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Categoria: Corrupção
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  Cel RF Jarbas Passarinho
Por Jarbas Passarinho - Correio Braziliense- 01/11/2011 
Não sou biógrafo, mas um escrevinhador que viveu 32 anos de vida pública em que conheceu a natureza humana, capaz de revelar, a um só tempo, a grandeza e a miséria com que nos encanta e desencanta, de um lado, a admiração e, de outro, a decepção. O vendaval de denúncias que tem atingido o ministério da presidente Dilma Rousseff é tão chocante que espanta. O leitor da mídia se confunde no julgamento de quem é, em cada caso, o verdadeiro e o dissimulado.
Houve casos decepcionantes para a defesa. Um que não pôde justificar o crescimento do patrimônio na coincidência com o fato de ser chefe da campanha eleitoral da então candidata à Presidência da República, o que ensejou maledicências.
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Outro que obteve ressarcimento com dinheiro público da despesa de motel, pelo Senado, incomumente assaltado na idade avançada, em que são raros os desejos eróticos do “amor desviado” de Pausânias, na Afrodite sensual do discurso no Banquete de Sócrates, memorizado por Platão. Um terceiro defendeu-se cabalmente de culpa, um técnico que chefiava o Dnit, do Ministério dos Transportes. Indignado, praticamente desafiou a autoridade da presidente da República. Recebeu apoio do ex-presidente Lula, mas não reverteu a demissão. A altivez com que se houve chegou a causar admiração.
De todos, porém, o mais surpreendente foi o então ministro do Esporte. A Fifa envolveu-se indevidamente nas denúncias. Chegou a considerá-lo impossibilitado de negociar a Lei Geral da Copa do Mundo. A intervenção salvou-o, dada a inevitável reação da presidente, que lhe concedeu o benefício da dúvida. Disse que dela recebera garantia de permanência no posto. Apoiado vigorosamente por seu partido, aumentou a arrogância, em especial após o apoio do ex-presidente Lula, que se empenhou em fazê-lo ostensivamente. Enfrentou o Legislativo, blindado contra esperada agressividade da minoria decepcionante. O procurador-geral negou pedido dos líderes governistas para não oferecer denúncia ao Supremo contra o ministro. Disse–lhes que os indícios são veementes e não os atendeu.
Presunçoso, o ex-ministro afirmou que “se sentia cada vez mais indestrutível”, mesmo quando o Supremo mandou investigá-lo. Foi a gota d’água em que se afagou . Os arroubos com que falava de defender sua honra contra a denúncia de seu delator não trazia em sua defesa dados concretos. Argumentou que o agressor, “um bandido”, prometeu provas. Não as apresentou, porque não as tinha. A questão seria resumida em palavra de um contra a de outro, chefe de duas ONGs conveniadas com o Ministério do Esporte, que já haviam recebido mais de R$ 3 milhões. A acusação era o cumprimento de ameaça se elas não continuassem recebendo o benefício, razão semelhante à de Roberto Jefferson ao desencadear o mensalão.
Tudo ficaria nisso não fosse o jornalismo investigativo, que trouxe as provas cabalmente ao destruir a tese da presunção da inocência com que o ex-ministro fora generosamente protegido pela presidente da República de julgamento antecipado. E as provas evidenciaram que se tratava não de calúnia do acusador, mas de delação de uma quadrilha, dedicada ao desvio do dinheiro público, de que participavam ONGs depravadas pelo PCdoB.
Barbara Tuchman, a notável historiadora americana, no livro A prática da história indaga se “a história pode ser escrita quando ainda fumega”, e acrescenta: “Quem são os historiadores, os contemporâneos do acontecimento ou aqueles que vêm depois?”. Prefiro a contemporaneidade, apesar do risco dos humores da paixão, particularmente, como é o caso se estiver preso a uma tese ideológica. Bárbara insiste que o historiador neutro e objetivo não existe, mas uma opinião comedida esfria o julgamento e permite uma avaliação mais justa. Suponho oportuno o debate sobre o ex-ministro do Esporte, que negou até à exaustão o comprometimento com a corrupção e que seu afastamento do ministério foi decisão da presidente, de fundo político.
Dê-se por indiscutível que o delator, que iniciou a sua via crucis, é desqualificado moralmente e o ministro do Esporte é responsável pelo aparelhamento do Estado, designando para cargos de relevo do ministério militantes aguerridos do seu partido político, o PCdoB. Serviu mais aos interesses partidários que ao esporte. Ele pode até julgar-se vítima da parcialidade da imprensa na revelação das provas. Lembrará o que Churchill disse do historiador Macaulay, que lhe era crítico implacável: “Esqueceram de avisar-me que este historiador de cativante estilo faz história selecionando fatos positivos para quem quer enaltecer e negativos para detratar”. O noticiário teria recorrido apenas aos fatos negativos para retratá-lo.