Augusto Nunes
Direto ao Ponto  - Coluna do Augusto Nunes - 03/07/2011
  veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/
“Está tudo dominado”, costumam lastimar-se muitos comentaristas da coluna. É compreensível a sensação de impotência provocada pela impunidade dos corruptos, pela cumplicidade ativa ou passiva dos três Poderes, pela voracidade da aliança governista, pela pilhagem sistemática dos cofres públicos, pela mansidão bovina da maioria do eleitorado ─ enfim, pela paisagem política desoladora. Mas não está tudo dominado.
A frase que dá por consumado o triunfo dos fora-da-lei será apenas um verso derrotista enquanto existirem imprensa livre e milhões de brasileiros capazes de indignar-se com denúncias consistentes. Se tudo estivesse dominado, Antonio Palocci, por exemplo, ainda seria chefe da Casa Civil.
O governo fez o que pôde para proteger o reincidente incurável. Acabou por render-se aos homens honestos inconformados com a nova safra de patifarias.
Se estivesse consumado o triunfo dos vilões, a quadrilha que age há meses no Ministério dos Transportes não começaria a ser desbaratada horas depois que seus integrantes foram identificados por uma reportagem de VEJA. Nomeados pelo ministro Alfredo Nascimento, presidente do PR, e sob o comando do deputado Waldemar Costa Neto, um dos mais gulosos protagonistas do escândalo do mensalão, os quadrilheiros instalados na cúpula do ministério abasteceram o caixa do partido e as próprias contas bancárias com bilhões de reais desviados dos cofres públicos.
Certamente por achar que está tudo dominado, o bando abusou dos métodos de sempre ─ obras sem licitação, contratos superfaturados, barganhas com empreiteiros e empresas fantasmas, fora o resto. Na manhã deste sábado, quatro chefões souberam que estavam desempregados numa conversa por telefone com Alfredo Nascimento, o ex-ministro de Lula que recuperou a vaga no primeiro escalão por ter naufragado na disputa do governo do Amazonas. Veterano frequentador do noticiário político-policial, ele continua a fazer de conta que não sabia de nada. A pose de inocente não combina com o prontuário. E colide com depoimentos que amparam a denúncia de VEJA.
Há dias, Nascimento alegou “compromissos inadiáveis” para ausentar-se da reunião em que Dilma quis saber dos figurões do ministério por que todas as cifras que administram estavam “insufladas”. (Insuflar: é isso o que faz, na novilíngua do Planalto, quem acumula um himalaia de bandalheiras. Mas isso é tema para outro post). A presidente foi dispensada por VEJA de convocar outro encontro para cobrar as respostas: a edição desta semana desvendou o claro enigma.
Com argumentos de sobra para livrar-se dos “insufladores”, Dilma tem o dever de prosseguir a faxina com a imediata demissão do ministro. Ainda convalescendo da afronta estrelada por Palocci, o país não merece ficar outros 20 dias esperando que Alfredo Nascimento se anime a gaguejar algum álibi, ou tente explicar o inexplicável.

Comments powered by CComment