Revista VEJA - 15/08/2011
A Operação Voucher desmonta esquema de desvio de dinheiro que mirava as gordas verbas da Copa, prende ex-braço direito de Marta Suplicy e atinge em cheio o PT
Fernando Mello
Eles achavam que já estavam com a mão na taça. Dos 36 presos pela Polícia Federal na semana passada, na Operação Voucher, oito eram funcionários do Ministério do Turismo e três estavam estrategicamente próximos dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. A quadrilha, que, de acordo com a PF, começou a agir no governo Lula e seguiu delinquindo na atual administração, desviou, pelo que se sabe até agora, 4 milhões de reais dos cofres públicos.

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Mas se preparava para dar um bote muito maior. Com a proximidade das competições, o Ministério do Turismo havia multiplicado por dez as verbas destinadas à capacitação de mão de obra para os dois eventos.
Para 2011, foram reservados 97 milhões de reais, contra 9,7 milhões em 2006. Os indícios de que boa parte desse dinheiro já fluía para o bolso dos corruptos eram eloquentes. A reportagem de VEJA deparou, por exemplo, com cursos virtuais cujos orçamentos incluíam a compra de mochilas e lanches e propostas de "cursos de qualificação" apresentadas por ONGs desconhecidas que ganhavam o selo de aprovação do ministério em menos de setenta minutos. A farra prometia ser grande. Mas aí veio a Operação Voucher.
O que começou com a investigação de uma estranha emenda ao Orçamento no valor de 4 milhões de reais apresentada em 2009 pela deputada Fátima Pelaes, do PMDB, revelada por VEJA em dezembro do ano passado, terminou se mostrando uma teia muito mais complexa, que envolve dinheiro graúdo e atinge em cheio o PT. A beneficiária da emenda da deputada era uma ONG agora sabidamente fantasma e o dinheiro destinava-se a financiar o treinamento, igualmente fantasma, de agentes de turismo no estado do Amapá. As doze horas de gravação e as 245 páginas do inquérito da PF mostram que essa mesma metodologia pode ter sido usada para desviar mais de 30 milhões de reais. O mentor dos desvios, "de acordo com as investigações, era o petista Mário Moysés, que ainda neste mês seria nomeado para trabalhar na Autoridade Pública Olímpica, parceria do governo federal com o estado e a prefeitura do Rio.
Mário Moysés é militante do PT desde os anos 80. Em 2000, foi nomeado chefe de gabinete de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Em 2004, coordenou a campanha derrotada da petista à reeleição. Três anos depois, acompanhou Marta a Brasília, como seu secretário executivo no Ministério do Turismo. Foi a partir desse cargo, o segundo na hierarquia do ministério, que Mário Moysés coordenou o esquema de desvios descoberto na semana passada, aponta a PF. Segundo a investigação, ele ignorou as exigências previstas em lei para selecionar as ONGs que fariam convênios com o ministério, substituindo-as por critérios inaceitáveis. A Ibrasi, por exemplo, ONG fantasma beneficiária dos 4 milhões de reais da emenda de Fátima Pelaes, não precisou sequer apresentar documentos básicos para embolsar a bolada. Bastou caprichar na fachada do prédio para "inspirar confiança", seguindo conselho dado pelo atual número 2 do ministério, Frederico Costa, gravado pela Polícia Federal (ouça os áudios em VEJA.com). Mesmo depois de apresentar contas falsas, a Ibrasi continuou recebendo recursos públicos. O Ministério Público afirma que "toda a fraude teve início com o direcionamento do convênio por Mário Moysés". E questiona: "Como poderia ser celebrado um convênio de 4 milhões com uma empresa que nem mesmo possui empregados?". Para os procuradores da República responsáveis pela investigação, "fica evidente a omissão dolosa do Ministério do Turismo, na pessoa do então secretário executivo, Mário Augusto Lopes Moysés".
Peça estratégica de uma parte do PT paulista, Mário Moysés pode ter sua importância medida por dois episódios. O primeiro deu-se em junho de 2010, às vésperas da eleição presidencial vencida por Dilma Rousseff. Na ocasião, revelou-se que um grupo de aloprados ligado ao PT mineiro espionava adversários do partido dentro do comitê central de campanha. Descoberto e exposto à execração pública, o bando contra-atacou, ameaçando denunciar os detalhes de um certo esquema de caixa dois que o PT paulista operaria no Ministério do Turismo sob o comando de Mário Moysés, então lugar-tenente de Marta. Encurraladas e na iminência de um duelo mortal, as duas facções petistas acertaram uma trégua. O armistício protegeu Mário Moysés e sua turma até a semana passada.
O segundo episódio ocorreu durante a transição entre os governos de Lula e Dilma. O Ministério do Turismo foi reservado ao PMDB, mas o PT paulista bateu o pé para que Mário Moysés seguisse na pasta. Antonio Palocci, chefe da equipe de transição, chegou a marcar uma reunião com o vice-presidente Michel Temer para pedir formalmente que o ex-assessor de Marta fosse deslocado para a presidência da Embratur, o que acabou ocorrendo. Ele saiu de lá para dar lugar a um integrante do PCdoB (loteamento, loteamento, loteamento ...). Não há dúvida de que a prisão de Mário Moysés foi um tremendo choque para uma parte do PT paulista. As lágrimas vertidas em plenário pela ex-prefeita Marta Suplicy são prova disso - assim como sua estratégia de esconder-se em um banheiro do Congresso para evitar ter de falar aos jornalistas sobre a prisão de seu ex-subordinado.
Em um ambiente já inflamado por escândalos em série e demissões em baciadas de funcionários corruptos, a Operação Voucher foi mais um fator de desestabilização política. O PMDB, conhecendo o esquema e seus personagens em detalhes, pôs o PT na parede para proteger os próprios suspeitos. Em ameaças veladas, os líderes peemedebistas avisaram que jogariam Mário Moysés, Marta e os demais envolvidos no fogo, caso o PT e o governo não defendessem os ministros do PMDB acusados de corrupção: Pedro Novais, do Turismo, e Wagner Rossi, da Agricultura. A tática deu certo até o fim da semana, mas novas denúncias contra o segundo devem inviabilizar sua permanência no cargo (veja a reportagem na pág. 78). No Congresso, os partidos aliados impediram qualquer votação em protesto às justas demissões promovidas pela presidente Dilma Rousseff. No PT, partido marcado por guerrilhas internas e teorias conspiratórias, o grupo de Marta Suplicy se voltou contra o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, adversário histórico da senadora. O ministro afirma que soube da Operação Voucher apenas quando ela já estava nas ruas. Mas Marta Suplicy tem convicção de que ele sabia de tudo e não avisou ninguém apenas para prejudicá-la. Não se faz isso com gente tão fina.
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Máfia do turismo planejava fraudes em outros setores
Muito além do turismo 
Por Fábio Fabrini - O Globo - 15/08/2011 
Grupo acusado de desvio no Amapá queria fraudar contratos em outros estados e setores

A organização acusada de desviar verbas de convênios do Ministério do Turismo no Amapá, alvo da Operação Voucher, estendia seus tentáculos para outros órgãos públicos, espalhados pelo país. Escutas feitas pela Polícia Federal com autorização da Justiça, às quais o GLOBO teve acesso, revelam a intenção dos envolvidos de fraudar licitações e superfaturar obras de prefeituras e até da construção de um porto, fora da abrangência do Turismo.
Num dos grampos, de 6 de julho, o diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável (Ibrasi), Luiz Gustavo Machado, conversa com um empresário, identificado como João Carlos, sobre a possibilidade de ajudá-lo com uma licitação:
"Tinha uma concorrência pra pôr na sua mão, faz vinte dias que eu tô atrás de você. (...) Era pra construir um porto", afirma Machado, acrescentando que, diante da demora de João Carlos para responder às suas ligações, repassou o serviço para outra empreiteira: "Você não me atendeu, eu dei pro Andrade Gutierre (sic)".
A assessoria de imprensa da Andrade Gutierrez não se pronunciou até o fechamento desta edição. Para a Polícia Federal, o diálogo mostra como Machado atua em todos os contratos que firmou com o poder público "de forma temerária" e "fraudando concorrências".
Em outra conversa, de 28 de julho, o sócio do Ibrasi fala sobre superfaturamento em licitação com seu amigo Roberto Rufica. "Você sabe quanto é o preço ganho na licitação? Mas isso entre nós aqui, você sabe quanto é o preço ganho?", pergunta Rufica, respondendo em seguida: "R$165 o metro cúbico, ganhou a licitação com esse preço". Entre risos, Machado retruca: "Podia pagar 50, né?"
Envolvidos ensinam a superfaturar obra
Uma das funcionárias do Ibrasi no Amapá, Karla Karoline Almeida, diz em 1º de junho que a Sinc Recursos Humanos e Automação, empresa envolvida com as fraudes no ministério, iria pegar mais um projeto de turismo em João Pessoa, com "um município". Outra agente do Ibrasi, Uyara Schmittd, já teria se mudado para a capital paraibana para cuidar do assunto: "A Fabiana (sócia da Sinc) vai ter uma reunião com a secretária de Turismo desse município dia 6 de junho (de 2011), e nessa reunião as coisas serão definidas", comenta, sem dar detalhes do negócio.
Nos relatórios da Polícia Federal, o dono do Ibrasi é citado como um lobista com contatos com diversos empresários e funcionários públicos. Os grampos também flagraram Sandro Saad, diretor financeiro da entidade, conversando em 26 de maio com um empresário sobre um edital de R$31 milhões da Prefeitura de São Vicente (SP) para obras em vias públicas. Segundo a PF, embora o edital não tivesse sido publicado, Saad já tinha a planilha e o memorial descritivo do empreendimento. Dando a entender que houve conluio com funcionários públicos, ele diz que deseja que o interlocutor pegue a obra. O GLOBO não conseguiu contatar os citados nas escutas e seus advogados, assim como a Prefeitura de São Vicente.
Nos telefonemas interceptados, os envolvidos ensinam como superfaturar obras públicas e falsificar documentos de licitações. Em 21 de junho, o empresário Humberto Siva Gomes - sócio da Barbalho Reis, uma das empresas do esquema - diz que "quando é dinheiro público, não pesa no seu bolso. Aí, você joga pro alto mesmo, até porque, se você não jogar, vai perder logo de cara, porque todo mundo vai jogar". Criou essa ideia aqui: "ah, é pro governo, joga o valor pra três, tudo vezes três"".
 
 

 

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