Processo arquivado no Superior Tribunal Militar
Rakudianai - "Não é fácil"  mentir, Pérsio Arida
Parte II - A viagem para o Rio e a tortura
Por Carlos Alberto Brilhante Ustra
 As Mentiras 
Voltando às lembranças de Pérsio, ele afirma que um ou dois dias depois do interrogatório os agentes da OBAN  montaram uma campana  na garçonnière que lhe servia de "aparelho" . Depois, continuando sua rotina , "saía  da prisão para os encontros de rua que havia listado no depoimento" (...)
 (...) Um dia ao sair da cela para mais um encontro fictício, vi a distância meu tio Jorge,.. Acenou fez um sinal de alívio, embora não o deixassem se aproximar de mim.
Deve ter se passado entre essas idas e vindas mais de 6 dias, tempo em que ele estava sob a responsabilidade do comandante da OBAN.
O sopão
Em 29/09/1970 eu assumi o comando, já tendo o órgão o novo nome de DO/COD/II Ex, mas as instalações continuavam as mesmas, em uma parte  da delegacia.  
Pérsio Arida, continua narrando sua rotina. 
Afirma que tomava, no pátio do DOI, um sopão, o que não é verdade. Nunca os presos foram reunidos no pátio do DOI , assim como jamais servimos um sopão a eles. Sua comida era igual a nossa, era feita na PE e vinha em marmitas térmicas. As refeições dos presos eram levadas em pratos feitos, pelo carcereiro, diretamente nas celas. Afirmo categoricamente, esta história do sopão nunca existiu, é pura ficção.  É mais uma mentira de Pérsio Arida.
As esfihas 
Diz, também,  que, furtivamente , sem que soubéssemos, um pacote de esfihas era entregue por  um guarda que seu pai subornara, arranjando um emprego para sua namorada.
Imaginem se depois do atentado a bomba no Quartel General do II Exército, entraria algum pacote no DOI, sem ser revistado e  autorizado, pelo menos pelos responsável pelo plantão?. Além disso na carceragem, onde ficavam os presos, só pessoas identificadas e autorizadas tinham acesso. Jamais um guarda teria a chance de penetrar naquele recinto, e, muito menos, manter contato com um preso. Seria identificado na hora e teria muito o que explicar porque e como lá penetrara, furtivamente. É mais uma mentita de Péssio Arida..
O encontro com Bacuri
Ele fala de seu encontro com Bacuri, no pátio do DOI, quando estava preso. Não se refere a datas, mas afirmo, com todas as letras, que durante o meu comando (29/09/1970 - 23/01/1974) isto nunca aconteceu. Se Bacuri esteve preso no DOI, perigoso como era, jamais estaria no pátio para o banho de sol,  juntamente com aqueles adolescentes que nós tivemos a preocupação de  manter isolados, tendo a continua assistência de Sra Zuleika Sucupira, do Juizado de Menores e de oficiais  psicólogos que também lhes prestavam assitência. É mais uma mentira de Pérsio Arida.
A palestra de Massafumi
E, entre suas lembranças , se depara com Massafumi Yoshinaga e outro que fizeram uma palestra para todos os presos, no pátio e pasmem, vejam o que diz Pérsio, sobre Massafumi,  único nome citado.
"Fiquei branco. Era o nissei da pesada que se hospedara na minha casa". (...) Passei aquela noite em claro , esperando o momento em que fossem  me chamar para uma sessão de torturas, de vingança. (...)
(...) o dia raiou, mais um dia inteiro se passou e outro . Nada (...)
M
Esta palestra nunca aconteceu durante o meu comando . Por motivos de segurança e da incomunicabilidade dos presos, jamais eles seriam reunidos no pátio da DOI. É mais  mentira de Persio Arida.
A transferência para o Rio de Janeiro e as torturas
Agora começa o auge do delírio. A maior e pior mentira.
Soube uma manhã que seria levado ao Rio de Janeiro (...)
( ...) - Eu sei que você mentiu . Todos seus companheiros foram presos  e confirmaram que aqueles seus  encontros não existiam. No Rio eles sabem tratar pessoas como você. Lá eles são sérios. Esses caras daqui são uns bananas (...)
Um frio na espinha: o crocodilo se aproximava. Aquele torturador ficara com ódio por ter sido passado para trás. Por algum motivo, os comandantes da Oban haviam impedido que me batesse.
 (...) Naquele mesmo dia , depois do expediente , o guardinha foi inesperadamente à loja de meu pai . contou-lhe , aflito minha tranferência para o Rio (...)
O crocodilo a que se refere é uma figura imaginária , que lhe persegue e o atemoriza  desde a infãncia
Pergunto por que gastaríamos tempo e dinheiro, conduzindo para o Rio de Janeiro afim de ser interrogado, um garoto menor de idade, sob a assistência de Juizado de Menores, que dava seus primeiros passos na subversão e cujos contatos, comprovadamente, se referiam, apenas, aos seus companheiros de célula, tudo só referente a São Paulo?
Que vantagem operacional nos teríamos? Foram raríssimas as vezes que transferimos presos para outras cidades e, certamente, não perderíamos tempo com Pérsio Arida. 
Pérsio continua com suas lembranças, ou melhor seu delírio, e conta a viagem ao Rio, a parada em instalações da Aeronáutica, em São José dos Campos, onde almoçou em uma mesa comum, no mesmo local onde, também, comiam outros militares, mesmo estando com uma das mãos algemadas ao agente, cena vista por várias pessoas, enquanto os militares conversavam animadamente com colegas que se aproximavam.
Segundo ele, "Não havia preocupação alguma em me esconder de terceiros. tampouco havia pressa. O almoço foi longo, repetiram o cafezinho. Estavam em casa."
Imaginem os senhores se um preso "tão perigoso" e que, segundo ele, estaria sendo levado ao Rio de Janeiro para ser interrogado, seria levado, nestas condições, para almoçar em uma unidade militar.  Se de fato ele estivesse viajando conosco, com certeza, teria almoçado sem algemas, sendo viagiado de perto pelos agentes, em um resturante de beira de estrada. Prática esta muito perigosa, pois mais de um preso, quando assim se alimentava, já teria tentado a fuga.
Portanto, afirmo que esta história do almoço em São José dos Campos só confirma o delírio de Pérsio Arida.
Tudo mudou na chegada do Rio Já na avenida Brasil fui encapuzado e jogado no chão do carro para não ser visto. Era começo de  noite; o carro dava voltas  e voltas  para eu não saber onde me levavam.(...) 
(...) Quando minha cabeça foi descoberta, estava em uma sala ampla, com várias pessoas . Não era o único a ser torturado.
(...) o primeiro murro foi no estômago. o torturador se vingava; havia ódio nas suas palavras e olhos.
O corpo nu arrastado, em vez de maquininha com manivela, choques direto da tomada.  O primeiro desmaio e depois o segundo, sempre após as descargas
(...) O médico dizendo nada grave, é só aguardar um pouco até que ele retorne (...)
Depois, Pérsio Arida segue contado que acordou da tortura deitado no chão de uma cela escura, o corpo moído, como se estivesse todo quebrado. Imaginava-se preso por tempo indefinido e  torturado novamente. Um pedaço de pão  foi jogado pela janelinha da porta da solitária.
Quando saíu da solitária e foi levado encapuzado  para uma nova cela, onde pelo toque de corneta deduziu que estava em um quartel., que tempos depois identificou como o quartel da Polícia do Exército,  na rua Barão de Mesquita.
 Estava com  corpo coberto de manchas roxas. Um prato de comida era passado pelo pequeno visor da cela uma ou duas vezes por dia. Era vigiado através do visor por um soldado fardado, várias vezes, principalmente à noite.
De repente alguém na cela ao lado se comunica com ele por meio de batidas na parede.
 Um dia jogaram na cela onde estava  um homem bem mais velho. Assustado sussurrava, tinha medo de aparelhos de escuta. Este homem, ilustre e famoso,  que ele diz ter se identificado com nome completo, profissão e endereço era um professor de história com vários livros publicados. Depois de identificar-se, contou-lhe detalhes da tortura inimagináveis: uma "geladeira", onde os corpos eram mergulhados e afogados em água gelada;   cobras que atacavam os que se negavam a falar e celas com ratazanas .
É lamentável que Pérsio não tenha citado o nome de tão ilustre professor, para confirmar sua história. Aliás, as pessoas citadas por ele, como Massafumi Yoshinaga, o nissei que escondeu em sua casa e que encontrou no DOI, fazendo uma palestra, suicidou-se anos depois, e seu pai, uma das figuras mais marcantes em sua narração, quem foi buscá-lo no Rio,  também está morto. 
A crise de asma minava suas forças, continua Pérsio. Pedia ajuda, precisava de um médico e era avisado pelos soldados  que se insistisse em ver um médico voltaria para a tortura.
Quando, em que data, afinal ele foi transferido para o Rio?
E a assistente do Juizado de Menores, que lá estava, permanentemente, em contato com ele não teria denunciado sua ausência?. Pelo contrário, a Sra Zuleika  Sucupira, daquele Juizado, quando entrevistada pela imprensa assim se manifestou:
"Mantive diversos contatos com os jovens, tendo verificado em palestra informal com os detentos que eles não haviam sofrido nenhum tipo de violência, ressaltando que o Serviço de Assistência de Menores não possui recursos nem condiçoes para dispensar a esses jovens o tratamento que eles vêm recebendo por parte das autoridades militares" ( O Estado de São Paulo, 17/10/1070)
Lemos todas as 27 páginas das "lembranças" de Pérsio Arida em busca de algo concreto para desmontar algumas mentiras
Fui verificar dados, datas de prisão, saídas do DOI e ofícios, no processo 526/71 - 1ª  auditoria /2ª CJM , para desmentir o tempo que ele diz ficou preso : Fiquei preso vários meses (...)
Depois de ler o processo,
esse  primeiro parágrafo foi fácil desmentir. Ele ficou preso ao todo entre a OBAN, o DOI  e o DOPS, 42 dias.
Faltava provar o delírio da ida ao Rio de Janeiro. Continuamos a ler suas "lembranças', na esperança de que ele  dissesse um nome, uma data, um fato que nos ajudasse a desmontar sua versão da ida ao Rio de Janeiro e consequentemente das torturas pelas quais diz que passou. Mas, Pérsio é inteligente, escorregadio e suas "lembranças", como ele mesmo diz,  são lábeis - variáveis, instáveis, transitórias, sem uma sequência lógica e desordenadas.
Nós sabíamos que era  um delírio. Tinhámos  certeza que, como comandante, não autorizara sua ida ao Rio de Janeiro.
 Mas, nós não podemos apenas dizer o que temos certeza que é verdade. Nossa verdade não tem o crédito das mentiras dos ex-militantes. Nem com dados, nem provando por A+B. Não  nos dão voz e nem publicam nossas réplicas. ..
 Finalmente, na décima quarta página, encontrei um dado incontestável. Pérsio Arida, talvez por distração ou entusiamado com seu delírio escreve: "Depois de três semanas , fizeram-me sair da cela.
Como depois de três semanas, se no período em que esteve sob a responsabilidade do meu antecessor, de 24 a 28/09 (4 dias dias), ele mesmo declara que seguia a rotina , cobrindo pontos em São Paulo e  no meu período de 29/09 a 15/10 ( 17 dias ) , também  segue a rotina dos outros jovens,  inclusive  assistindo palestras ?
 Sem perceber o dado importantíssimo - três semanas -, detalhe aparentemente sem importância, Pérsio  continua seu delírio 
Abatido pela asma prolongada, tive dificuldade de andar até o portão do quartel." Parei no meio do caminho, quase fui ao chão ao abrir uma porta(...) Na saída, surpresa das surpresas, meu pai e minha mãe. A alegria  não durou muito: explicaram -me que ainda estava preso. Informado de que eu não voltara antes para São Paulo por falta de condução, haviam conseguido vir me buscar para acelerar minha libertação. Tratava-se apenas de levar-me da prisão do Rio de volta para a prisão de São Paulo. (...)
(...) Estavam acompanhados por dois militares à paisana.(...)

Pérsio 
vai algemado e pouco pode conversar. Seu pai consegue autorização para que fossem a um hotel para que ele tomasse banho . O banho foi um desgaste por causa da devastação que a asma lhe causara pelo tempo que passara sem atendimento médico, e sem  a bombinha que usava desde criança para auxiliar a respiração. Foi necessário que o pai o banhasse, o secasse e vestisse a muda de roupa que tavia trazido.
Os militares ficaram inicialmente dentro do banheiro, depois no  quarto, portas trancadas por dentro. Chaves nas mãos de um deles, armas apontadas para esse menino frágil que nem conseguia secar-se após um banho.e nem mesmo abotoar a camisa.
 Somente depois de todo esse sacrificio e deste esforço, na saída do hotel , não se sabe bem porque, lembraram de comprar a bendita bombinha e seguiram viagem , o pai ao volante, a mãe ao lado,  os guardas atrás e Pérsio entre os dois.
Ele narra ainda que no caminho, o pai  contou-lhe o seguinte: Ai cheguei para o comandante da Oban (sic), me identifiquei e pedi para buscar você no Rio. Dei minha palavra de oficial de cavalaria. não sei o quanto ajudou, mas não atrapalhou. (...)
Continuo afirmando que durante o meu comando Pérsio Arida não foi encaminhado ao Rio de Janetiro . Sua viagem ao Rio é pura imaginação . Também, seu pai nunca me procurou para tratar da sua volta do Rio de Janeiro.
Esta ida ao Rio de Janeiro jamais aconteceu .
A verdade:
Vinte e um dias depois de estar preso - 17 dias sob a minha responsabilidade como comandante -,  também em 15 de Outubro de 1970, Pérsio Arida, foi  enviado ao DEOPS (Of. Nº 40- E/2 -DOI) para seguir os trâmites legais.
Permaneceu no DEOPS e no dia 3 de novembro de 1970 ,  foi ouvido pelo delegado de polícia Dr Edsel Magnotti.
Por ser menor de 21 anos, teve como curador, por ele escolhido, o Dr Benedicto Muccim - OAB 1962/SP. Em seu depoimento, confirmou toda a sua atividade subversiva, posteriormente, retratada em juízo.
Foi restituído ao DOI ( OF.1017/70 DOPS) e colocado em liberdade por ordem do Gen Chefe do EM do II Ex para que respondesse, nessa condição, ao processo.
Tal fato aconteceu pelo documento assinado pelo então chefe da 2ª SEC/II EX, Cel Ex Erar de Campos Vasconcelos , datado de 5 de novembro de 1970 
Na setença absolutória, de 17 de dezembro de 1971, assim se manifestou o Colegiado ao se referir ao então Réu Pérsio Arida:
"Disse o Dr Procurador, em suas alegações ao opinar pela absolvição de Pérsio Arida, 'que foi mais um garoto estúpido nas mãos de péssimos elementos'. Tendo em vista a análise lógica da prova produzida, podemos acrescentar: é também mentiroso."
Rakudianai -" não é fácil"  mentir, Pércio Arida.
Do texto , muito bem escrito e romanceado, extraímos  conclusões de Pérsio muito interessantes que talvez sirvam para que outros jovens não entrem em aventuras quixotescas como alguns entraram naquele período:
(...) Meu muro de Berlim desmoronou muito antes do que o de concreto e arame farpado (...)
(...) Os totalitarismos são todos assemelhados.(...)
(...) se bem sucedido , o movimento guerrilheiro teria provavelmente feito do Brasil uma grande Cuba. Sua dinâmica continha o mesmo virus que fez, em outros momentos da história , militantes de excepcional pureza revolucionária se transformarem , quando chegam ao poder , em mandantes de mortes em massa e de torturas. (...)
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