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Categoria: Diversos
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 Por Raymundo Costa - Valor Econômico

Pelas mãos do petista Tarso Genro, o delegado especial Romeu Tuma Júnior (PMDB-SP) tomou posse ontem na Secretaria Nacional de Justiça. Nunca antes uma nomeação de Lula deixou tão agastado e confundiu tanto o Partido dos Trabalhadores. A razão é simples: Tuma Jr. foi o primeiro a apontar o dedo acusador para o PT no assassinato do prefeito Celso Daniel, ocorrido em janeiro de 2002. Uma tese depois defendida com entusiasmo por seu pai, o senador Romeu Tuma (DEM-SP), na CPI dos Bingos.

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"O governo parece atingido pela Síndrome de Estocolmo: o cara tortura você durante meses e depois vira seu herói", protestou o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que atuou como advogado do PT no caso da morte do prefeito de Santo André. A tortura a que se refere Greenhalgh é a CPI dos Bingos, uma das cinco que o governo respondeu na crise de 2005, na qual os Tuma, pai e filho, formaram na linha de frente daqueles que tentaram desqualificar a tese do crime comum. 

Já em 2002, poucos meses após o assassinato, Tuma Jr. sugeria que a morte de Celso Daniel fora um crime político. Na crise de 2005 o Tuma pai recorria à experiência como policial, na CPI do fim do mundo, como era chamada pelo governo a CPI dos Bingos, para estabelecer a ligação entre o PT e o assassinato do prefeito. A morte de Celso Daniel é um desses fantasmas que de vez em quando voltam para assombrar o PT. A diferença agora é que o esconjuro não é dos Tuma. É de Lula. 

Na crise de 2005, a CPI dos Bingos foi a que chegou mais próximo do Luiz Inácio Lula da Silva. Na ante-sala, cujo conforto o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, teve que deixar por um dia para ir falar no Congresso sobre supostas falcatruas na prefeitura de Santo André - e de uma "caixa do PT" - que estariam na origem do crime. Carvalho teria ficado "impactado" com a nomeação de Tuma Jr. para a Secretaria Nacional de Justiça, mas também justificado a escolha de Lula como um preço a ser pago em nome da governabilidade. 

No Planalto e no Congresso atribui-se a nomeação de Tuma Jr. a uma negociação do governo para engordar sua base de sustentação política no Senado, onde sua maioria é precária: 41 em 81 votos, número insuficiente para aprovar projetos que exigem quórum qualificado, como é o caso, por exemplo, da prorrogação da DRU (Desvinculação de Receitas da União) e da CPMF, o imposto do cheque. 

Tuma terá de renovar o mandato em 2010 e enfrenta concorrência no DEM de São Paulo pela indicação do partido. Por isso acena com a possibilidade de trocar de legenda. O rumo seria algum partido da base governista. O PRB do vice-presidente José Alencar, ou o PTB do ex-deputado Roberto Jefferson. 

Tuma: de algoz na CPI a aliado do governo 

A negociação é comandada pelo ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia. Com as bençãos do ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), que é alternativa para a presidência do Senado, na hipótese de o senador Renan Calheiros ser forçado a deixar o cargo por renúncia, licença ou cassação do mandato. E o aval - para surpresa nem tão grande assim dos petistas - do ministro da Justiça, Tarso Genro. 

Em entrevista semana passada à repórter Lilian Christofoleti, da "Folha de S. Paulo", Tuma Jr. considerou "ridícula" a hipótese de que sua indicação foi uma troca política. "Dou risadas quando leio isso", disse. 

Tuma Jr. também desqualificou a possibilidade de sua nomeação levar o pai a a renunciar à criação da CPI da Petrobrás, cujo requerimento é do próprio senador Romeu Tuma. "Eu valho mais que uma CPI", bravateou Tuminha, como é conhecido. O que levou o PT a se perguntar "quanto vale" a nomeação do delegado para um cargo estratégico do governo. 

A "governabilidade", a qual se rendeu Gilberto Carvalho, tem sido a razão alegada pelo Palácio do Planalto para justificar as alianças contraditórias costuradas pelo governo. Serviu para justificar até mesmo o mensalão. 

No caso da família Tuma, no entanto, o pragmatismo, a elasticidade do conceito foi levada ao limite. Pelo menos para o PT. Se o partido considerou "inaceitável" o convite a Mangabeira Unger para o ministério, por ter classificado o governo Lula como o "mais corrupto da história", agora considera "intolerável" a aliança com seus algozes na CPI dos Bingos. 

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras"