Internacional - Revista Veja  - 21/06/2011
Ícone da resistência a ditadura militar, líder das Mães da Praça de Maio se encrenca com "filho" que conheceu na cadeia.
Quando uma era das trevas pior do que as cinzas de mil vulcões baixou sob a Argentina, um pequeno grupo de mulheres teve a extraordinária coragem de enfrentar uma ditadura capaz dos piores crimes. De lenço branco na cabeça, as mães da Praça de Maio pediam silenciosamente uma resposta sobre o destino de seus filhos - alguns dos militantes armados, simpatizantes ideológicos da esquerda ou simples inocentes capturados pela máquina de prender, torturar, matar e sumir com os corpos que em oito anos de regime militar, de 1976 a 1983, deixaria 30000 "desaparecidos".
Entre elas, destacou-se uma mulher alta e corpulenta, Hebe de Bonafini, incansável na busca dos dois filhos e uma nora jamais localizados. O tempo e uma conversão política aos piores princípios da pseudoesquerda produziram o impensável: de paladina da justiça ela se transformou, primeiro, numa figura patética e, agora, dolorosamente envolvida num caso de corrupção e roubalheira de dar inveja aos profissionais do ramo do lado de cá da fronteira. Mais espantosamente, o homem que ela tentou defender no começo e agora procura jogar sozinho na frigideira é ninguém menos que Sergio Schoklender, assassino, com o irmão Pablo, dos próprios pais, a quem Hebe conheceu quando ainda cumpria pena e com quem passou a ter uma estreita e patológica ligação. Toque final de surrealismo: a montanha de dinheiro surrupiada aos cofres públicos originou-se nas verbas criadas quando o governo Kirchner transformou a organização de Hebe, Fundação Mães da Praça de Maio, em executora de um programa de construção de casas populares.
O uso de ONGs para malfeitorias nascidas do cruzamento entre governos populistas e movimentos sociais desvirtuados é uma perversão dos princípios mais respeitáveis da própria esquerda. Na Argentina, essa combinação maléfica permitiu que as Mães, sob o proativo comando operacional do parricida, tivessem acesso a 190 milhões de dólares. Isso sem precisar se preocupar com questões menores como licitações e auditorias. A verba se destinava à construção de 4100 moradias, 23 centros de saúde e três hospitais. Só foram concluídas 1500 casas por um custo unitário cinco vezes maior do que o previsto. Há pouco mais de um mês, a roubalheira começou a aflorar com as suspeitas de que as casas populares estavam proporcionando vida de nobres a Sergio e Pablo Schoklender. No dia em que fez 23 anos, em 1981, Sérgio, o cabeça, e, em participação até hoje discutida, seu irmão caçula mataram a mãe e o pai, engenheiro industrial, a golpes da barra de metal que usavam para fazer exercícios. Esconderam os corpos no porta-malas do carro da família, largaram-no numa rua e tentaram fugir, em vão. Na cadeia, o inteligente e articulado Sérgio promoveu a escolarização de presos e atraiu as atenções de Hebe (e também de uma psiquiatra judiciária com quem depois se casaria). Em 1995, saiu diretamente da penitenciária para a sede da fundação. Hoje, uma de suas casas tem dezenove quartos, catorze banheiros, piscina olímpica, quadra de tênis e uma Ferrari na garagem. Também é dono de dois iates e um jatinho.
Quando o escândalo eclodiu, Hebe, que usa muitos palavrões, disse que tudo se comprovaria "uma cretinice". Voltou atrás e agora o governo de Cristina Kirchner, de quem é amiga íntima, procura isola-la das acusações, mas já se ouvem referências oficiais a "coisas estranhas". Kirchnerista fanática, Hebe é defensora da ditadura cubana e do tiranete venezuelano Hugo Chávez, de quem também já recebeu umas verbazinhas. "É lamentável que organizações de direitos humanos percam independência para defender bandeiras partidárias em troca de dinheiro", disse a VEJA o nada direitista Adolfo Pérez EsquiveI, Nobel da paz de 1980 por denunciar os crimes da ditadura. Numa indignidade final, o escândalo trouxe à tona fotos de uma festa a fantasia em que Hebe foi vestida de bruxinha e Sergio Schoklender, de cardeal.
Enquanto isso, no Brasil... Chefe dos sem-terra surrupia até cesta básica de assentados
Nos anos 80, José Rainha Júnior era o melhor garoto-propaganda do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Com seu corpo magro e sua barba desgrenhada, o indefectível bonezinho vermelho e declarações como a de que iria criar "uma nova Canudos", Rainha encarnava o que naquela época parecia ser só uma utopia pastoril. O tempo passou, e tanto ele quanto o grupo que ajudou a fundar ganharam contornos mais reais. O MST assumiu sua verdadeira identidade, a de quadrilha criminosa, e Rainha, que findou uma corrente dissidente, viu sua ficha corrida crescer ano a ano (foi acusado de assassinato e processado por formação de quadrilha, furto e porte ilegal de arma, entre outros malfeitos). Na semana passada, a Polícia Federal concluiu que ele e seu bando desviaram dinheiro público destinado aos assentados da reforma agrária no interior paulista. Segundo a PF, a quadrilha usava cinco ONGs para surrupiar verbas federais. As ONGs apresentavam notas de compra superfaturadas emitidas por estabelecimentos determinados por Rainha, e ele embolsava a diferença. Junto com sua turma, ainda tirava uma casquinha das cestas básicas destinadas aos assentados. Para recebê-las, só pagando um pedágio ao bando. Rainha e o Movimento Sem-Terra mudaram muito. Mas continuam um a cara do outro.
 
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