia a extrema violência da guerrilha rural. Noticia-se, por exemplo, um “conflito pela posse de terras” como se tais terras fossem devolutas, não tivessem donos legítimos, possuidores de escritura lavrada e registrada em cartórios, constituindo-se tal conflito, portanto, em pura tentativa de roubo de propriedade alheia. Este viés está eivado, implicitamente, das teorias marxistas leninistas, do comunismo chinês e da Teologia (ou seria demonologia?) da Libertação; em última análise, do retorno a um estado teórico provavelmente jamais existente de “comunismo primitivo”, a posse coletiva da terra, contrariando as leis e a Constituição Federal que define a propriedade privada. Por isto os participantes que, para qualquer um versado nas artes da guerra revolucionária são guerrilheiros e terroristas – mesmo que ainda sem armas de fogo –, são carinhosamente chamados de “sem-terra”. A população só perceberá que está frente a guerrilhas treinadas na estratégia e táticas da guerra revolucionária quando for tarde demais, e aí... Inês estará morta – e muito mais gente!

Antes de prosseguir é preciso deixar bem claro que a Teologia da Libertação, mãe e mestra do MST, é um engodo, não é oriunda da Doutrina Social da Igreja, tal como definida em várias Encíclicas desde aRerum Novarum, nem tem nada de cristianismo, nem é uma “re-leitura” da Bíblia, por isto chamo-a de Demonologia da Libertação. Sua origem está na infiltração dos seminários decidida pelo “extinto” Komintern logo após a morte de Stalin, com base nas idéias de Antonio Gramsci. Este dizia que a Igreja Católica é uma rocha que jamais seria vencida no confronto direto: “Bater com a cabeça na parede faz a cabeça doer e nada acontece com a parede; é preciso penetrar por trás da parede para destruí-la por dentro. Não tomem quartéis, tomem seminários; não insistam que a religião é o ópio do povo, mas penetrem com nosso próprio ópio para destruir sua vontade de lutar”. O resultado se fez sentir logo após o Concílio Vaticano II, onde foi proibido condenar o comunismo ou sequer citá-lo, as Conferências Episcopais de Puebla e Medellin, a criação das Comissões Pastorais da Terra e as Comunidades Eclesiais de Base. Num dos artigos citados acima conto como começou o MST na região de Ronda Alta e mostro a inequívoca declaração de João Pedro Stédile: “O MST é filhote da CPT”. Se a CPT é a mãe, o Komintern é o pai e Gramsci o dileto padrinho.

AINDA A FAZENDA COQUEIROS

A importância estratégica da Fazenda Coqueiros é enorme. Com 7.100 hectares inteiramente produtivos, está localizada na confluência de oito importantes municípios numa área há muito conflagrada. Na fronteira de suas terras passam duas rodovias importantes – as RS-324 e BR-386 (ver mapas dos artigos anteriores). Com a tomada da Fazenda Coqueiros o MST poderia "”echar um território”, criar uma “zona de domínio”, base fundamental para a acumulação de forças e alimentos, estoque de armamentos e até mesmo heliportos e campos de pouso para pequenas aeronaves de transporte e receber ajuda das FARC e da Via Campesina, visando um futuro “Exército de Libertação”. A área já sofreu oito invasões e, segundo relata Cleber Bertoncello, naZero Hora do último dia 17, o conflito teria escalado no dia anterior com a explosão de dois tratores, custando R$ 100.000,00 cada, que se encontravam perto da sede da fazenda. Foram danificadas pelo fogo parte da carenagem, o tanque de combustível e partes elétricas. A família Guerra, proprietária da fazenda registrou queixa na Delegacia de Carazinho.

Foto: Zero Hora

O episódio, que caracteriza uma escalada do conflito, um “salto qualitativo”, ocorreu poucos dias antes da chegada de uma marcha do MST em direção à fazenda, dividida em três frentes num total aproximado de 2.000 efetivos: uma coluna proveniente das Missões, que teria se deslocado de São Luiz Gonzaga para Santo Ângelo, a noroeste da Fazenda; outra da Região Sul do Estado; e a terceira sairá de Canoas e São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Líderes do MST acreditam que as três chegarão à região na segunda semana de outubro.

No dia 18, Paulo Guerra, filho de Félix Guerra, proprietário da Fazenda Coqueiros, entrevistado por Políbio Braga, relatou que às 3:30 h. do dia 17, foram ouvidos dois estrondos quando explodiram os dois tratores. Paulo Guerra não tem dúvida de que se trata de uma ação terrorista e criminosa do MST, o primeiro ato terrorista – portanto um “salto qualitativo” - do MST no estado. “Explodir tratores é o começo de uma série de atos terroristas dos sem-terra no estado. Todas as práticas de terrorismo rural implementadas pelas FARC estão começando a ser utilizadas aqui no estado pelo MST. Agora, eles não querem mais somente invadir terras. A nova ação deles busca a tomada de territórios”. Guerra também teme um confronto direto com o MST, pois segundo declarou, isso é o que eles mais querem: derramamento de sangue. Sem dúvida, um novo Eldorado dos Carajás viria a calhar para explorar na imprensa nacional e estrangeira.

A COLUNA SUL

Desde as primeiras horas da manhã do dia 17, produtores rurais da região de Bagé, Candiota, Hulha Negra, Aceguá e Pinheiro Machado (ver mapa abaixo) estão mobilizados aguardando o ingresso da marcha do MST em direção à primeira cidade. Cerca de nove ônibus e uma carreta deslocaram-se da cidade de Pelotas, onde aproximadamente 500 guerrilheiros estão acampados próximo à zona portuária, para a região, via Capão do Leão, a oeste de Pelotas. As informações sobre o tempo de permanência dos invasores na região são vagas.

 

Conforme o presidente da Associação/Sindicato Rural de Bagé, Paulo Ricardo de Souza Dias, os produtores rurais estão mobilizados para garantir o direito de propriedade assegurado constitucionalmente a todos. Mesmo sendo uma marcha de passagem pela região e sabido o grau de agressividade e brutalidade empregada pelo grupo em suas invasões, o presidente salienta a necessidade de assegurar a segurança das propriedades e suas famílias. Os invasores terão como apoio logístico a sede campestre do Clube Recreativo Brasileiro, cedido pela prefeitura. “Não vemos a necessidade desta marcha ocorrer no município, visto que o destino final dos invasores é a cidade de Coqueiros do Sul”, salienta.

Vejo esta última afirmação como um sintoma perigosíssimo de divisão entre os fazendeiros para enfrentar um movimento com controle unificado. Se é em direção à Fazenda Coqueiros que passem sem nos molestar. E quando for contra Bagé? Aí haverá mobilização só na região? Uma guerra na qual um lado é unificado em nível nacional –e internacional, através da Via Campesina! - e o outro está dividido, já está previamente decidida. Adiante voltarei a este tema.

DESENVOLVIMENTOS

Próximo das 10 h. da manhã, os militantes chegaram ao trevo de acesso à cidade de Bagé. Em uma área afastada dos produtores foi realizada a revista pela Brigada Militar (nome da Polícia Militar no RS). O grupo seguiu seu protesto em direção a Santa Tecla, onde foi seguido de perto pelos produtores rurais. Os ruralistas garantem que seguirão monitorando os movimentos dos invasores. A vigília dos ruralistas vem ocorrendo desde o dia 16, quando foram informados da destruição dos dois tratores da Coqueiros. Pela primeira vez alguém usa a denominação certa para o movimento:“Observamos que este tipo de comportamento é uma manifestação de guerrilha”, fala Dias.

Já os líderes do MST explicam as marchas com os usuais subterfúgios: como gesto de “denúncia” à sociedade contra a expansão das plantações de eucaliptos em terras que poderiam ser destinadas à produção de alimentos e contra a demora do governo para assentar as 2.500 famílias de sem-terra acampadas no Rio Grande do Sul. Mas no final vem parte da verdadeira razão:as manifestações também reivindicam a desapropriação da Fazenda Coqueiros . É claro que deixam de declarar com que finalidade ela teria que ser desapropriada, deixando a suspeita de serem apenas pobres e pacíficos camponeses espoliados pelos cruéis latifundiários.

A mobilização da categoria em torno do grupo do MST instalado na cidade continuou na terça-feira 18. Com o clima de tensão, os ruralistas continuaram vigiando o grupo instalado na sede campestre do Clube Recreativo. Informa a Assessoria de Imprensa do Sindicato que“as acusações de ameaças realizadas por parte do grupo social (?) contra os produtores a imprensa e autoridades, são negadas pelos ruralistas que mantêm vigília pacifica em torno do grupo”.

Outro erro fatal: “grupo social”? Notem como existe uma enorme confusão criada pela guerra cultural modificando completamente o senso comum. No velho e abandonado bom senso invasores são invasores; terroristas são terroristas; guerrilheiros são guerrilheiros. No senso comum modificado pela guerra cultural passam a ser inócuos e anódinos“grupos sociais”, ou “movimentos sociais”.

O presidente da Associação/Sindicato Rural de Bagé, Paulo Ricardo de Souza Dias, assegura não ter havido nenhuma ocorrência de excesso da parte dos produtores que estão acampados a poucos metros do MST em uma propriedade particular. “Nosso propósito unicamente é montar vigília ao grupo do MST. As instruções para os produtores é a de manter cautela e tranqüilidade, embora saibamos da existência do clima de animosidade existente”, fala Dias.

Conforme o diretor de assuntos fundiários da Federação da Agricultura no Rio Grande do Sul (Farsul), Gedeão Pereira, o grupo está escoltado e vigiado pela Brigada Militar.“Vamos mostrar que estamos presentes e atentos”, comenta. Ele afirma que “os produtores vão acompanhar as colunas do grupo invasor por vigilância direta e por observação nas outras regiões. A grande preocupação de Pereira é a união das três frentes, que pretendem se encontrar diante da Coqueiros no início de outubro para uma grande manifestação pela desapropriação da fazenda”.

Mas não basta ficar como preocupação, é preciso começar - já! – a mobilizar todos os fazendeiros do Rio Grande – e posteriormente de todo o País – para resistir nem que seja à força, aos avanços do MST. É fundamental também a união dos empresários, profissionais liberais e todos os que tenham interesse em defender a permanência da propriedade privada. É promissora a notícia de que as entidades empresariais da região decidiram apoiar o Sindicato Rural. O Sindilojas (Sindicato dos Lojistas) reuniu lideranças das outras entidades sindicais ou representativas de empresários num Fórum Permanente das Entidades Empresariais, “com o objetivo de expressar apoio aos produtores rurais e empresas do transporte coletivo de Bagé, visando a proteção da propriedade privada, a livre iniciativa e o espírito empreendedor”.

O Presidente do Sindilojas, Luis Fernado Dalé, declarou ser “do entendimento dessas entidades, a fundamental importância da organização sob a forma de Fórum, com reuniões mensais que discutirão estratégias conjuntas de trabalho em defesa da manutenção e criação de novos empregos em Bagé. Visa-se também enaltecer o reconhecimento da importância da atividade primária para a economia local, com a presença e apoio das empresas locais para o desenvolvimento dos projetos sociais existentes e já realizados, assim como o incremento econômico e geração de riquezas e desenvolvimento econômico na região”.


Chamo a atenção novamente para o fato gravíssimo dos dois “saltos qualitativos” ocorridos: a destruição dos tratores e a evolução de movimentos isolados para amobilização de colunas em vários fronts. Não foi apenas uma simples escalada do conflito, mas também um teste para as autoridades. Se não houver uma resposta firme contra os atacantes e a paralisação, pela força se necessário, do avanço dos trêsfronts, a guerrilha passará a novas formas de ações cada vez mais destrutivas. Quem viver, chorará!

Terei mais a dizer nos próximos artigos sobre o tema.

NOTA DO AUTOR: Meus dois artigos anteriores sobre o tema (Um Estado dentro do Estado I e II) foram divulgados em alguns sites erroneamente como “um relatório reservado da Brigada Militar”, embora citando meu nome como autor e Midia Sem Máscara como fonte, mas sem as importantíssimas referências apresentadas por mim. Reitero que os textos e as pesquisas são de minha lavra exclusivamente. Doravante, só permito a divulgação de meus artigoscontendo todas as referências, sem exceção, e o link para o artigo original. Quem não seguir esta determinação ficará sujeito a processo judicial.

 

 



 

 

 

 

 

Legenda: MAPA DA REGIÃO. Para um mapa com maior detalhamento ver:

http://www.daer.rs.gov.br/daer_maparodoviario_4590_3638.jpg
 

O autor é escritor e comentarista político, membro da International Psychoanalytical Association e ex-Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia,  Membro do Board of Directors da Drug Watch International, e Diretor Cultural do Farol da Democracia Representativa (www.faroldademocracia.org) . Possui trabalhos nas áreas de psicanálise e comentários políticos publicados no Brasil e exterior. E é ex-militante da organização comunista clandestina, Ação Popular (AP).