Lula quer continuar nos enganando... Isso foi um
pesadelo?
Ruy Fabiano
Jornal da Comunidade - Brasília - 12/02/2011
Antes de deixar a Presidência, Lula anunciou que, a partir de então, uma de suas missões fundamentais passaria a ser a de "desfazer a farsa do Mensalão". Teria sido, na sua singular avaliação, apenas uma tentativa de golpe de Estado, engendrada pela "direita", circunstância em que os réus passariam a vítimas.
Os vilões estariam, claro, na oposição. 

 
O complicado nessa versão são os fatos, que não a chancelam. O escândalo do Mensalão é possivelmente o mais documentado dos que já aterrissaram na cena política brasileira. Há números, nomes datas, CEPs, siglas, cheques - múltiplos detalhes, enfim.
E ainda: não foi denunciado por ninguém da oposição, mas por um até então entusiasta integrante da base governista, o na época deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, a quem Lula declarou que entregaria um cheque em branco e dormiria tranquilo.
O escândalo foi investigado por três CPIs e mereceu do então procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza, minuciosa denúncia, aceita pelo Supremo Tribunal Federal, em que foram indiciados 40 acusados, que integrariam uma "organização criminosa", destinada a dilapidar o Estado.
A memória desse monumental contencioso está registrada num livro, "O Chefe", do jornalista Ivo Patarra, que coloca o ex-presidente no topo dessa organização. Seria ele o chefe. É um documento para a história, que, a prevalecer a versão de Lula, já teria levado seu autor às barras dos tribunais, o que não ocorreu.
A versão do ex-presidente investe no papel de cúmplice do processo golpista a mais alta instância judiciária do país, o STF, que viu procedência no relato do procurador geral que, nessa hipótese, seria mais um elo decisivo dessa corrente maligna.
Digamos que tudo isso fosse verdade. Restaria então conferir o papel que Lula atribui à "direita". Mesmo considerando-se que o termo carece de nitidez direita, hoje, é tudo o que não é esquerda ou que a contrarie -, convém insistir que a denúncia partiu da própria base governista, o que explica a exuberância dos detalhes.
O papel da oposição, ao contrário, foi tíbio, ambíguo, quase omisso. O então senador Antonio Carlos Magalhães, do DEM, que vocalizava sua facção mais conservadora aquela na qual poderia caber o rótulo de "direita" - se opôs ao impeachment de Lula.
Achava que o episódio por si só o inviabilizaria eleitoralmente, e isso bastava. Não tinha ânimo corretivo, de punir malfeitores, mas meramente utilitário, de faturar o episódio sem maiores contratempos. Esqueceu-se de que, em política, o que não mata engorda. A reeleição de Lula o engordou politicamente e emagreceu a oposição. Uma dieta amarga de votos.
A única entidade que cogitou de propor o impeachment, a OAB, foi convencida pela própria oposição ACM à frente - a não fazê-lo, segundo testemunho de seu então presidente, Roberto Busato.
Portanto, querer atribuir à "direita" a responsabilidade pelo Mensalão é um exercício de destempero lógico que nem mesmo um mago dos palanques como Lula terá como sustentar. Curioso é que tente imputar à oposição o rótulo maldito de "direita", quando, nas eleições do ano passado, considerou-a já banida da cena política e atribuiu a circunstância à "evolução" do país.
Na celebração dos 31 anos do PT, na quinta-feira, o movimento foi deflagrado. O partido anunciou a reabilitação dos dois principais protagonistas do Mensalão (ao menos segundo a ótica da denúncia que o STF examinará no segundo semestre): José Dirceu, apontado como "chefe da organização criminosa", e Delúbio Soares, o tesoureiro, que manejava os "recursos não contabilizados" que chegavam aos cofres do partido.
Lula, que voltou a ser o presidente de honra do PT, pelo visto já iniciou sua missão redentora. Disse que pretende construir o memorial das lutas sociais no Brasil, "para que a gente possa contar a história deste país como ela foi feita e não como a elite contou pra gente a vida inteira".
Para quem tinha dúvidas, sinaliza onde vai buscar os vilões do Mensalão: na elite da qual, aliás, faz parte já há algumas décadas.
Ruy Fabiano é jornalista e escritor.

Comments powered by CComment