Luiz Garcia  - O Globo  - 16/09/2011
Em qualquer país, cuidar da saúde do povo custa caro. Se o dinheiro público é bem aplicado, o caro sai barato.
No Brasil, parece que não é bem assim. Aqui, pelo visto, o caro sai caríssimo. Um levantamento encomendado pelo Tribunal de Contas da União mostra que nos últimos nove anos sumiu pelo ralo - ou seja, ninguém sabe onde foi desaguar - um total de R$6,890 bilhões destinados aos 24 ministérios e à Presidência da República. E a saúde pública teria sido a campeã do sumiço: é citada como responsável por um terço do dinheiro sumido.
Sabe-se que, na maioria dos casos, o dinheiro foi desviado por prefeituras, secretarias de Saúde e clínicas e hospitais particulares contratados pelo Sistema Único de Saúde. Curiosamente, autoridades federais confessam que não têm esperanças de recuperar as verbas desaparecidas.Em exemplo citado por uma procuradora da República, em 2004 autoridades federais descobriram que, num município maranhense de cem mil habitantes, os espertalhões botaram a mão em quase R$28 milhões (em dinheiro de hoje).
Uma porta-voz dos auditores do Sistema Único de Saúde diz que eles são poucos - cerca de 500, com metade em idade de aposentadoria - para dar resposta eficaz à ladroagem. Por isso, alegou, só são feitas auditorias por encomenda da presidente Dilma Rousseff; a pedido do Ministério Público, por exemplo, nem pensar. Não se imagina que esse curioso privilégio seja considerado satisfatório pela própria Dilma.
O Ministério da Saúde, por sua vez, afirmou em nota oficial que o dinheiro jogado fora em sua área representa parte insignificante de seu orçamento. Um leitor distraído poderia ver nesse argumento a defesa de um nível supostamente aceitável de incompetência na administração de verbas públicas.
Registre-se que seria grave injustiça tratar os problemas na área da Saúde como se fossem mancha isolada numa impecável máquina administrativa federal, estadual e municipal. Ela foi apenas a bola da vez numa tomada de contas que bateu no Tribunal de Contas. E a principal constatação nisso tudo não está no montante do dinheiro sumido ou mal usado, e sim no fato de que a situação da saúde foi severamente - e, espera-se, corretamente - investigada.
Agora, é esperar que a varredura aconteça em outros quintais da máquina pública.

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