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Categoria: Forças Armadas
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  O General serviu oito anos ao lado de Lula !
  Acostumou-se com esses arroubos do chefe...
  De repente, a política muda...

Por Vânia Cintra
vou roendo pedra dura sonhando com pão-de-ló
// eu tenho que dar um jeito, pouca coisa a gente inventa
//você diz que tá com tudo porém nada apresenta
//ó nega, prepare o jiló... com pimenta.
Zeca Pagodinho

Após um período meio nublado e morno, os últimos acontecimentos, envolvendo a Polícia Militar baiana, a Força de Segurança Nacional e o Exército Brasileiro, esquentaram os ares, tiveram desdobramentos, e têm sido assunto de muita conversa na Imprensa escrita, no rádio, na televisão e entre os cibernautas. Dos textos que li, um nos lembra a atitude de entusiasmo de Jacques Wagner, hoje Governador da Bahia, - e a de um Lula ainda sindicalista - durante a greve da Polícia Militar baiana ocorrida em 1992. .
Texto completo
Muito interessante. Outro relata (alguns diriam "elenca"...) as manifestações de prodigalidade do nosso atual Ministro da Defesa quando Ministro das Relações Exteriores e também recorda a “coragem” de Genoíno, seu atual fiel escudeiro, quando foi preso pela repressão à guerrilha. Também bastante interessante, esse. Outros textos mais despertaram meu interesse, maior ou menor. Também li que, antes que se dispersassem, "um grupo de 50 manifestantes, entre grevistas e apoiadores da paralisação da PM baiana, avançou em direção a uma barreira formada por soldados do Exército, numa tentativa de ficar na parte externa do prédio onde estão outros grevistas. Usando o corpo, os soldados tentaram impedir que os manifestantes ultrapassassem o cordão de isolamento, mas uma parte do grupo conseguiu passar. Não houve agressões nem tiros de balas de borracha. Mas foram lançados jatos de gás de pimenta nos manifestantes" (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1046033-grupo-fura-bloqueio-do-exercito-e-se-junta-a-grevistas-na-bahia.shtml). Pobres soldados. A Anistia Internacional já declarou que o uso de gás de pimenta é prática de tortura... Mas tive cá minhas dúvidas se, na Bahia, pimenta não possa ser considerada perfume. Geladinho, com esse calor que anda fazendo, às vésperas do carnaval...
O mais interessante dos textos que li, entretanto, foi um que comentava o afastamento do General Gonçalves Dias do Comando de Operações em Salvador. Aliás, seria um bocado interessante que os Oficiais militares que traçam suas cálidas considerações a respeito desse fato e dos que o motivaram dessem alguma atenção a certas palavras postas nesse artigo - que cita versos do I-Juca-Pirama, e é sempre bom lembrá-los: “Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar!”; e refletissem muito e muito a respeito de que autoridade um General deverá transmitir aos comandados para não envergonhar o Exército... e a Nação. As palavras a que me refiro são: "Gonçalves Dias disse coisas assim: ‘…Não vai ter combate, não vai ter invasão, não vai ter nada.’ (...) E, quando se começa a duvidar da autoridade de um general é porque já não há a menor dúvida." (estão em http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2012/02/09/general-que-confraternizou-com-pms-e-afastado/). E não foram escritas por Clausewitz ou por um mítico “gorila” qualquer que povoe processos que sejam levados à Comissão da Verdade, mas por Josias de Souza, que mereceu um Prêmio Esso de Jornalismo por uma série de reportagens intitulada “Os Papéis Secretos do Exército”...
Que Josias de Souza se ponha confuso a respeito do valor da autoridade de um General, que ora a condene, ora reclame por ela, até admitimos. Isso faz parte do complexo quadro de mudanças climáticas que atravessamos. Mas que um Oficial das FFAA assim se demonstre, não!
Quem, diabos, nessa altura do campeonato, seria capaz de lembrar-se de Caxias unicamente para argumentar que ele foi pacificador e, assim, tente justificar os versos de Gonçalves Dias, o General, declamados em Salvador? Quem pensou nisso se perguntou como e por que Caxias obteve esse título?
Não, não se perguntou, não sabe, não se interessou por saber. Não conhece a História, não conhece os fatos, não conhece os feitos, não conhece os homens. Não conhece horizontes nem limites, não conhece honra, não reconhece um fim nem reconhece um princípio. Conhece os rótulos e acredita neles. Talvez creia também, porque alguém lhe contou essa potoca, que a função de um Oficial Comandante seja a de evitar batalhas, pôr panos quentes nos conflitos e, ao despedir-se do inimigo após “lutar pela paz” corpo a corpo, pedir-lhe, por favor, que permita beijar-lhe as bochechas.
Caxias foi o grande Comandante-em-Chefe vitorioso, o que impôs no Império inteiro a paz do Império, não a dos insurgentes, não outra qualquer. A paz daquele o Império que o Exército honrava e nos ensinava a honrar. Do Império em que Caxias abafava as vozes insubordinadas no fio de sua espada. Espada honrada, que deveria continuar a ser honrada pelos que recebem suas réplicas e hoje as Escolas (todas) ensinam a desonrar. Por isso, e só por isso, Caxias pôde ser chamado de "o pacificador" - porque, estando o Exército brasileiro vitorioso sob o seu Comando, a Nação, vitoriosa, não mais enfrentou guerras. Ora, não as enfrentou por quê? Porque não houve mais necessidade de enfrentá-las, pois todas as guerras haviam sido ganhas. Não por uma razão "meiguinha" qualquer. Ele, Caxias, "fez a paz”, sim, ou, traduzindo em bom português, deu um fim à baderna e à insegurança.
E há certas coisas bem certas das quais estou bem segura, como, por exemplo, a que não lhe ocorreria, jamais, e ninguém se atreveria a sugerir a Caxias que interrompesse um cerco para festejar seu aniversário ou a de que Caxias não receberia, jamais, docinhos ou regalos quaisquer daqueles que era seu dever enfrentar.
Só posso, então, achar muito divertido certos comentários que leio. Só falta, daqui a pouco, um "historiador" qualquer vir a público dizer que as pesquisas por ele feitas comprovam que Caxias, na Campanha no Paraguai, dormia vestindo uma camisola cor-de-rosa com rendinhas e miçangas peroladas ou apenas uma gota de Chanel nº 5 atrás da orelha, e todo o EB ficar em silêncio ou ainda bater palmas.
Ao que me parece, aqueles que Caxias deveria inspirar estão hoje muito confusos. Pelo menos, estão confusos demais para meu gosto. Nisso é que dá aceitar ter políticos, juristas e diplomatas mal formados em um Ministério da defesa de que exatamente não se sabe, e subordinar a tropa à sua condução.
Usar de bons modos é uma coisa - e não há por que um Comandante agir com violência gratuitamente. E os protocolos do Comando não implicam qualquer estupidez ou voluntarismo, mas, sim, pelo contrário, implicam necessariamente adequada noção de estratégia, disciplina, objetividade, respeito pelo inimigo e justiça e, acima de tudo, exigem brio e inteligência. Já agir como um “vaselina”, comprometendo-se e comprometendo a Força, enterrando seus fins e seu princípio em praça pública, em pleno meio-dia, à vista de todos, é uma outra coisa e bem outra. Esses não são protocolos militares, nunca foram e nunca serão - são apenas expedientes oportunistas, mesmo que resultem em um elogio em ficha disciplinar.
O que o nosso Gonçalves Dias contemporâneo cometeu ao encharcar de lágrimas o ombro de um amotinado não foi um gesto bonito, político ou diplomático, muito menos foi um gesto militar, e não se deveu a precaução ou cautela alguma. Durante aquele abraço não foi cochichado qualquer verso à liberdade, à igualdade ou à fraternidade. O ato foi apenas a expressão do conchavo, da politicagem, da falta de compostura, conforme eu já disse, agora repito por respeito à memória dos meus, e repetirei quantas vezes esse ato for lembrado.
Artistas fazendo as vezes de Juristas, poetas cosmopolitas fazendo as vezes de políticos, contorcionistas fazendo as vezes de Soldados e outros híbridos que tais já os temos de sobra. Não nos fazem falta.
E, caramba, nessa altura do campeonato - quando greves em cada capital de cada estado desta Federação mal nascida, troncha e mal ajambrada pipocam na gordura quente vertida pela marginalidade estimulada, quando elementos da Polícia Militar usam como proteção seus próprios filhos, mantendo-os reféns em suas assembléias, e usam como arma, em proveito próprio, a ameaça à população de que o crime seja deixado à solta enquanto durar sua omissão, avisando-a que "evite transitar pelas ruas” para que não haja pânico -, há ainda quem se preocupe com recomendar que se vá devagar com a louça para que o EB não seja apontado como culpado de coisa alguma? Que se vá devagar com essa louça para onde? Uma louça já toda trincada para que serve? O destino normal, racional e correto de uma louça trincada é o lixo, não outro, vá depressa ou vá devagar. Até por medida de higiene. E quanto mais depressa for, melhor, porque poderá ser substituída por uma louça inteira e limpa, que sirva àquilo para que foi criada, e que, quando sirva em nome do Estado, não dependa de considerações do Governo algum. Mas ainda há quem pretenda que, nessa altura do campeonato, o EB corra a esconder-se debaixo da mesa, acreditando que só com esse comportamento ele sobreviverá. A que custo o EB sobreviverá? Sobreviverá para quê? Para atender aos caprichos de Dona Rousseff ou de outro qualquer mandatário eleito por qualquer outro Partido sem vergonha que esteja preocupado com oferecer aos turistas um carnaval e um futebol com poucos riscos e assim “salvar” a economia da “marola”? Afinal, que imagem-modelo os Oficiais das FFAA hoje vêem no espelho?
Levantar essas questões reflete uma vidinha teórica? Não. Nem precisar discuti-las faz parte de qualquer vidinha teórica – faz parte de uma vidinha muito da medíocre, que se torna cada vez mais amarga, como jiló. E, exatamente por ser medíocre, da boa teoria e da boa prática, essa vidinha se encontra a séculos-luz. Mas há quem encontre um jiló doce. E este é o meu País, que ainda exige que essas discussões sejam provocadas. E assim vem sendo por culpa de quem?
Poeta por poeta, meus amigos, creio que os versos mais adequados à atual situação política sejam, mesmo, os de Zeca Pagodinho.