Junta de Coordenação Revolucionária - Vale A pena ler de novo 
Notícias de Jornal Velho:
Por Carlos I.S. Azambuja - 11.10.2007
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Nos anos 70 houve, no Cone Sul, um intento de coordenação das forças da esquerda revolucionária insurrecional com a criação da JCR (Junta de Coordenação Revolucionária). A idéia da JCR nasceu principalmente da iniciativa do MIR, do Chile, e do líder argentino Roberto Santucho (do ERP), e foi o resultado de uma reunião em Havana, em julho de 1971 (estavam também presentes militantes do Movimento Tupamaros, assim como do Exército de Libertação Nacional boliviano, sobreviventes da guerrilha fundada por Ernesto Che Guevara).

Texto  completo

Essa mini Internacional Revolucionária Latino-Americana foi conformada no Chile, em novembro de 1972 (antes, portanto, da queda de Salvador Allende), porém nunca logrou uma amplitude importante. Entrementes, além de ter sido criada no Chile uma escola de dirigentes, foi enviado apoio financeiro ao ELN boliviano, se acolheram alguns militantes tupamaros fugindo da repressão e, inclusive, se delinearam projetos de construção de armas semi-pesadas. O golpe de Estado no Chile, bem como os órgãos de Inteligência, impediram qualquer progresso real da JCR.
Na reunião de fundação da JCR, em novembro de 1972, em Santiago, Chile, participaram a Comissão Política do MIR, membros da direção dos Tupamaros e três representantes do Birô Político do ERP. Miguel Enriquez, secretário-geral do MIR, expôs a necessidade de concretizar essa organização internacional a fim de levar a cabo a luta armada para a implantação do socialismo nos países do Cone Sul, tomando como exemplo a revolução cubana.
A criação do pequeno Zimmerwald (referência à Conferência de Zimmerwald ou Primeira Conferência Socialista Internacional realizada em 5-8 de setembro de 1915, na Suiça), como a chamou o chileno Miguel Enriquez, foi aceito por unanimidade, adotando um conjunto de Resoluções, dentre as quais a preparação de uma Declaração Conjunta; a preparação de um projeto para a edição de uma revista política; a organização de uma Escola de Quadros; e um projeto de funcionamento orgânico.
Se bem que nenhum representante do ELN boliviano estivesse presente nessa reunião, essa organização se mostrou de acordo com a Resolução e passou a integrar o projeto JCR.
Anteriormente a tudo isso, no Congresso do Partido Socialista Chileno, ao qual pertencia Salvador Allende, realizado na cidade de Chillán, em 1967, havia sido aprovada uma Resolução Política que dizia: “(...) A violência revolucionária é inevitável e legítima (...) Só destruindo o aparato burocrático e militar do Estado-burguês pode consolidar-se a revolução socialista”. Essa linha política foi confirmada no Congresso realizado em 1971 - ano em que Allende assumiu o governo -, realizado na cidade de La Serena.
A decisão do PS chileno de optar pela “violência revolucionária” estava de acordo com os protocolos adotados no ano anterior (1966) em Havana, na Conferência Tricontinental, quando foi aprovada pela unanimidade das 27 delegações presentes a sugestão de criar a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) - ondas, em espanhol -, uma cópia do Komintern dos anos 30, um pacto político-militar para revolucionar a América Latina. O autor dessa proposta foi o delegado que representava o Partido Socialista Chileno: Salvador Allende.
Ao longo do ano de 1973 foram consolidados os vínculos entre essas organizações, foi organizada a Escola de Quadros (primeiramente no Chile e logo depois na Argentina), a criação de um organismo conjunto, que levou à prática reuniões semanais, e a integração de distintas equipes em tarefas conjuntas (fabricação de armas, intercâmbio de combatentes, realização de reuniões conjuntas, etc).
Logo após a deposição de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, a sede da JCR saiu de Santiago e foi transladada a Buenos Aires, onde Roberto Santucho lhe impôs uma atividade febril e constante, centralizada tanto no intercâmbio de militantes, para dar uma imagem panamericanista à organização, como na unificação da estratégia revolucionária e na difusão da propaganda destinada a obter adesões na ordem internacional.
Em 1974 - menos de um ano após a deposição de Allende -, o fato marcante foi a refundação, em Paris, dessa Junta de Coordenação Revolucionária (JCR), integrada pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) boliviano, o Exército Revolucionário do Povo (ERP) argentino, o Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros (MLN-T) uruguaio e o Movimento de Izquierda Revolucionário (MIR) chileno.O secretário-geral da JCR foi o cubano Fernando Luis Alvarez, membro da Direção Geral de Inteligência (DGI) cubana, casado com Ana Maria Guevara, irmã de Che Guevara - fato que, por si só, conferia à JCR um caráter de instrumento do Estado cubano.
Logo depois, em outubro de 1974, a Comissão Política do MIR, através de seu jornal El Rebelde en la Clandestinidad, dava conta do fato nos seguintes termos: “No campo internacional, nosso partido redobrará a coordenação e o trabalho conjunto com o ERP, o MLN-T e o ELN da Bolívia, e junto a eles lutará para fortalecer e acelerar o processo de coordenação da esquerda revolucionária latino-americana e mundial (...) Chamamos a todas as organizações e movimentos irmãos a redobrar a luta em seus próprios países, a fortalecer e ampliar a Junta Coordenadora do Cone Sul (...)”.
O dirigente do PC Chileno Orlando Millas, já falecido, que também foi ministro do governo Allende, escreveu em suas Memórias, 1957-1991 (Santiago: Ediciones Chile-América, 1995, págs. 186-187), o seguinte: “Reunimo-nos em Moscou, em 1974, os membros da Comissão Política do partido que estávamos no exílio, ou seja, os titulares Volodia Teitelboim, Gladys Marin, eu e o suplente Manuel Cantero. Nessa oportunidade soube do acordo a que haviam chegado, em Havana, dirigentes dos respectivos partidos (chileno e cubano), para que contingentes de jovens militantes comunistas chilenos fossem aceitos como alunos, na qualidade de cadetes, na Escola Militar de Cuba. Foi recrutada para essa tarefa a nata da nova geração no exílio. Senti que os conduzíamos a queimar-se no Chile em batalhas impossíveis. Quem menos direito tem de criticá-los somos nós, que assumimos a responsabilidade, estremecedora, de sugerir-lhes, sendo adolescentes, que o caminho para ser dignos de seu povo deveria ser percorrido empunhando armas”.
Infelizmente, isso não aconteceu somente no Chile. No Brasil, também na década de 70, mais da metade dos que foram mandados para a morte pela direção do Partido Comunista do Brasil, nas selvas do Araguaia, eram jovens estudantes ou recém-formados. Os dirigentes do Partido Comunista do Brasil, no entanto, jamais fizeram uma auto-crítica desse fato.
Recorde-se que em sua mensagem à Conferência Tricontinenal de Havana, em 1966, Che Guevara havia insistido na “necessidade de estabelecer juntas de coordenação entre todas as organizações revolucionárias armadas da América Latina, para opor-se ao imperialismo”. Essa recomendação foi tida em conta especialmente pelas organizações terroristas que a partir daquele momento iniciaram ou aumentaram suas relações entre si, a fim de cumprir a sugestão de Che.
Foi, sem dúvida, dessa idéia de Che Guevara, em 1966, que menos de dez anos depois nasceu a Junta de Coordenação Revolucionária, que teve uma importante atuação no desenvolvimento da guerra subversiva no Cone Sul. Seus antecedentes remontam ao ano de 1968, ano em que começou de forma não orgânica e mediante reuniões bilaterais, a colaboração entre o Exército Revolucionário do Povo (ERP), da Argentina, o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionária), do Chile, os Tupamaros, do Uruguai, e o Exército de Libertação Nacional, da Bolívia. Esses contatos e conseqüentes reuniões entre seus quadros lhes permitiram um fluido intercâmbio de experiências, além do que os estimulou para a criação de uma organização internacional, em 1972, que lhes permitisse, através da cooperação e da ação armada conjunta, a imposição de governos comunistas nos países do Cone Sul.
Em julho de 1971, uma delegação do ERP, encabeçada por Roberto Santucho, viajou a Cuba, convidada para os festejos do assalto ao Quartel Moncada. Ali foi concretizada a sua aproximação com o Movimento Comunista Internacional, liderado pela União Soviética, e se concretizaram seus contatos com os Tupamaros. Também foi retomada a concepção estratégica de Cuba de apropriar-se do controle da Guerra Revolucionária no âmbito do Cone Sul, utilizando uma organização supranacional, para coordenar os ataques às instituições dos Estados.
O ano de 1974 foi iniciado com a preparação e uma declaração ratificada pelas quatro organizações terroristas, que serviu de lançamento público, não apenas na América Latina mas em todo o mundo. A declaração foi traduzida em diversos idiomas, fazendo-a circular profusamente nos meios de comunicação e publicações de esquerda, principalmente na Argentina, França, Itália, Suécia e Alemanha.
Essa declaração conjunta manifestava claramente que seus componentes se achavam unidos pela “compreensão” de que não havia outra estratégia viável na América Latina que não fosse a Guerra Revolucionária, a qual definiam em seu alcance e seus fins. Tal declaração foi adotada como a linha estratégica geral.
A partir daí, essa organização supranacional que coordenava o terrorismo no Cone Sul, desenvolveu contatos com as demais organizações marxistas do continente. A idéia de obter a unidade internacionalista dos grupos marxistas latino-americanos, se constituiu na razão de ser da JCR, sendo intensificados os contatos com organizações extremistas do Peru, Venezuela, Brasil, Paraguai, Colômbia, Nicarágua, Santo Domingo, Guatemala, El Salvador e, inclusive, EUA.
Em abril de 1975, a JCR realizou sua primeira conferência pública, em Portugal, para anunciar a abertura de suas sedes em Lisboa e Paris. Nessa época já haviam sido estabelecidas fluidas relações e contatos periódicos com organizações terroristas da Europa, entre as quais a ETA-Basca, as Brigadas Vermelhas, o Baader-Meinhof e o IRA.
Durante os anos seguintes, a JCR tentou constituir uma guerrilha latino-americana no continente europeu com o objetivo de desestabilizar as democracias vigentes nos países do setor ocidental, com a cooperação e/ou coordenação de movimentos terroristas europeus, mas foi obstada pela Operação Condor, uma operação desencadeada pelos Serviços de Inteligência dos países agredidos.
Nesse sentido, deve ficar claro que, quando existe uma ameaça terrorista de caráter internacional, os órgãos de segurança dos países ameaçados se coordenam. Sempre foi assim, e continua sendo. Recorde-se que a France-Press divulgou, em 21 de novembro de 1998, um telegrama segundo o qual o Primeiro-Ministro francês Lionel Jospin, em uma reunião de cúpula em La Rochele com José Maria Aznar, chefe do governo espanhol, aderia à luta anti-terrorista contra a ETA-Basca. Ou seja, esses dois países coordenam, até hoje, seus órgãos de Inteligência para combater a ETA basca.
Com muito maior propriedade, os Serviços de Inteligência dos governos agredidos do Cone Sul coordenaram seus efetivos para contrapor-se ao desafio terrorista que, há 30 anos, nada mais era do que uma derivação da guerra-fria.
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