Che Guevara na  Bolívia
Documentos secretos apontam a preocupação do regime com "subversivos", como Che Guevara, no Brasil e na região fronteiriça
Edson Luiz - Correio Braziliense - 18/04/2011
Em determinado período, durante o regime militar, o governo brasileiro temeu que grupos guerrilheiros estivessem estabelecidos na Bolívia, em regiões próximas ao nosso país. Informes das Forças Armadas relatam que, de 1974 a 1984, pessoas desconhecidas e armadas trafegavam por rios e florestas da Amazônia e da Região Centro-Oeste. Documentos do 2º Exército apontavam que o território boliviano poderia servir como refúgio para a subversão, principalmente de pessoas que estavam exiladas em outros países das Américas e da Europa. 
O primeiro documento, de novembro de 1974, foi produzido pelo Estado Maior da Aeronáutica e revela a existência de guerrilheiros na fronteira do Brasil com a Bolívia, na Região Norte. O informe relata que durante a visita de um adido brasileiro à Guayaramerin — capital do departamento (estado) de Beni — na Bolívia, a embarcação que o transportava foi parada por moradores que disseram haver seis homens desconhecidos e armados caminhando pelas matas. Segundo o informe, as pessoas seriam argentinas e pareciam guerrilheiras. As informações foram repassadas às autoridades brasileiras, mas não se sabe se houve investigação.
Cerca de 10 anos depois, outros informes foram produzidos sobre o tema. Desta vez, um relato do 2º Exército intitulado Bolívia — Novo refúgio para a subversão — indicava que o país vizinho abrigava guerrilheiros de vários países. Segundo um documento de março de 1984, produzido pelo militares, a instalação em La Paz de uma junta de coordenação revolucionária seria a responsável pela entrada dos estrangeiros na Bolívia. O líder do movimento, conforme o relato, seria um trotskista ligado à Central Operária Boliviana (COB), de oposição ao então presidente Hernan Silles Zuazo.
“A JCR —Junta de Coordenação Revolucionária — está introduzindo na Bolívia, através do Brasil, pequenas quantidades de armamentos leves. Isso é feito através de ligações que um ex-major boliviano tem em São Paulo”, relata o informe, observando que os artefatos cruzavam a fronteira por Corumbá, em Mato Grosso. No mesmo documento, os militares indicam que a Bolívia seria o local para onde iriam os esquerdistas de outras nações, não apenas da América do Sul. “Elementos subversivos argentinos e de outros países do Cone Sul, que estavam exilados no México e Europa, estão se deslocando para a Bolívia após a assunção do novo governo”, descreve o informe.
Muitos outros documentos mostram a preocupação dos militares com a suspeita de haver guerrilheiros próximos ao nosso território. Os papéis estavam no Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa) e que foram liberados na semana passada pelo Arquivo Nacional. Um deles indica que o líder guerrilheiro Che Guevara teria estado no Brasil em 1967, mais precisamente em Pirizeiro, no interior de Mato Grosso. A informação teria sido dada por moradores da região, que descreveram a fisionomia do homem que estivera no local montado em um cavalo e se identificou como comprador de couro.
As autoridades da época mostraram uma foto de Guevara aos moradores. Eles teriam reconhecido aquele homem branco, alto, cabelos aloirados, barbado, trajando uma calça cáqui e que falava o português com dificuldade, como o guerrilheiro que ajudou a liderar a revolução de Cuba.
A visita de Figueiredo
No mesmo ano em que os militares produziram o documento considerando a Bolívia um possível refúgio da subversão, o então presidente brasileiro, João Baptista Figueiredo, fez a primeira visita de um chefe de Nação ao país. Até então, nenhum outro presidente do regime estivera no país vizinho. A visita ocorreu em Santa Cruz de la Sierra, onde residem muitos brasileiros, principalmente universitários.
 
 
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