Luiz Garcia
O Globo - 12/07/2011 
Na semana passada, a Procuradoria Geral da República apresentou alegações finais ao Supremo Tribunal Federal contra os acusados no chamado escândalo do mensalão.
Se há entre os leitores alguns desmemoriados, ou, quem sabe, um bem-vindo contingente de recém-chegados, tratava-se de um esquema de compra de votos no Congresso por agentes do governo Lula - sob a diligente chefia de José Dirceu, então chefe da Casa Civil do Planalto. Arredondando os números, a maracutaia envolveu algo perto de R$140 milhões.
É bem provável que escândalos puramente financeiros (se é que "puramente" possa ser considerado advérbio apropriado) movimentem quantias bem superiores. Mas, em se tratando de maracutaias políticas, é necessário reconhecer: Dirceu, esse craque formado na várzea paulista, pode se candidatar a um lugar no panteão da corrupção. Note-se: só tem vaga nessa turma, pelo menos em caráter definitivo, quem rouba mas escapa.
A Procuradoria trabalhou cinco anos na decifração do escândalo, sem deixar de ouvir um só dos acusados. Não foi tempo jogado de fora. Como afirma o procurador-geral Roberto Gurgel, a compra de votos no Congresso "trata-se da mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber".
São palavras solenes, dramáticas.Vindas de onde vêm, merecem mais do que atenção, respeito. Por duas razões óbvias: primeira, porque, se há crime, a punição é indispensável. Segunda, se o crime ocorreu - e foi delito continuado, escancarado - o episódio impõe um dever à classe política: tomar as providências necessárias, que são óbvias, ainda que complicadas, para dificultar a sua repetição, tanto quanto possível. Essa ressalva é obrigatória? Quem a considerar dispensável, certamente não lê jornal ou vê televisão com a devida atenção.
Não podemos dizer que "graves agressões aos valores democráticos" sejam comuns só no Brasil e em algumas republiquetas de menor expressão. Não é hora de ter vergonha do nosso país. Especialmente, se as alegações do procurador-geral receberem do STF a reação que merecem.
 

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