EDITORIAL
O Globo 
É quase inevitável que um político com 80% de popularidade inspire toda uma mitologia em torno dele. Se esse político tem o dom da palavra, grande capacidade de se comunicar com as massas, a sua visão de mundo, aquilo que prega do palanque tem boa chance de ser entendido como a mais pura verdade. No caso de Lula, há vários exemplos. O bordão que criou - "nunca antes neste país" - quase sempre é seguido por alguma intenção do presidente, não por um fato objetivo. Mas deve-se reconhecer a capacidade de Lula, e do PT, de criar "verdades" que parecem irretocáveis. Entre elas está a política externa desses últimos oito anos. Credita-se a ela um suposto avanço do Brasil no comércio internacional, não detectado pelas grandes instituições multilaterais responsáveis por monitorar estas estatísticas.
Ao contrário do que se pensa - e o senso comum é presa fácil de um marketing eficiente -, as exportações cresceram, mas, na melhor das hipóteses, no mesmo ritmo da expansão do comércio mundial. E, assim, a fatia brasileira nas trocas comerciais globais continua em torno do irrisório 1% de oito anos atrás. Com o avanço da globalização, o comércio é que progrediu muito. E o desempenho brasileiro foi modesto: correu muito para ficar no mesmo lugar. A política externa companheira não poderia mesmo ampliar o peso do país nas trocas globais, pois privilegiou a arcaica visão da diplomacia Sul-Sul, como se ainda houvesse espaço, no multilateralismo vigente, para uma estratégia de congregação de países do Sul ("pobres"), para somar forças em embates contra o Norte ("ricos"). A visão é bolorenta, traindo a naftalina das décadas de 60 e 70.
Movida a um antiamericanismo míope, a diplomacia da Era Lula buscou liderar o G-20 na Rodada de Doha, para pressionar o Primeiro Mundo. Não que ele não devesse, e deva, ser pressionado: o bloco subsidia pesadamente a produção agrícola, em prejuízo das exportações de economias emergentes e pobres. A ilusão foi imaginar que o "Sul" é unido. A desmontagem da tosca estratégia do Itamaraty ocorreu quando o Brasil, com razão, tentou negociar a saída para o impasse na Rodada, e não foi acompanhado por Argentina, Índia e China ( parte do "Sul", na geopolítica itamaratiniana). Doha desmoronou - pelo menos esta tentativa de acordo - e, com ela, o plano fantasioso de o Brasil de Lula ser o líder mundial dos desvalidos.
Ora, a malha de interesses dos países é bem mais intrincada, e não se move à base de ideologia. Este foi o erro mais grave do Itamaraty de Lula. Ao eleger o confronto com os EUA como a bússola da sua política externa, o governo perdeu oportunidades de ampliar a presença no comércio internacional. Recusou-se a discutir a Alca (Aliança do Livre Comércio das Américas), por ser um projeto de Washington. Mas, em troca, quase nada conseguiu em termos de acordos bilaterais, enquanto dezenas deles foram assinados pelo mundo. Cada um desses acordos dificulta a venda de algum produto brasileiro. Como é parte do Mercosul, o país só pode fechar acordos de que participe todo o bloco. Para complicar, quer, junto com a Argentina, colocar a Venezuela de Chávez entre os titulares do mercado comum. Pior, o terceiro-mundismo anti-EUA levou o Itamaraty a fechar os olhos em votações na ONU sobre ditaduras sanguinárias. Mesmo a presidente eleita, Dilma Rousseff, criticou a abstenção brasileira no caso dos apedrejamentos de mulheres no Irã. Encerra-se o ciclo de uma diplomacia inepta, leniente na defesa dos interesses da nação - vide expropriação de bens da Petrobras - e sem ética nos direitos humanos

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