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Categoria: Corrupção
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 Folha de São Paulo - 21/07/2011
Dilma segue com limpeza nos Transportes, pasta decisiva para a infraestrutura, mas ganharia mais pontos se abarcasse toda a Esplanada
A presidente Dilma Rousseff parece empenhada no que já se chama de "faxina" no Ministério dos Transportes. A expressão não soa imprópria, embora o alcance das intervenções do Planalto mereça discussão mais detida.
Até a tarde de ontem, a conta estava em 15 defenestrados, a começar pelo ministro e senador Alfredo Nascimento (PR-AM).
 Entre os mais graúdos, José Francisco das Neves, da Valec (Engenharia, Construções e Ferrovias S.A.), e Luiz Antonio Pagot, do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre) -este afastamento ainda por confirmar.
Se Pagot é afilhado do senador Blairo Maggi (PR-MT), Neves estava na cota do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), secretário-geral do partido -um dos 15 que em teoria apoiam Dilma- e figura notória desde o escândalo do mensalão, do qual foi um dos pivôs.
Descobre-se agora, em capítulos, que Costa Neto mantinha uma rede de apaniguados na pasta aparelhada pelo PR, a "turma do Valdemar". A alcunha cai bem em um ministério com indícios clamorosos de falcatruas e enriquecimento de grupos ou pessoas, estimulados pela leniência crônica com a corrupção durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Os sucessivos casos de suspeitas e desvios que têm vindo à tona nos Transportes são exemplos de almanaque do patrimonialismo brasileiro, vale dizer, da apropriação privada de bens públicos. Dilma demonstra tolerância menor com essa herança funesta de Lula, que não soube ou não quis reprimir tais práticas renitentes.
São bem-vindas as medidas que vai tomando para sanear a pasta, mas talvez não sejam suficientes. Paradoxalmente, o PR continua no comando, decerto por temor da presidente de melindrar uma bancada de 40 deputados federais.
Seria o caso de dar um passo além e promover auditoria minuciosa nos principais contratos do ministério. Além do benefício direto, que parece óbvio nos Transportes, serviria como modelo e alerta para outras áreas do governo carentes de moralização.
Há, porém, um conflito entre a disposição da presidente e conveniências políticas. Lula teria manifestado preocupação com o efeito da investida da sucessora sobre a base aliada, como se a satisfação de interesses fisiológicos fosse precondição de governabilidade.
Acostumamo-nos a isso no Brasil. O país está ainda longe de um padrão republicano de política.
No que toca aos Transportes, Dilma dá arrancadas na direção correta. Faria melhor se seguisse adiante na limpeza da Esplanada.