Um Brasil de desanimar
Por Anna Ramalho - JB online - 23/05/2011
Semaninha esquisita, essa que passou. Quando a gente pensa que o novo governo está cheio de boas intenções, que temos, afinal, uma mandatária que manda à beça e fica na dela, resguarda-se de aparições pirotécnicas e evita falas gongóricas, quando a gente começa a vislumbrar a luz no fim do túnel, catabum!, lá vem babado dos bons pra animar a brava moçada da oposição.
 E escandalizar mais uma vez os brasileiros que botaram Dona Dilma sentada na cadeira presidencial.
Nunca entendi o ministro Antonio Palocci voltar a ser eminência parda. Como pode um governo que se pretenda minimamente sério, investir de tanto poder uma pessoa que foi flagrada e desmoralizada por um modesto caseiro quando comandava “tenebrosas transações” numa mansão em Brasília (aqui, um esclarecimento: aquele povo das altas esferas do poder público nunca tem uma casa – é sempre uma mansão, que é bem termo de classe média deslumbrada)?
Até as carpas do laguinho do Alvorada sabem que, tal como a mulher de César, ao político não basta ser honesto, ele tem que parecer honesto. E o diabo é que o Palocci, à primeira vista, parece honesto e será honesto até que se prove o contrário, na forma da lei. Presunção de inocência, não é isso? É. Mas, do jeito que a coisa anda sendo desenhada, não é. Correram todos para blindar o companheiro, o que, convenhamos, é muito esquisito.
Fiquei muito impressionada quando li, na sexta-feira, que Sua Excelência declarara que a situação do Palocci “estava sob controle” e que ela seguraria o ministro no cargo “até o fim”. Vem cá: o fim do quê? O governo tenta por todas as maneiras impedir que a oposição convoque Palocci a testemunhar no Congresso, o que é muito estranho. Quem não deve, não teme. Se está tudo em ordem, tudo devidamente declarado ao Fisco, qual é o problema de responder às perguntas dos nobres deputados e senadores? Seria este o fim a que Dona Dilma se referia? Vá saber!
Permeando todo esse jogo de interesses escusos, a bendita lista dos 120 nomes de ungidos pelo PT que ganharão cargos os mais variados na máquina estatal.
Como diria minha avó, “qual!” Se ela ainda vivesse, politizada como era, estaria tão desiludida quanto eu estou com a política que se pratica neste país. Com P minúsculo mesmo. Ministros se não são desonestos, são de quinta categoria. O que dizer deste Fernando Haddad que comanda a Educação? E o tal Novaes, do Turismo, de quem nunca ninguém ouviu falar? Responda rápido: quem é o ministro da Saúde? E a piada que é o tal Ministério da Pesca? Pescam o quê, aliás? Tesouros do fundo do mar?
Qual! Que país é esse em que semialfabetizados ganham fortunas para palestrar mundo afora? Fico pensando nos brilhantes professores e acadêmicos brasileiros que, quando convidados, recebem uma merreca, quase uma ajuda de custo, enquanto nosso ex-presidente corre o mundo enchendo as burras para seu plano de previdência privada. Qual!
Faço aqui a pergunta que não quer calar: se Deus é mesmo brasileiro, que mal fizemos a Ele para sermos brindados sucessivamente com governantes e políticos tão fracos?
Até quando, Senhor, teremos que conviver com tanta patifaria, enquanto o país fica paralisado por mais um escândalo?
A Saúde precisa de um trato. A Educação, nem se fala. Quando a gente pensa que já viu e ouviu tudo, vem o ministro da Educação endossar e distribuir um livro que ensina que “nós pega o peixe” é o quente. Ainda bem que minha neta estuda na Escola Parque, nota 10 em ensino, nota 10 em cidadania. Bela Antonia, na flor dos seus sete aninhos, está bem na fita. O que me alivia, o que me faz confiar em seu futuro, mas me angustia quando penso nos pobres brasileirinhos de sua idade, muitos deles ainda completamente analfabetos. O que pode esperar um brasileirinho desses com um Ministério da Educação pífio e mais um governo tentando acobertar mais um escândalo, enquanto o país fica paralisado esperando o que ainda poderá vir por aí?
Leio a entrevista da professora potiguar e meu coração fica apertado. Pobres mestras, que tanto estudam para no final do mês receberem dois mil e poucos reais, noves fora os descontos, e encarar salas de aula quentes pelo calor que reina no país e frias pela desatenção da maioria daqueles alunos que mal têm o que comer. Como podem alimentar a mente e o espírito, se a barriga ronca de fome?
Que o Palocci tome o rumo que tiver de tomar. E que Dona Dilma verdadeiramente se debruce sobre os problemas que foi eleita para resolver. É o mínimo que o Brasil espera, né, não?
 
 

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