Leitura recomendada 
 Pesquisado pela editoria do site
  www.averdadesufocada.com
Ação de Lamarca no IV Regimento de Infantaria
Testemunho de Darcy Rodrigues  para o  livro "A
 
  Darcy Rodrigues 
esquerda Armada  no Brasil" - Antonio Caso - 1967/1971 - Prêmio Testemunho 1973 da Casa de Las Américas.**
"Conheci Lamarca em 1962, quando cheguei ao IV Regimento de Infantaria , procedente da Escola de sargentos das armas. Lamarca já era tenente numa das companhias do regimento e desde então estive muito ligado a ele.
Desde aquela época a nossa relação foi fundamentalmente política. Ambos participávamos de um círculo de estudos políticos, integrado por oficiais e suboficiais do regimento.
Pelo conhecimento que tínhamos da capacidade repressiva das forças armadas brasileiras e das verdadeiras intenções dos que as comandavam, Lamarca e eu nunca estivemos de acordo com partidários de aproveitar a legalidade burguesa para chegarmos ao poder, nem tão-pouco com os que acreditavam na tão celebrada "tradição democrática" dos institutos militares do Brasil. Por isso mesmo, as nossas discussões giravam em torno da luta armada, embora ainda, naquela época, com posicões espontaneístas.
 O exemplo da Revolução cubana provocou grandes discussões no seio das forças armadas brasileiras e fez com que muitos oficiais e sargentos progressistas se interessassem por tais questões. "
Observação do site www.averdadesufocada.com : Vejam que Lamarca , Darcy e mais alguns aliciados por eles - futura VPR - já discutiam a tomada do poder, bem antes da Contrarrevolução de 1964, que foi apenas o estopim para desencadearem os planos para implantar uma ditadura comunista no Brasil.
"Em setembro de 1962 o companheiro Lamarca foi recrutado para integrar o contingente militar da Organização das Nações Unidas (ONU) e esteve destacado, durante quase um ano, na zona de Gaza, perto do canal de Suez.
 Quando voltou ao Brasil  foi designado para servir num batalhão da Polícia do Exército (PE), na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. Ali solicitou inscrição no Partido Comunista Brasileiro, mas o seu pedido nunca chegou a formalizar-se.
Quando regressou a São Paulo, já depois do golpe, o companheiro Lamarca , que também ainda não estava organizado, procurou entrar em contacto comigo. Ele conhecia bem a minha posição política e então discutimos as perspectivas que tínhamos em relação à luta armada no Brasil.
Lembro-me de que lhe dei uma breve informação sobre a esquerda em geral. E revelei-lhe, nessa mesma ocasião, que mantinha contactos com um grupo de ex-sargentos, expulsos das forças armadas posteriormente ao golpe, que encaminhava algumas tarefas revolucionárias concretas com a perspectiva da luta armada na região de São Paulo. Ele, por sua parte, informou-me que mantinha também alguns contactos dentro do Exército e que pretendia continuar a doutriná-los até poder integrá-los na célula que eu organizava no regimento.
Como conjunto da esquerda brasileira, chegámos ao ano de 1967 esforçando-nos por conseguir estruturar algo de concreto  em termos de teoria
e prática revolucionárias. Em condições bem difíceis, decidimos-nos activar o trabalho político dentro do Exército . Mas não conseguimos ir além de um trabalho isolado, a partir das nossas possibilidades individuais de politização de elementos com os quais tínhamos ligações.
Em 1967 já estava organizado o grupo de Carlos Marighella , a Acção Libertadora Nacional (ALN) e havia também um grupo de ex-militares expulsos que mantinha ligações com operários metalúrgicos de Osasco e outros sectoes proletários da região industrial de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano, em São Paulo. Este grupo de  ex-sargentos  esteve inicialmente vinculado ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) dirigido pelo ex-governador e deputado Leonel Brizola. Mas depois da dissoluçaõ do MNR, o grupo uniu-se a um sector dissidente da POLOP e deu origem à Vanguarda  Popular Revolucionária (VPR).
Por essa época já mantinha contacto, a nível de simpatizante ou de aliado, com esse grupo de ex-militantes e tinha a intenção de integrar-lhe a célula do IV Regimento.
Lamarca acompanhou com grande interesse todo aquele processo e tratou de fortalecer os vínculos com os companheiros ligados a ele. A perspectiva de Lamarca, naquele momento, era de entrar em contacto com algum grupo da esquerda armada brasileira que nos aceitasse como simples militantes e oferecer de imediato a essa organização a possibilidade de realizar uma acção de expropriação de armas no quartel de Quitaúna , sede do IV Regimento de Infantaria. Esta acção teria uma  repercussão política muito ampla porque seria algo inteiramente novo no Brasil.
Aprofundámos as discussões com ele a respeito da sua inclusão na célula que já estava organizada no IV Regimento e da qual eu era o coordenador e, pouco tempo depois, Lamarca passou a fazer parte do nosso grupo.
Ele mantinha contactos com a ALN e realizou numerosas discussões políticas com Joaquim Câmara Ferreira, um dos principais dirigentes desta organização revolucionária.
Depois de superar algumas questões preliminares e de um mínimo indispensável de necessárias discussões políticas, Lamarca chegou à conclusão de que  a linha política da VPR estava mais próxima da sua posição e passou a integrar a célula do IV Regimento de Infantaria.
 Por sua parte, os companheiros ex-militares expuseram-nos a necessidade de apoio logístico à sua organização dos elementos que ainda continuavam dentro do Exército. 
Necessitavam de armas, munições, explosivos e de todo o material que pudesse ser utilizado em acções armadas. Nós tínhamos possibilidade de subministrar-lhes algum material desse tipo porque a minha função no quartel era a e de auxiliar do supervisor administrativo (IV secção) do regimento. Isto é, trabalhava no processo administrativo de solicitar material bélico para a unidade e também na retirada ou destruição desse material e só me faltava encontrar a forma de poder retirá-lo clandestinamente do quartel.
Logo verifiquei ser relativamente fácil alterar os números dos documentos e ficamos com parte desse material bélico .
Em todos os exercícios de tiro que se realizavam no regimento, para dar exemplo , eu fazia constar dos documentos um gasto de munições superior ao real, e o que correspondia à diferença era entregue à organização revolucionária. Da mesma forma, quando chegava à secção algum tipo de explosivo para ser destruído, em vez de cumprir as ordens, guardava-o e acabava por chegar às mãos da organização . Desta maneira entregávamos à VPR munições, mechas lentas, cápsulas detonantes e muito outro material que os companheiros utilizavam  em acções armadas de guerrilha urbana.
Também lhes fornecemos granadas, para servir de modelo, já que naquela época a organização pretendia iniciar a fabricação de armas.
Imediatamente após o ingresso da nossa célula na VPR, discutiu-se com Lamarca a projectada expropriação de armas e a organização concluiu que era válida politicamente, além do objectivo logístico que se perseguia com a acção. Esta discussão teve lugar acho eu que em outubro de 1968.
Foi então que, por iniciativa de Carlos Lamarca, se preparou a acção do IV Regimento de Infantaria, que consistiria na expropriação de uma boa quantidade de armas e munições e o imediato ingresso de todos nós na guerrilha urbana , desertando do Exército da ditadura.
A acção  realizou-se a 24 de Janeiro de 1969. "
                                                       xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
*Darcy Rodrigues foi banido para Cuba, em 16/06/1970, em  troca da vida do embaixador da Alemanha sequestrado pelas organizações VPR e ALN
**Tradução para língua portuguesa - 1ª edição 1976 - Moraes Editores - Lisboa - Portugal
Comentários  
#1 Vingador 19-11-2014 19:55
Se eu encontrar essa canalha Darcy Rodrigues, terá o mesmo fim de Lamarca.
Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar