Para Planalto, agora PCdoB deve conduzir saída
Segundo aliados, ministro não consegue deixar a agenda negativa e pasta pode ser entregue a qualquer momento
Gerson Camarotti - Maria Lima -O Globo - 26/10/2011
BRASÍLIA. No núcleo do governo e entre líderes experientes da base governista no Congresso, a situação do ministro do Esporte, Orlando Silva, já era considerada extremamente delicada ontem.

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Em avaliações feitas ao longo do dia, constatou-se que ele não consegue mais sair da agenda negativa, como orientado pelo Palácio do Planalto, na sexta-feira. No fim da tarde, o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, foi chamado ao Planalto para analisar a crise. Logo depois, encontrou-se com o líder do partido, deputado Osmar Junior (PI), e o próprio Orlando Silva. Depois, todos participariam de uma reunião da bancada, que aguardava um desfecho para a crise que já dura mais de dez dias.
Ontem, dois fatos contribuíram para agravar a situação: a decisão do Supremo Tribunal Federal de abrir inquérito para investigar suposta responsabilidade de Orlando no esquema de desvio de recursos do programa Segundo Tempo, e a dificuldade que ele teve para manter uma agenda positiva, tendo se prejudicado ainda mais em audiência na Câmara para falar sobre a Lei Geral da Copa.
Para um interlocutor da presidente Dilma Rousseff, a situação de Orlando ficou insustentável. Por isso, nessa circunstância, o PCdoB deveria conduzir o processo de saída do ministro para evitar desgaste ainda maior. À noite, um colega de Esplanada de Orlando dizia: "Acho que não é mais hoje". Ou seja, pode ser a qualquer momento.
Com Orlando "esticando a corda" ou "chegando ao limite", como se dizia no Congresso, o constrangimento não é só no Planalto, mas também entre os próprios partidos aliados, que ainda defendem publicamente o ministro. Um outro interlocutor de Dilma lembrou ontem que fora construído o cenário para que Orlando Silva tivesse uma saída honrosa - a defesa pública da presidente e o encontro dos dois sexta-feira.
- Ele deveria ter aproveitado esses momentos para dizer que deixava o governo para fazer a sua defesa. Esse seria o melhor argumento para entregar o cargo. Daqui para frente, não haverá mais saída honrosa. Apenas o desgaste - disse esse ministro.
Até aliados próximos de Orlando Silva ficaram mais preocupados com o desgaste da investigação no Supremo com ele ainda no exercício do cargo. E seu advogado afirmava que não há indício contra ele para que seja alvo de um inquérito.
- O ministro Orlando não foi ouvido pelo procurador Gurgel, o que me causou estranheza. Fui pedir para que eles ouvissem o ministro. Mas isso não aconteceu. No pedido do procurador, não tem indício contra o ministro. Há apenas cópias de representações da oposição e recortes de jornal - afirmou o advogado do ministro Orlando Silva, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.
No Planalto, também foi considerado um erro a estratégia de levar o ministro para audiência sobe Lei Geral da Copa justamente no Congresso, onde o ambiente político é desfavorável:
- Não conseguiu sair das cordas e o que era para ser uma agenda positiva, transformou-se em fato negativo. Se a estratégia era criar um fato positivo, houve erro. Ele poderia ter visitado alguma obra pelo Brasil. Mas não participar de audiência na Câmara - reconheceu um parlamentar do PCdoB.
De público, poucos líderes da base aliada reconhecem a dificuldade política de Orlando Silva.
- A investigação do Supremo não tem como enfraquecer o ministro. O cara já está no paredão e qualquer coisa é ruim. O corpo já está embalsamado, só falta enterrar. Dilma quer velar mais um pouco por causa da relação de amizade com o defunto - disse o líder do PR, senador Magno Malta (ES).
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 A crise se arrasta
Ilimar Franco - O Globo - 26/10/2011
O governo Dilma esperava que as ondas contra o ministro Orlando Silva (Esporte) refluíssem. Mas a maré continua alta e a decisão do STF, de abrir inquérito contra o ministro, pedido pela PGR, deu combustível ao caso. Muitos aliados estão se perguntando: "Vamos resistir, mas até quando?". Há quem ache a causa inglória e argumente: "O ministro mais poderoso do governo Lula caiu (José Dirceu). O ministro mais poderoso do governo Dilma também caiu (Antonio Palocci)".
Divisão entre os comunistas
As irregularidades no Ministério do Esporte estão incomodando os parlamentares do PCdoB, partido do ministro Orlando Silva. A publicidade negativa afeta a todos. Além disso, a crise fez aflorar ressentimentos das últimas eleições para a Câmara dos Deputados em São Paulo. Consta que o ministro montou uma poderosa máquina eleitoral em favor do cunhado, Gustavo Petta, candidato a deputado federal, que em determinado momento chegou a ameaçar a reeleição do ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Nos debates internos, teme-se que o partido se isole dos aliados ao adotar a tática da guerra contra a mídia.
"O que vai acontecer aos ministros que roubaram bilhões de reais? Está escrito aí, está gravado aí: se um ministro desses pegar cadeia, eu renuncio, senadores!”
— Mário Couto, senador (PSDB-PA)
 

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