Por Ricardo Noblat - O Globo - 01/08/11
Jamais haverá uma mulher como Gilda! Quero dizer: Rita Hayworth, a estrela do filme de 1946 com esse nome que a tornou o maior símbolo sexual da época. Por aqui, jamais haverá outro inconfidente como Roberto Jefferson, ex-deputado federal e expresidente do PTB, que em 2005 denunciou o mensalão do PT. Nós, jornalistas, somos órfãos dele.
Tem um inconfidente novo na praça: Oscar Jucá Neto, o Jucazinho. Suspeito de prevaricar, foi demitido da Companhia Nacional de Abastecimento.
Deu o troco: em entrevista à “Veja”, disse que há corrupção grossa no ministério da Agricultura. É briga interna do PMDB. Jucazinho está longe de fazer sombra a Roberto Jefferson.
Quando algum detentor de segredos cabeludos se vê ameaçado de perder o emprego, os jornalistas trocam olhares ansiosos e começam a cercá-lo. Os mais ousados até se arriscam a escrever que a República irá abaixo caso o sujeito perca o controle e decida contar o que sabe. Costuma ser mais torcida do que crença.
Torcemos, por exemplo, para que um dos aloprados abrisse o bico. Em vão. O silêncio deles e o descaso das autoridades contribuíram para que ficasse impune o escândalo do dossiê fabricado pelo PT para atazanar a vida de Geraldo Alckmin e de José Serra, candidatos a presidente e a governador de São Paulo em 2006. Torcemos para que Paulo Preto admitisse ter tomado dinheiro de empresários para financiar no ano passado a campanha de Serra a presidente. Em vão. Paulo Vieira de Souza, vulgo Paulo Preto, havia sido diretor de engenharia da empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa). Conhecia o caminho dos cofres gordos.
Luiz Antonio Pagot, demitido pela presidente Dilma Rousseff da direção-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit), tinha munição suficiente para produzir um estrago maior do que o protagonizado por Roberto Jefferson. Preferiu não usá-la. Céus! Por quê?
Porque o governo Dilma aprendeu com os governos passados a não incorrer no mesmo erro cometido por Lula em relação a Roberto Jefferson. Sarney tinha horror a demitir, mas quando era obrigado a fazê-lo não deixava demitidos em apuros. FH também não deixava, embora demitisse com mais facilidade.
Roberto Jefferson fez tudo para não pagar sozinho pela roubalheira descoberta na Empresa de Correios e Telégrafos, entregue aos cuidados do PTB. Quanto mais pedia ajuda a auxiliares de Lula, mais a corda se apertava em torno do seu pescoço. Convencido de que estava condenado, concluiu: “Posso até morrer, mas outros morrerão comigo.”
Desde que Dilma decidiu afastar Pagot do Dnit, o governo estendeu um macio e cerimonioso tapete vermelho para que ele fosse embora, digamos, de cabeça erguida. Tanto cuidado se justificava. Pagot arrecadou dinheiro para o 1o- e o 2o- turnos da eleição de Dilma. E ainda arrecadou mais para pagar dívidas de campanha.
De resto, vicejava a suspeita, alimentada por ele mesmo, de que assinara contratos e engolira aditivos somente para livrar o PT de sérias dificuldades financeiras. Lula tinha Pagot na mais alta conta, essa é que é a verdade. O comando nacional do PT, então nem se fala. Perdeu um companheirão — eficiente, discreto e solidário.
O senador Blairo Maggi (PRMT), padrinho político de Pagot, foi convidado para suceder Alfredo Nascimento no ministério dos Transportes. O convite não era para valer, era só para amansar Pagot. Maggi jamais aceitaria, para não correr o risco de ver expostas e mal interpretadas asentranhas dos seus negócios com o governo.
Pagot recusou o afastamento sumário e declarou-se em férias — exigência aceita. Ofereceu-se para depor no Congresso — exigência aceita. Ali, não entregou ninguém, mas repetiu que nada fizera sem o conhecimento dos seus superiores — o governo ouviu em silêncio. Por fim, despediu-se do Dnit com a certeza de que não será processado. Saudades de Gilda!

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