Folha de São Paulo 
26/02/2011
Modelo de crescimento econômico do país apresenta problemas e exige firme reorientação da agenda do governo nos próximos anos
Ficam cada vez mais evidentes os aspectos problemáticos do atual modelo de crescimento do país. O dinamismo econômico dos últimos anos, não é mistério, está ancorado no choque positivo nos chamados termos de troca: os preços das exportações em relação aos das importações cresceram quase 30% entre 2006 e 2010.
A expansão de programas sociais, a continuidade da política de correção real do salário mínimo e a ampliação do crédito possibilitaram a transferência de parte desses ganhos para parcelas mais amplas de brasileiros. E a contínua valorização cambial permitiu que o aumento do consumo ocorresse com inflação sob controle.
Na crise de 2008, o Brasil encontrava-se bem aparelhado para combater o risco recessivo por meio da expansão de gastos governamentais e do crédito público -medidas que se justificavam naquele momento. O governo, entretanto, já voltado para a campanha eleitoral, passou do limite.
O aumento de gastos e a ampliação do crédito público subsidiado mostraram-se excessivos numa economia que já se aproximava de limites. O superavit primário (antes de despesas com juros) caiu de 3% do PIB para 1,5%, em meio a novos aportes do Tesouro ao BNDES, que atingiram exagerados R$ 180 bilhões.
Depois desses excessos, uma correção de rumos se impõe. É necessário, em primeiro lugar, quebrar a tendência de aceleração da inflação, o que demandará uma combinação ainda incerta de juros mais altos com novas medidas para reduzir o ritmo de crescimento do crédito ao consumidor.
Além disso, é preciso um esforço duradouro de contenção dos gastos públicos, visando abrir espaço no Orçamento para mais investimentos. Este é, na realidade, o desafio estrutural do país: reorientar os recursos da economia para a ampliação da infraestrutura e o aumento da capacidade produtiva, fazendo melhor uso da receita de exportações de matérias-primas. E isso só será possível com a elevação da poupança interna, pública e privada.
Ainda não está clara a estratégia da nova administração, mas a presidente Dilma Rousseff dá sinais de ter compreendido a dimensão de sua tarefa. O corte de R$ 50 bilhões anunciado para este ano e a contenção do aumento do mínimo são um bom começo, mas novas restrições serão necessárias de modo a atingir o objetivo de zerar o deficit nominal (incluídas as despesas de juros) até 2014.
Os repasses ao BNDES também precisam ser gradualmente reduzidos. Para este ano fala-se em aporte de R$ 50 bilhões, cerca de 60% do montante de 2010, o que é aceitável, para não provocar uma queda brusca no crédito. Deve-se, ademais, avançar na desindexação da economia.
Em conjunto, essas iniciativas podem propiciar progressiva redução da taxa básica de juros -e, com isso, aliviar as pressões de valorização cambial.
É evidente que uma agenda assim não será cumprida em apenas um ano. Longe de ser um fator de desestímulo, é preciso compreender que tal reorientação exigirá mais tempo para ser implementada e dar frutos. Cabe ao governo demonstrar capacidade política e firmeza de propósito.
 
 

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