Por Janio de Freitas - Folha de São Paulo - 17/11/2011
Ainda que Carlos Lupi encontre as improváveis explicações para evitar sua queda agora, a fragilidade ética do governo não dispensa Dilma Rousseff de começar o próximo ano com a reforma ministerial engatilhada, como fruto da prudência de estudá-la desde já.

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O grito contra a corrupção, que começa a se elevar sob diferentes formas, dirige-se necessariamente a alguém. E não pode ser senão à presidente: é geral o desconhecimento, e Dilma Rousseff não pode corrigi-lo, de que todos os escândalos ministeriais, do primeiro ao caso Lupi, vêm de fatos do governo Lula.
Mesmo que esse dado fundamental fosse mais lembrado pela imprensa, a responsabilidade de Dilma Rousseff, como chefe do governo, a deixaria com Lula no alvo das cobranças. A montagem do governo leva a sua assinatura, como sinal de aceitações surpreendentes.
Nas condições em que está montado o governo, minado pela invasão de representantes de interesses eleitorais e negociais, em qualquer momento pode eclodir, nem precisa ser em nível ministerial, um escândalo de controle difícil pela Presidência. Com efeitos de gravidade muito maior do que uma precipitada substituição como as de até agora. A passividade da opinião pública se esgota.
E o apetite da imprensa está afiado. Em parte dela, até mais do que isso, rompidos certos rigores não dispensáveis. É um agravante a mais para o problema de Dilma Rousseff com seu governo, mas pensar a reforma parcial do ministério não é problema menos complexo.
Aguardar abril, quase meio ano para as substituições, seria aceitar riscos excessivos. Fazê-las antes de definidas as pré-candidaturas e as desincompatibilizações, no fim de março, implica dificuldades políticas com os governadores, as lideranças partidárias, as bancadas e, claro, os pretensos concorrentes às eleições. Um nó apertado.
Mas aí também estaria a ocasião para a montagem de um governo mais pelo critério da competência e menos pela submissão aos arranjos políticos. Os quais, em geral, são de outras coisas mais do que políticos. Os escândalos que o digam.
Lidar com o nó vai mostrar-nos uma face de Dilma Rousseff ainda desconhecida, e provavelmente de grande importância no futuro.

SILÊNCIO
A praça egípcia Tahrir, onde se concentrou sem repressão o protesto pacífico que fez Mubarak renunciar, recebeu da imprensa americana o duplo batismo de praça da Liberdade e praça da Democracia.
Por determinação do prefeito de Nova York, a polícia americana, com sua conhecida violência, arrancou da praça Zucotti a concentração do Ocupe Wall Street, protesto pacífico contra o domínio antissocial do setor financeiro.
Que nome simbólico deveria ter a praça Zucotti?

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