Vinicius Torres Freire - Folha de São Paulo - 22/05/11
Palocci dava consultoria quando deputado? Se não, quem era o funcionário de tanto 'valor no mercado'?
A CARTA destrambelhada que um assessor de Antonio Palocci enviou ao Congresso a fim de explicar a consultoria do ministro ainda dá o que pensar. O assessor da Casa Civil lá deduz o seguinte: quem passa por Fazenda, Banco Central ou BNDES vive uma experiência que lhe confere algo como notória especialização ("experiência única"), o que leva, pois, o mercado a atribuir "enorme valor" a esses profissionais.
Curiosa ou desastradamente, o assessor do ministro diz que são o "mercado de capitais e outros setores" que fazem o preço do serviço. "Mercado de capitais"? Passemos, pode ser só outro deslize do assessor. Interessa mesmo é saber o que Palocci (ou a consultoria) vendeu.
O saber de uma "experiência única" no alto escalão do governo, diz a carta. Comparável à de Pedro Malan (economista acadêmico e funcionário público por muito tempo), de André Lara Resende (economista reputado e banqueiro antes de ir ao governo, aliás com relutância) ou de Mailson de Nóbrega (que fez carreira no Banco do Brasil).
Malan é alto funcionário de um grande banco -vende o serviço que pode valer a sua "experiência única", porém plasmada pelo conhecimento de economia. Lara Resende vende o serviço da sua capacidade única de financista, o que fazia antes de passar pelo governo. Mailson tem empresa com dúzia de sócios, dezenas de funcionários, endereço e telefones conhecidos, além de história na praça, mas fatura mais ou menos como a Projeto de Palocci.
Palocci é muito inteligente, mas a única experiência que tem de economia é de orelhada, embora seja um administrador muito hábil de economistas e executor único de políticas, afora nos momentos desnorteados (surto?) em que se envolve em coisas como a devassa da conta bancária do caseiro Francenildo.
Não se trata de discriminar Palocci, impedir apenas esse funcionário do Estado de vir a fazer a parceria da experiência pública com o empreendimento privado (frase que, aliás, conta a história política e pessoal de quase todo alto tucanato, que saiu da vida no partido para fazer história no mercado).
Francamente, que empresa não gostaria de ter conselhos de Palocci? O então ex-ministro da Fazenda poderia muito bem fazer dinheiro como GPS do caminho das pedras, desde que não construísse viadutos e pontes sobre os pedregulhos.
Mas não se sabe o que o ministro vendia, nem como, quando e onde. Essa pergunta apenas tem cabimento porque: 1) ele era deputado federal quando sua consultoria vendia serviços; 2) ele coordenava a campanha da futura presidente; 3) ele agora é o premiê do governo; 4) essas condições podem levantar a suspeita de conflito de interesses.
Palocci trabalhava sozinho (aliás, não podia fazê-lo)? Se não, quem trabalhava para ele? Como esse(s) funcionário(s) incorporava(m) a "experiência única" de Palocci? Se apenas Palocci dava consultoria, o fazia nas horas vagas do cargo de deputado e de consultor da campanha de Dilma Rousseff?
Como era feito o preço da consultoria? Por hora, como a de advogados americanos de filme? Ou havia taxa de sucesso? Em caso de sucesso, o que ganhavam as empresas?
Palocci merece o benefício da dúvida, até pelo fato curioso de ter escancarado seu enorme valor de mercado. Mas há dúvidas enormes

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