Jornalista Sebastião Nery
Por Sebastião Nery -
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RIO - Esta é uma historia de um cabo paulista, contada e recontada desde os tempos de Ademar de Barros governador de São Paulo.
Ele era cabo do Palácio Bandeirantes. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grosso, bem fechado.
 Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grosso. Morria de curiosidade, mas não abria nem o envelope fino nem o pacote grosso.
Nem sequer tentava enxergar alguma coisa ao sol. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o preço primeiro do dever.
         Um dia, o cabo não se conteve mais.Abriu pela ponta, discretamente, o pacote grosso. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30. deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão, escrito à mão:
         - “50 contos no bicho que der.”
         O cabo não resistiu. Pegou uma caneta em um botequim, emendou:
         - “50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.
        Nunca mais lhe deram o envelope fino nem o pacote grosso.Demitido.
FOLHA
Cada palácio tem o cabo que merece. O Palacio do Planalto tem o cabo Palocci. É um violador de segredos (a conta bancaria do caseiro Francenildo) e um multiplicador de dinheiro (saltou em poucos meses de modestos 375 mil reais de bens para a fortuna de quase 8 milhões).
Jogando “no bicho que der”? Não. Fazendo “consultorias”, como deputado. “Consultorias” de que? É ai que mora o mistério. Aos fatos:
- “A Folha revelou domingo que Palocci multiplicou por 20 seu patrimônio. De 375 mil reais para quase 8 milhões entre 2006 a 2010, período em que exerceu o mandato de deputado federal pelo PT”.
“Comprou dois imóveis de luxo em São Paulo: um apartamento de 6,6 milhões de reais em 2010 e um escritório de 882 mil em 2009. As aquisições foram feitas por uma empresa de consultoria criada no fim do ano passado, antes de virar ministro” (Marcio Falcão e Breno Costa).
ELIANE
Também na Folha, a serena e sempre lúcida Eliane Cantanhede:
- “Ninguém sabe, e Palocci não explica, o que é essa empresa, qual 
o seu faturamento, em que áreas atua, quais os seus clientes. Se têm R$ 7 milhões cash para o apartamento, quanto mais a empresa e Palocci têm? Nenhum milionário, especialmente ex-ministro da Fazenda, aplica todo o seu patrimônio num único imóvel.Sugere que tem muito mais,aqui e acolá”
         “Não custa lembrar que o ministro não é primário em escândalos: depois da Prefeitura de Ribeirão Preto, SP (o escândalo do lixo), de se meter numa casa mal freqüentada em Brasília, ser delatado com malas de dinheiro, afinal se enroscar com a quebra de sigilo do caseiro Francenildo”   
JANIO
O veterano Janio de Freitas (FSF) fecha o assunto, devastador :
         - “As lavanderias que dão maiores lucros não lavam roupas nem outros tecidos. Lavam dinheiro. E não usam o nome lavanderia. Chamam-se consultorias. Assim como as lavanderias verdadeiras não são consultorias, nem todas as consultorias são lavanderias. Há razões mesmo para acreditar que a maioria não o seja, à parte o grau de competência”.
         “Contraventores, traficantes, contrabandistas e congeneres adotam sistemas próprios de lavagem. Consultorias são  preferidas. E muito eficazes para quem precisa lavar dinheiro recebido de modo ilícito no exercício de função publica. Aquele dinheiro que não pode aparecer de repente, sem maiores riscos”. (Precisa dizer mais?).
PERTENCE
         Com aquele ar sonso de monge medieval penitente, Palocci reincorporou no Brasil os adjetivos “adequado” e “inadequado”. Para ele nada há“certo”ou “errado”, “inocente” ou “criminoso”. É tudo “adequado”. “inadequado”. Por isso foi esconder-se atrás das venerandas barbas brancas do ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence, presidente da Comisão de Ética do Governo. Disse que “todos os detalhes das atividades da Projeto foram registrados na Comissão de Ética, inclusive, obviamente, a aquisição dos bens”. A Comissão o desmoralizou, dizendo que “não foi informada sobre a evolução de seu patrimônio” (apenas sobre a criação da empresa). 
         E há um dado arrasador. Palocci, em 2010, foi o chefe da coordenadoria da campanha de Dilma, depois chefe da Comissão de Transição. Todo mundo sabia que ele seria o ministro da Casa Civil. Quem adubou em 8 milhões a roça de Palocci sabia o investimento que fazia.

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