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Categoria: Corrupção
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  Veja - 12/09/2011 
VEJA publicou, na edição passada, uma reportagem que causou assombro entre os leitores e obteve enorme repercussão em Brasília. Assinada pelos jornalistas Daniel Pereira e Gustavo Ribeiro, ela revelou que o ex-ministro José Dirceu, cujos direitos políticos foram cassados pela Câmara dos Deputados e que está sendo processado pelo Supremo Tribunal Federal, acusado de ser, nas palavras do então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, "o chefe de uma organização criminosa sofisticada" que desviava dinheiro público para o mensalão, mantém um "gabinete" num hotel na capital do país. Lá, ele despacha com deputados, senadores, pelo menos um ministro e o presidente de uma estatal.

A reportagem baseou-se nas imagens de uma câmera de segurança do hotel, que mostravam tais personagens entrando e saindo da suíte do poderoso chefão - paga, descobriu-se, pelo escritório de advocacia de um ex-assessor de Dirceu
Estranhamente, o nome do ex-ministro não figurava na lista de hóspedes. Ou seja, tratava-se de um "gabinete secreto". Os jornalistas que fizeram a reportagem também apuraram que, nessa suíte, se conspirou contra o ex-ministro Antonio Palocci e que Dirceu tentou emplacar nomes de sua confiança no ministério da presidente Dilma Rousseff. Manobra abortada por Dilma.

Antes mesmo de a revista ser impressa, sabedor do teor da reportagem, o chefão começou a vociferar. Acusou o jornalista Gustavo Ribeiro de ter tentado invadir sua suíte, ordenou que fosse registrado um boletim de ocorrência numa delegacia brasiliense e, por meio de blogs de gente desclassificada, começou a divulgar versões mentirosas sobre o trabalho de VEJA, entre as quais a de que a revista pagou para obter as imagens e a de que foram seus jornalistas que instalaram a câmera no andar da suíte onde ele recebe autoridades. VEJA não paga por informações e, obviamente, não instalou câmera alguma no hotel. Além disso, é falsa a afirmação de que Gustavo Ribeiro tenha tentado invadir a suíte frequentada por Dirceu. Ao contrário do chefão, o repórter registrou-se com seu próprio nome como hóspede no hotel e pagou a conta com seu próprio cartão de crédito. E o fez para confirmar os dados recolhidos por ele e Daniel Pereira no curso da investigação, tal como manda o bom jornalismo. A cortina de fumaça e as acusações infundadas que Dirceu busca lançar sobre os fatos eram esperadas, dada sua folha corrida de desserviços prestados ao país. Mas o ruído não encobre a pergunta que permanece na cabeça de rodo mundo que leu a reportagem: por que tantas pessoas que ocupam cargos relevantes na hierarquia do poder se dão ao trabalho de ir até a suíte de um cidadão acusado de ser "o chefe de uma organização criminosa sofisticada"? Essa é a verdadeira questão a ser respondida.