Luís Mauro Ferreira Gomes
Em 30 de abril de 2011
Recebemos, por e-mail, o encaminhamento de uma matéria, originalmente divulgada no “site” A Verdade Sufocada, intitulada Sobre o Gado Fardado (1) e assi-nada por “Coutinho, AMAN Tu 73”.
Nela, o autor comenta o artigo “O Gado Fardado” (2), de Lenilton Morato. Do texto consta, logo na abertura:
Ouço muitos companheiros, da reserva, acusando os generais da ativa de ajoelharem-se ou de se deixar castrar, como fala o articulista, por medo ou por carreirismo.
Texto completo

Estas são acusações injustas, dificilmente um militar, de qualquer posto ou graduação, com mais de quarenta anos de serviço, irá ter medo da altura do Ministro ou da fala dura Presidencial.Segue-se uma descrição sucinta das intervenções militares havidas no Brasil, desde a proclamação da republica, até a Revolução Democrática de 31 de Março, todas consideradas legítimas, por reunirem as duas condições que o autor considera necessárias a tais intervenções: quando “a Pátria está em perigo” ou, quando ocorre “a desagregação do Poder Político.”
Concordamos em que devemos preservar os Comandantes Militares e os companheiros da Ativa, que são vítimas do processo político perverso que nos aflige, tanto 2  quanto nós e os demais brasileiros honestos e trabalhadores. Também penso que não seria justo esperar dos nossos sucessores o que não faríamos se estivéssemos nos seus lugares.
Já dissemos isso diversas vezes, uma delas, no artigo “Aprendendo com os Búfalos”, publicado na Revista do Clube Militar nº 428 – Abr/2008 (3).
Igualmente, não nos parece que os Comandantes se estejam omitindo em defesa de interesses próprios ou mesquinhos. Conhecemos bem, pelo menos o da nossa Força, e temos a mais absoluta certeza de que seria incapaz de praticar qualquer ação menos nobre, quanto mais, alguma indignidade. Por ele, podemos imaginar que os outros também sejam assim.
Mas, para tudo, há um limite que não deve ser excedido sob quaisquer cir-cunstâncias, e alguns Oficiais o vêm ultrapassando, não por motivos pessoais, cremos, mas numa tentativa, tão desesperada quanto ingênua e improdutiva, de preservar as instituições militares dos ataques traiçoeiros do próprio governo federal, que podem, é verdade, levá-las à destruição. Por certo, outro não é o objetivo, senão neutralizá-las.
Assim é que se tornam coniventes com “autoridades” que usam o poder que lhes foi conferido para defender os interesses da Pátria, justamente, para conspurcá-la.
Dar apoio e sustentação a uma ditadura em troca da promessa, quase sempre nunca cumprida, de se comprarem alguns aviões, alguns submarinos ou alguns carros de combate é um erro grave e nunca deveria servir para desunir as Forças Armadas, lançando-as em uma competição suicida por vans promessas, que somente as fragiliza e as torna submissas, na disputa angustiada pela simpatia dos governantes, simpatia que, certamente, não virá.
Entrega-se tudo, até mesmo a dignidade, e, de concreto, somente se recebem algumas promessas e muita desconsideração.
Se essa estratégia primitiva desse certo, deveríamos estar em uma situação muito boa, já que vem sendo adotada, faz décadas!
Surpreendentemente, o texto ora comentado prossegue:
Hoje a Pátria não está em perigo, o Poder Político está consolidado e funcionando, porque os militares deveriam portar-se como touros, distribuindo chifradas? Só para mostrar que não foram castrados?
Não houve comemoração nos quartéis do dia 31 de Março? Sim, então para mostrar que estamos insatisfeitos devemos dar uns tiros, jogar umas granadas ou um Gen. deve fazer um escândalo? Nós não somos “gado fardado”, mas também não somos uma turba armada, colocando em risco as Instituições que estão fun-cionando e foram sancionadas pelo voto do povo.
Tal raciocínio parte de premissas inteiramente falsas.
A Pátria está, sim, em perigo, e o poder político não está consolidado e, menos ainda, funcionando.
A Pátria está ameaçada pela ação do próprio governo, que não cumpre nem as leis nem a Constituição, senão quando lhe convém, e que põe em risco a soberania, 3 o patrimônio e a integridade nacionais, com política de defesa irresponsável, com política indigenista autofágica, com política de direitos humanos estúpida.
E o que dizer da corrupção institucionalizada, com os conhecidos casos de des-vio de dinheiro público por agentes governamentais, como sempre, nunca apurados?
Além disso, o Governo é a mais séria ameaça ao Estado de Direito, já que vem trabalhando sistematicamente para a implantação de uma retrógrada ditadura comunista no País, pela via gramsciana.
Aliás, o nosso regime já tem todas as características de uma ditadura, sob a máscara de democracia. O simples fato de haver eleições regulares não faz de um país uma democracia. As eleições podem ser viciadas com a compra institucional de votos e o desrespeito à legislação eleitoral, como vêm acontecendo no caso brasileiro. Ademais, o que define uma ditadura é a imposição arbitrária da vontade dos gover-nantes, pouco importando se isso é feito com a ameaça das armas ou com a coação e com o suborno dos congressistas, como é rotineiro.
As Instituições que compõem o poder político foram destruídas pelo poder executivo que não teve o pejo de torná-las apêndices homologatórios de suas decisões. Não há democracia sem oposição e sem justiça. No Brasil de hoje, não há a indispen-sável independência dos Poderes. Tanto o Judiciário quanto o Legislativo estão sujei-tos às pressões e à coação irresistível do poder central hegemônico.
A aparência de normalidade institucional é falsa e só persiste, porque, quando denúncias graves, de crimes comuns ou de responsabilidade, vêm à tona, nada acon-tece. Se o acusado é integrante do governo, nada se apura e tudo se esconde. Se o infe-liz é da oposição, faz-se grande escândalo, sempre renovado, para produzir o maior estrago político possível, situação que somente termina, súbita e misteriosamente, se e quando o suposto transgressor passa a integrar a “base aliada”.
Sim, não somos “grupos armados”, somos Forças Armadas e não somos nós que ameaçamos as Instituições, que, como vimos, já não funcionam e não foram san-cionadas pelo voto, mas por um sistema eleitoral fraudado. Foram, como também visto, os últimos governos que as devastaram e as corromperam.
Não devemos, portanto, “portar-nos como touros dando chifradas”, nem “dar uns tiros e jogar umas granadas” ou, tampouco, “fazer um escândalo”. E não preci-samos mostrar que não somos castrados, basta que não o sejamos.
Devemos, simplesmente, cumprir o nosso dever, para o que somos pagos e o que juramos fazer com o sacrifício da própria vida.
As circunstâncias estão muito claras e os fatos, explícitos. O que há é um incompreensível desejo de negar as evidências por mais cristalinas que sejam.
A caneta e a chave do cofre em mãos erradas têm, realmente, um poder de sedução irresistível.
4
Como não aceitamos ser julgados traidores ou covardes pelas gerações futu-ras, o que certamente ocorrerá com alguns, fazemos a única coisa que está ao nosso alcance neste momento: deixar registrado o nosso mais veemente protesto contra tudo o que acabamos de comentar.
Finalmente, concordamos com o autor quando diz: “não somos gado fardado”. Talvez não passemos de humanos desfibrados.
Notas do autor:
(1)
http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=5100&Itemid=95;
(2)
http://leniltonmorato.blogspot.com/2011/03/gado-fardado.html;
(3)
http://www.clubemilitar.com.br/site/pres/revista/428/10.pdf.
Observações:
I. O autor é Coronel-Aviador reformado e, atualmente, Vice-Presidente da Academia Brasileira de Defesa;
II. As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessaria-mente, o pensamento da ABD.

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