Por  Carlos Tavares - Correio Braziliense - 17/08/2011 
Chegam a ser admiráveis, se não fossem trágicos, a coragem e o cinismo dos corruptos brasileiros. Eles sabem que estão sendo vigiados, mas saqueiam os cofres públicos. Eles sabem que existem atualmente instrumentos e técnicas de rastreamento e de vigilância eletrônica dos mais sofisticados, mas partem para cima das licitações, das verbas de urgência, das rubricas gordas e fartas do erário, deixam crianças sem merenda escolar, deixam pontes sem estradas e estradas sem pontes, deixam o agricultor sem plantar, deixam a seca matar, as enchentes destruírem cidades e povoados inteiros, de ponta a ponta do país.
Mas eles estão sempre lá de prontidão, não para ajudar, mas prontos para atacar. Mal enterram seus mortos, as mesmas comunidades agredidas pelas intempéries e pela gana de políticos e empresários desonestos veem as chances de reconstrução de suas vidas sumirem na poeira das promessas. Mas eles estão sempre lá, atentos, como hienas que rondam um cadáver no deserto. Seja no Ministério dos Transportes, seja na Agricultura ou no Turismo, a corrupção é a mesma, as quadrilhas apenas se revezam no tempo, mas os ladrões são os mesmos, somente trocam de nomes.
Eles vestem a mesma indumentária de picaretas profissionais, possuem o mesmo rosto, calçam o mesmo número de sapatos, mudam apenas de partido, de cidade, de pasta. Eles estão sempre lá, infelizmente. Eles falam a mesma língua da ironia e do desprezo para com as populações que buscam melhoria de vida e acreditam em suas palavras em época de eleições.
Mas eles são sempre os mesmos, embora troquem de partido, a dança da corrupção não tem cor partidária e os corruptos não perdoam. Seja em Niterói, em Friburgo, em Teresópolis, no Nordeste, na Região Amazônica. Se for possível fazer uma comparação, é de se pensar que as guerras matam menos do que a corrupção. Os bandidos de colarinho branco usam outros tipos de armas, mas matam do mesmo jeito. Que o digam os parentes dos mortos nas enchentes, nas secas, nas cidades, nas margens de um mundo paralelo que só funciona à base do cinismo.
 

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