Hugo Marques
Revista Veja
Suplente da ministra é citado pela polícia por envolvimento com grupo que desviava dinheiro público através de laranjas e funcionários-fantasmas
A exemplo do desmoralizado Senado Federal, a Assembleia Legislativa do Paraná foi infestada por atos secretos que permitiram aos parlamentares nomear parentes e compadres para cargos públicos.

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 Eram funcionários de dois tipos: fantasmas ou laranjas. O primeiro grupo consistia naqueles que embolsavam o salário sem sequer aparecer no trabalho.
O segundo era formado pelos que, de fato, trabalhavam, mas tinham de deixar parte do salário com o deputado que lhes concedera a graça do emprego. As irregularidades, operadas por um grupo que ficou conhecido como o esquema dos “gafanhotos” são investigadas pela Polícia Federal desde 2008. Foram identificadas 74 contas bancárias de pessoas que ajudaram de alguma forma a desviar milhões de reais do contribuinte. Dois desses insetos paranaenses pousaram em Brasília na semana passada. O mais vistoso deles é o advogado Sérgio de Souza, que vai assumir, na condição de suplente, a vaga da recém-empossada ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann.
Sérgio Souza é apontado como um “gafanhoto” do gabinete do ex-governador paranaense Orlando Pessuti, quando este era deputado estadual. A Polícia Federal descobriu que Erotildes Matias de Souza, uma dona de casa de 62 anos, mãe de Sérgio Souza, também constava como funcionária da Assembleia. Mãe e filho, além disso, recebiam os vencimentos na mesma coma bancária, mas ela nunca foi ao trabalho. Procurado por VEJA, o novo senador negou qualquer irregularidade. “Trabalho com o Pessuti desde 1992”, explicou. De fato, Sérgio é sócio do filho do ex-governador em um escritório de advocacia em Curitiba. Mas e a mãe? “Ela cuidava dos interesses do ex-deputado em Ivaiporã, ia de vez em quando ao gabinete”, justificou. A informação foi desmentida pelo próprio escritório político de Pessuti em Ivaiporã, no interior do estado. “A família dele tem mesmo ligação com o ex-governador, mas dona Erotildes nunca trabalhou aqui”, disse a VEJA Rosilda de Oliveira, funcionária do ex-governador há 22 anos.
Os gafanhotos são pragas. O ex-governador Pessuti, uma espécie de “gafanhoto-chefe”, recebia, até ser descoberto, salário de consultor administrativo na Assembléia, sem jamais ter prestado concurso público. Chegou lá guindado por um “ato secreto” eufemismo para ato clandestino. Ato idêntico beneficiou sua mulher, Regina Pessuti, que também recebia sem trabalhar. As péssimas credenciais de Pessuti, ao que parece, não atrapalharam em nada sua carreira. Pelas mãos do PMDB, na semana passada ele pousou no governo federal, mais precisamente no conselho de administração do BNDES. Ao mesmo tempo, no Senado, seu pupilo, Sérgio Souza, já se entrosava comodamente no novo habitar. Um de seus primeiros encontros foi com o líder de seu partido, o senador Renan Calheiros. “Senador Renan, estou aqui para servir. Conte comigo!”, disse, antes de trocarem um afetuoso abraço. Dado o passivo do senador-gafanhoto – e o histórico do líder do PMDB –, o ecossistema do Congresso está preservado.

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