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Categoria: Forças Armadas
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  Os cães são excelentes soldados. São capazes
  de dar a vida por seu adestrador
Cães de Guerra
Por Fábio Pellegrino - Diário do Comércio - 01/07/2011
Eles não precisam de fardas camufladas para se embrenharem em matas fechadas atrás do inimigo. Estão prontos para seguir as ordens que lhe são dadas sem pestanejar e podem saltar de helicópteros e até de aviões para cumprir a sua missão. Os cães vêm sendo usados em conflitos pelas forças militares ao longo dos séculos. No passado, entre os seus muitos deveres, eles foram responsáveis por entregar mensagens, detectar minas e até colocar fios de telégrafos durante as batalhas.
Hoje são ferramentas importantes em ações táticas militares, por sua lealdade, coragem, alta capacidade de adaptação e outros atributos natos desses animais.
O que muitos não sabem é que há registros do uso de cães em guerras pelos egípcios e romanos desde a antiguidade.
Os Estados Unidos utilizaram esses animais pela primeira vez durante a 1.ª Guerra Mundial e, de lá para cá, o número de ações com cães não parou de crescer. Em entrevista concedida à imprensa dos EUA, chefes militares americanos afirmaram que há cerca de 600 cães servindo em suas tropas no Afeganistão e no Iraque, dos mais de 2.700 animais mantidos pelo Pentágono (comando militar americano).
Mas a notícia da utilização de cachorros em manobras de guerra, antes pouco conhecidas ou esquecidas pela população, voltou à tona depois que o governo americano decidiu divulgar que também usou um cão na força militar Seal (Sea-Air-Land Team, o grupo de soldados de elite dos EUA) durante o ataque que resultou na morte do mais procurado terrorista do planeta: Osama bin Laden, líder da rede Al Qaeda e mentor do ataque às torres gêmeas World Trade Center.
A utilização dos cachorros em ações táticas não é uma exclusividade dos EUA. Países como Alemanha, Portugal, Rússia e Inglaterra usam cães em atividades externas e internas há muito tempo. Graças as suas qualidades naturais, esses animais desempenham suas tarefas com grande propriedade. Dificilmente um homem ou máquina conseguiria realizar a detecção de explosivos e drogas de forma tão precisa. O seu faro apurado encontra bombas a metros de distância e pode localizar inimigos a quilômetros.
No Exército Brasileiro, o número de cães de guerra no efetivo é pequeno, mas deve aumentar por causa do sucesso dos animais em ações que exigem controle e segurança, ajudando a garantir a proteção em eventos, como a Copa, por exemplo. Segundo boletim emitido pelo Comando do Exército, em janeiro de 2011 o efetivo contava com quase 350 cães, distribuídos em vários batalhões. Esses animais são treinados de acordo com a atividade do quartel em que estão alocados, podendo participar de patrulhas a ações de saltos com paraquedistas.
O Segundo Batalhão da Polícia do Exército (2.º BPE), em Osasco, tem como atividade formar adestradores, condutores de cães, enfermeiros e auxiliares na área veterinária, além de funcionar como escola de adestramento no âmbito do Comando Sudeste. Para o major e chefe da Seção de Cães de Guerra do 2.° BPE, Carlos de Almeida Baptista Sobrinho, criar cães de guerra exige dedicação e perfil. “Tornar-se um adestrador, às vezes, é trabalho de uma vida inteira. Como há individualidade de cão para cão, não há uma fórmula de treinamento que vá funcionar de forma eficiente para todos os cachorros. É preciso criatividade e flexibilidade para se adaptar ao animal e ter a resposta comportamental para a tarefa que deseja executar, de acordo com o indivíduo.”
Como o Brasil não está envolvido em atividades militares de guerra, os cães por aqui auxiliam em tarefas de segurança e resgates. São normalmente vistos por São Paulo nas mãos de soldados da Polícia Militar. Os animais são utilizados como apoio em várias frentes, como encontrar explosivos, fugitivos e drogas, fazer revistas em presídios, ajudar na separação de torcidas em estádios, além de atuar como cães de guarda, escolta e em policiamentos ostensivos.
Criado em setembro de 1950, o Canil Central da Polícia Militar (PM) de São Paulo, que fica no bairro do Tremembé, é responsável pelo policiamento com cães na
  
  O pequeno Eduardo ,do lado do soldado
  Muniz de Souza e o cão  cabo Dick.
 
capital e por todos os cursos de adestramento da Corporação. São 90 cães em atividade – já chegou a ter 130 cachorros – e 156 policiais.
O canil da PM já passou por muitas dificuldades, principalmente no começo da sua trajetória. Em 1956, o então governador Jânio Quadros havia proposto encerrar as atividades do canil como uma forma de cortar gastos. O comandante chegou a receber uma carta com a intenção: “Faça os cães trabalharem ou dissolva a matilha”. Nesse mesmo ano, o caso do sequestro do menino Eduardo Benevides, de 6 anos, comovia e mobilizava toda a polícia de São Paulo.
Como uma forma de estimular a busca, o governador havia prometido uma promoção para o policial que encontrasse o garoto. Ele só não contava que a nova patente seria dada a um farejador. O cão Dick achou Eduardo em um buraco de quase 2 metros de profundidade, no Parque do Estado, zona sul, coberto por folhas e zinco. O soldado Muniz de Souza, adestrador do animal, e Dick foram promovidos, evitando o fim do canil. Depois de três anos, o cão teve problemas de saúde e acabou morrendo. Um busto de bronze foi feito em sua homenagem e colocado na entrada do canil com a inscrição: “Cabo Dick. Campeão das buscas policiais”.(...)

(...)Os cães de trabalho são muito bem cuidados. São utilizados até atingirem a idade de oitos anos, em média. Quando se aposentam ficam no quartel, aos cuidados do Exército, até morrerem. “Eles passam a vida inteira aqui dentro. Estão acostumados com a rotina e habituados com o ambiente. Sem contar que é no final da vida que eles podem começar a apresentar problemas de saúde. Não seria justo ou ético abandoná-los no momento de maior necessidade de atendimento veterinário, apoio e tratamento.” Depois que morrem, são cremados e as cinzas colocadas em urna, guardadas em um local de destaque, ao lado da sala do major Sobrinho.
Já no canil da PM, os velhinhos são doados aos policiais responsáveis pelo seu adestramento. “Muitas vezes, quando estamos de folga ou de férias, damos uma desculpa para a família porque queremos ver nossos cães. Dizemos que é para dar um banho ou ver como estão, mas é a saudade que bate”, brinca o sargento Leal, responsável pelo cão farejador Thor, um labrador de 5 anos. “Logo vou levá-lo para casa”, comemora. Mas, ao falar sobre a morte de companheiros quadrúpedes, o sargento muda a fisionomia e afirma: “É muito difícil para o policial. Para nós, a perda equivale à de um membro da família”.
A vida militar muitas vezes não é fácil, mas a sensação de dever cumprido e o reconhecimento por ter realizado de forma correta e perfeita a missão que lhe foi determinada trazem a sensação de satisfação. Os cães que o digam. Para eles, um afago do militar amigo, como reconhecimento à execução da ordem, vale mais do que mil medalhas.