Planalto culpa serrista por vazamento de sigilo fiscal
Por Raquel Ulhôa e Paulo de Tarso Lyra  - Valor Econômico - 25/05/2011
Lula e os senadores do PT: reunião motivada pela percepção do ex-presidente de que apenas Lindbergh, Marta e Humberto Costa saíram em defesa de Palocci
O governo mudou a estratégia de defesa do chefe da Casa Civil, ministro Antonio Palocci, e decidiu atribuir à oposição - precisamente o secretário municipal de Finanças de São Paulo, Mauro Ricardo Costa, ligado ao ex-governador José Serra - o vazamento dos dados envolvendo a consultoria Projeto, empresa de Palocci.
Sob orientação direta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, coube ao secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, na manhã de ontem, anunciar o novo tom da disputa: "O governo sabe de onde veio [esse vazamento]. Quando, no ano passado, se denunciavam questões [relativas ao então candidato à Presidência José Serra], não se focou no conteúdo, só que havia um vazamento. E houve um vazamento agora na Prefeitura de São Paulo", disse o ministro. Carvalho não mencionou o nome de Mauro Ricardo, mas parlamentares da base aliada o citaram por diversas vezes.
Ao virar o foco para a oposição, estancam-se as insinuações de que Palocci estaria sendo vítima de "fogo amigo", vindo de descontentes do PT ou até mesmo de integrantes da equipe econômica. Com esse estratagema, o governo pretende, também, transferir a crise, gerada por suspeitas acerca do aumento patrimonial de Palocci, para uma disputa no campo da política, entre governo e oposição. Na análise de governistas, isso contornaria a necessidade de explicações mais profundas do que aquelas que Palocci vai prestar à Procuradoria-Geral da República.
Em 2010, a oposição, segundo fontes governamentais, não se esforçou para explicar as possíveis ilegalidades em operações feitas por pessoas próximas a Serra e outros dirigentes tucanos, concentrando as queixas no vazamento dos dados sigilosos pela Receita Federal. Por isso, não teria, agora, "autoridade moral" para cobrar uma postura diferente do Planalto. "Nós fizemos nossa investigação e afastamos os servidores da Receita envolvidos no caso. Eles [a oposição] têm de fazer o mesmo", cobrou um petista.
Desde que a primeira matéria contra o chefe da Casa Civil foi publicada, em 15 de maio, Lula tem falado com regularidade com Palocci e Dilma. "Lula é um animal político, ele percebeu que estão querendo fragilizar a presidente atingindo seu auxiliar mais poderoso. É claro que ele não ficaria calado", disse uma fonte do PT. Ontem estava previsto um jantar de Lula e Dilma com Palocci e o ex-ministro Luiz Dulci no Alvorada.
A mudança de tom político estava sendo costurada desde a semana passada. O Planalto queria encerrar as suspeitas de que Palocci - alvo de ciúme de setores do PT e de outros integrantes do primeiro escalão que o consideram excessivamente poderoso - estaria sendo vítima de fogo amigo.
Na sexta-feira de manhã, segundo apurou o Valor, um emissário do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, procurou o governo.
Segundo esse interlocutor, o prefeito se esforçaria para descobrir quem teria repassado à imprensa a movimentação financeira da Projeto em 2010, com base no recolhimento do ISS. No domingo, Kassab cobrou explicações públicas de Palocci. Depois disso, o prefeito manteve o silêncio, o que irritou o governo e desencadeou a reação contra a prefeitura de São Paulo.
Embora não digam publicamente, o alvo dos governistas é o secretário de Finanças, Mauro Ricardo Costa, que também foi secretário de Fazenda do Estado quando José Serra foi governador. "O Serra vem com aquele "discursinho" em defesa do Palocci. Ele quer enganar a quem?", perguntou um parlamentar do PT.
Além de ser o mentor da nova estratégia, Lula informou à presidente que iria encontrar-se ontem com a bancada de senadores do PT. Não escapou à percepção do ex-presidente o fato de apenas três senadores - Lindbergh Farias (RJ), Marta Suplicy (SP) e Humberto Costa (PE) - terem defendido Palocci da tribuna da Casa.
O ex-presidente almoçou com 13 dos 15 senadores do PT na casa da senadora Gleisi Hoffmann (PR), esposa do ministro Paulo Bernardo (Comunicações). Lá, ouviu fortes queixas da falta de articulação política do governo Dilma. Lula também disse aos senadores que concorda com as suspeitas de que o vazamento de informações sobre o aumento do patrimônio de Palocci pode ter envolvimento de Mauro Ricardo Costa.
O ex-presidente pediu à bancada do PT no Senado unidade e empenho na defesa de Palocci, lembrando a importância do ministro para o governo Dilma. Disse que o ataque ao chefe da Casa Civil é um "teste" para a presidente, que não tem uma rede de articuladores à volta.
Disse ainda que no início do seu governo eram muitos os assessores com interlocução política e, quando um era atingido por denúncia, os outros mantinham a proteção. No governo Dilma, Palocci está praticamente sozinho nessa atuação.
Aos senadores, Lula disse que as acusações contra o ministro impedem que Dilma colha os frutos do "momento ímpar" que o governo vive - o país continua crescendo, a inflação dá sinais de recuo e a base governista é majoritária no Congresso.
Os senadores reclamaram da total falta de interlocução com o governo. Exemplo disso, citaram, é a falta de informações de Palocci sobre o crescimento vertiginoso do seu patrimônio, que dificulta a sua própria defesa. Disseram que o ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, não tem autonomia para tomar decisões e não há qualquer relação com o Senado. Palocci é quem tem poder e os senadores queixaram-se de falta de acesso a ele.
"Os canais não estão azeitados", disse um parlamentar presente ao almoço. O grupo afirmou a Lula, ainda, que o governo não discute com eles a agenda legislativa, não fornece informações sobre propostas em discussão no Congresso, nem atende às demandas apresentadas. Lula prometeu levar as queixas a Dilma.
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Palocci Fiction
Por Fernando de Barros e Silva  - Folha de São Paulo - 25/05/11
SÃO PAULO - Franklin Martins andava sumido. Sua chegada súbita ao Palácio da Alvorada, na última sexta pela manhã, trouxe a recordação de "Mr. Wolf", o personagem de
  
 Tenho prática... removo todos
  os vestígios 
Harvey Keitel em "Pulp Fiction", o filme cult de Quentin Tarantino.
"Mr. Wolf" se apresentava como aquele que "resolve problemas". Na prática, era um "cleaner", especialista em orientar a limpeza da cena do crime. Para ser mais justo, apesar dos serviços prestados por Franklin a Lula, se houve um "Mr. Wolf" na gestão anterior ele se parece mais com Márcio Thomaz Bastos, o ministro-advogado que operou a redução de danos no mensalão e no escândalo do caseiro.
Antonio Palocci voltou a necessitar de um "Mr. Wolf". Alguém que explique que nunca houve crime, incompatibilidades ou conflito de interesses entre o exercício do mandato parlamentar, a coordenação da campanha de Dilma e as atividades da consultoria Projeto, a sua galinha dos ovos de ouro.
Um dos traços que distinguiam "Mr. Wolf" era a presteza do serviço. Esse trunfo o governo já perdeu. Ao desdém inicial do Planalto seguiu-se o mutismo catatônico do ministro diante do escândalo. O cadáver está lá, exposto há dias, e Palocci talvez acredite que ele possa ser assimilado à paisagem, por exaustão da capacidade do público de se espantar. É uma hipótese.
O establishment não quer a queda de seu "darling". Palocci é o homem que faz a interlocução com o mercado, o articulador político, o eixo de gravidade e o selo de garantia do governo. Mas Palocci "é" ou "era" isso tudo? Mesmo que sobreviva no cargo, terá condições de exercer suas funções com a mesma desenvoltura, a mesma autoridade e ascendência que teve um dia?
Parece pouco provável. E interessa a Dilma, ela própria começando a flertar com o fantasma do desgaste, manter a seu lado, no coração do poder, um ministro ferido de morte ou, no mínimo, fragilizado? Nem o Planalto sabe ao certo se é melhor "limpar" ou "queimar" Palocci.

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