Por Janio de Freitas - Folha de São Paulo - 05/06/11
Palocci deu razão aos que consideram imoral, sem o esclarecimento da alegada consultoria, sua permanência
AO PASSAR DE entrevistado a entrevistador, com apenas uma pergunta Antonio Palocci fez uma proeza: a um só tempo, invalidou seu pretenso argumento para manter sigilo sobre o enriquecimento e deu razão aos que consideram imoral, sem o esclarecimento da alegada consultoria, a sua permanência no ministério.
Foi já no fim da entrevista que Palocci se entregou, com o que deveria ser um fecho consagrador e confirmado por concordância balbuciada pelo entrevistador-entrevistado. Apresentadas as suas respostas discutíveis -como se verá-, Palocci foi para o arremate com a conhecida tese da maior dificuldade de provar a inocência do que a culpa. E, já com um sorriso vitorioso, dá o exemplo indagativo: "Eu digo que não fiz tráfico de influência; como eu vou provar isso?".
A entrevista à TV Globo vai se encerrar. Mas não por impossibilidade de resposta.
Se não houve tráfico de influência nem outros modos irregulares de fazer tanto dinheiro, mas apenas prestação contratual e legal de serviços, há a prova fácil e documentada dos contratos. Deles só é exigível que tenham veracidade reconhecível.
Os contratos que Palocci se recusa a mostrar, admitindo-se que haja com que o fazer. Recusa que é a razão do dano por ele causado a Dilma Rousseff, do embaraço em que põe o governo e de se ver ele próprio como suspeito de algo muito grave.
Ninguém cobrou de Palocci, até hoje, mais do que os contratos comprovantes da sua consultoria Projeto. Palocci deu-lhes, no entanto, um tratamento sinuoso e falacioso na entrevista. Na primeira pergunta, sobre a evolução do faturamento anual de sua empresa entre 2006 e 2010, recusou-se a falar de valores, mas fez este acréscimo: "Sobre os contratos, posso falar perfeitamente sobre eles". Indagado, porém, mais adiante, sobre os contratos, sua resposta é direta: "Eu não posso expor contratos com empresas privadas".
Aliás, que empresas? "Empresas que consideraram útil eu ter sido ministro da Fazenda". Seriam, talvez, empresas que têm uma visão especial de utilidade para negócios, já que não lhes pareceram úteis Bresser-Pereira, Paulo Haddad, Rubens Ricupero e outros antecessores de Palocci.
Em todo caso, feitas as reiterações da recusa ao esclarecimento dos contratos, apesar da perspectiva inicial de "falar perfeitamente sobre eles", Palocci foi promissor a respeito: "Toda a vida da minha empresa estará à disposição dos órgãos de controle".
Não é preciso falar das obrigações do governo e de seus integrantes para com os cidadãos. Há uma referência mais explícita: uma das funções dadas pela Constituição ao Legislativo é a de fiscalizar e, portanto, controlar o Executivo, tarefa, por sinal, que explica a existência do Tribunal de Contas da União como instrumento técnico de tal função do Congresso. Em razão da qual foi aprovada, há três dias, a convocação de Palocci para esclarecer, na Comissão de Agricultura da Câmara, os meios do seu enriquecimento. Presidente da Câmara, o petista Marco Maia ficou de dizer amanhã se confirma a convocação, contestada por parte dos seus correligionários. Se Palocci só espera por um "órgão controlador", a oportunidade está entregue ao seu partido.
Mas não parece tão singelo o motivo que torna o assunto dos contratos inconveniente a Palocci. E às empresas que o contrataram, se existem, apresentarem-se em respeito ao problema presidencial, governamental e nacional de que também seriam causa.
A entrevista esclarecedora de Antonio Palocci esclareceu a razão das suspeitas.

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