HISTÓRIA
Durante um encontro de mulheres em 1980, no Rio, militares descobriram que militantes de esquerda vigiavam suas ações
Edson Luiz - Correio Braziliense - 16/04/2011
Acostumados a espionar, os órgãos de informações do regime militar temiam ser investigados por movimentos de esquerda. O assunto mereceu a primeira referência em 1980, quando os arapongas monitoravam uma reunião de mulheres no interior do Rio de Janeiro e acabaram filmados por uma das participantes.
Depois, o tema foi novamente debatido durante reunião da comunidade de inteligência do governo em que foi discutido o atentado ao Riocentro, em 1º de maio de 1981. O documento confidencial, intitulado Evolução de atividades subversivas – novas formas de atuação, mostrava que os integrantes da área de informações do I Exército que espionavam manifestações no interior do Rio de Janeiro também eram espionados. “Agentes de órgãos de segurança, por ocasião de cobertura de eventos políticos ideológicos realizados em Nova Iguaçu, estariam sendo fotografados”, relata o informe, que identifica uma médica e seu marido como os autores das gravações. Foi o primeiro caso observado pelo governo. De acordo com o documento, ela usava uma microfilmadora, operada de dentro de um carro.
O fato ganhou impacto dentro da comunidade de informações. Em uma reunião realizada em 7 de maio de 1981, foi entregue a cópia de um documento produzido pelo Exército que avaliava o atentado do Riocentro, ocorrido na semana anterior. Na ocasião, uma bomba explodiu, matando um sargento e ferindo um oficial durante um show em comemoração ao dia do trabalhador. O documento fazia um alerta para que o assunto — a espionagem feita esquerda — fosse difundido para os Centros de Informações do Exército (CIE), da Aeronáutica (Cisa), dos comandos e das brigadas militares, além da Polícia Federal. Hoje, a peça encontra-se no Arquivo Nacional com outros 35 mil documentos entregues pelo Cisa à instituição, que abriu o acervo no início da semana.
Assunto esgotado
“Há muito tempo os OI (órgãos de informações) vêm detectando levantamentos de seus agentes, e até mesmo de organizações de militares, por elementos de esquerda, com o objetivo único de desmantelar ou destruir o ‘aparato repressor’”, alerta o integrante do Exército que fazia parte da comunidade de informações. “Esses fatos são motivos de preocupação deste comando, que, a respeito, expediu um sumário de informações pelo Info nº 214-I, de abril de 88”, acrescenta o relatório, ressaltando que o documento foi difundido por todas as unidades militares e que, “em absoluto”, o assunto deveria ser esgotado.
O informe apresentado durante a reunião da comunidade de informações em nada esclarece o atentado do Riocentro, a não ser o fato de o Exército ter imputado a movimentos de esquerda o incidente. No documento, os militares revelavam a seus colegas que o fato deveria ser desvendado, mas culpam a imprensa pela repercussão dos fatos, afirmando que a intenção era desmoralizar os órgãos de informações. “Os militares são apresentados como terroristas, acusados e condenados sem qualquer prova ou fundamento e sem nenhuma chance de defesa, dentro da técnica de orquestração”, diz o documento.
 
 
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