Um dos tubarões
  Informe JB - Jornal do Brasil
 Por Leandro Mazzini
Sarney driblou o fogo amigo e negociou com o Planalto sua permanência no cargo em 2011–2012
Na política não existe bobo. Os que são, fingem bem. Na arte da política, há um grande teatro envolvente e enobrecedor, em que no palco montado pelos mandatários desfilam personagens distintos, bons homens e também, inevitavelmente, uma corja que faz o país lembrar o quanto é necessária uma reforma política – e, por que não, de caráter – seja em Brasília, a meca do poder brasileiro, seja numa cidadezinha bem afastada da capital. Nesse teatro, existem peixes e tubarões num mar peculiar criado por eles, os mandatários.
Há momentos em que trocam de papéis, e os perigosos tubarões se passam por inofensivos lambaris para distrair as lanternas da mídia e fazer suas pescarias. Não escapam, porém, à verdade. Todos trabalham pelo poder. Por eles, e pelos partidos.
A síntese acima resume o PMDB. Como todo grande, enorme partido, nele há divergências e convergências. Existe a ala do bom-senso e a ala do fisiologismo – embora essas duas turmas convirjam quando se trata de poder. O Poder! O histórico da legenda nos últimos 20 anos é tão intenso no noticiário político que PMDB e Poder quase se tornam uma só palavra. A diferença é que a segunda está no dicionário; a primeira busca sua identidade.
Justamente essa identidade é a preocupação atual do partido. A ponto de o agora vice-presidente eleito, também comandante da legenda, deputado Michel Temer, há poucos meses ter declarado a este repórter que o partido enfim trabalhava para não transmitir à população a imagem de uma agremiação fisiológica (leia-se, atrás só de cargos, ministérios, estatais, autarquias, indicações para agências reguladoras e outras mais). Nesse contexto, o PMDB luta contra ele mesmo. Contra seu histórico. Não há um ano sequer, nas duas últimas décadas, em que o partido tenha ficado longe do poder nacional em Brasília. Rachado ou não, o PMDB sempre teve um pé no Palácio do Planalto. Discretíssimo com Fernando Collor, mais liberado com Itamar Franco, evidente com Fernando Henrique e escancarado com Luiz Inácio, tanto na primeira gestão, só em parte, quanto na segunda, enfim todo ele. O PMDB.
Pode-se dizer que o PMDB é um grande cardume, e seus tubarões, sempre à caça de iscas fáceis. Porque eles são maioria no Congresso, este mar (às vezes de lama), e sabem se impor em grupo.
E, dentro deste PMDB, se existe um nome que sabe deixar- se levar pela correnteza do poder, é José Sarney. Com exceção de um breve período, os dois anos de governo Collor (1990-92), Sarney entra e sai do gabinete presidencial do Palácio do Planalto desde 1986, em ritual no qual as portas se abrem sozinhas para ele, independentemente do popular inquilino do outro lado da mesa. Seria exagero dizer que Sarney é o PMDB, com sua fisiologia (hoje ele controla com apadrinhados pelo menos o Ministério de Minas e Energia e emplaca diretores em agências). O PMDB, desde que criado, foi um conglomerado de interesses – em ministérios, em emendas, em verbas. Mas seria injusto também apontar o PMDB como o único partido mestre nesse conceito, o que não tira da legenda um título de doutorado nesse esquema. E muitos militantes, deputados ou senadores, devem esse controle atual de poder a Sarney e seu trânsito; a Sarney e seu histórico de visitas a presidentes.
Muito se tem falado que José Sarney, hoje presidente do Congresso, vai desistir da reeleição. Balela. Ele vai continuar no cargo, já negocia sua permanência, no biênio 2011-12. Enquanto isso, os peixes, aqueles que se acham tubarões e apostam na sua queda, não percebem que já foram fisgados. Esquecem-se de que Sarney, além de tubarão, também sabe pescar. No aquário do Palácio.
 
 

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