Professor Carlos Fico , integrante do
   projeto Memórias Reveladas
PRIMEIRO PLANO

Revista Época - 09/11/2010
Carlos Fico: Arquivos fechados
O historiador se demitiu depois que o Arquivo Nacional negou-lhe acesso a documentos da ditadura
Por Leandro Loyola
PROTESTO
Fico no Rio de Janeiro, na semana passada. Ele abandonou o projeto de publicação dos documentos do regime militar
O historiador Carlos Fico, de 52 anos, tem uma especialidade que é também obsessão: vive atrás de documentos produzidos durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985.



 
Ele tem quatro livros publicados. Muitas vezes em suas pesquisas obteve mais informações nos arquivos dos Estados Unidos do que nos brasileiros. Aqui, já passou pela situação kafkiana de ler documentos e, meses depois, ser impedido de revê-los.
Por sua militância em prol da liberação dos arquivos militares, Fico tornou-se integrante do projeto Memórias Reveladas, criado pela Casa Civil na gestão de Dilma Rousseff com a finalidade de publicar em site os documentos do regime militar. Na semana passada, Fico abandonou o barco.
Ele justificou sua decisão dizendo que, durante a campanha eleitoral, o Arquivo Nacional restringiu o acesso a documentos relativos ao regime militar. “Pesquisadores foram impedidos de consultar documentos sob a alegação de que jornalistas estariam fazendo uso indevido da documentação, buscando dados sobre os candidatos envolvidos na campanha eleitoral”, diz Fico. “Evidentemente, não concordo com esse procedimento ilegítimo.” Dois dias depois da saída de Fico, sua colega Jessie Jane Vieira de Sousa, historiadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também se desligou do Memórias Reveladas. “Virou um projeto burocrático do Arquivo Nacional”, afirma ela.
Professor da UFRJ, Fico soube da censura por meio de uma aluna. Doutoranda em história, Adrianna Setemy estuda o envolvimento de instituições com o regime militar. Em janeiro, ela passou uma semana no Arquivo Nacional, em Brasília, para consultar documentos do Conselho de Segurança Nacional e da Divisão de Segurança e Informação do Ministério das Relações Exteriores. Em setembro, Adrianna voltou a Brasília para ler os documentos selecionados oito meses antes. “O funcionário disse que a autorização não valia mais nada”, diz Adrianna. “Ele explicou que, em virtude do processo eleitoral e da grande procura – principalmente por parte de jornalistas –, o acesso havia mudado, para evitar que fosse feito uso indevido dos documentos.” Adrianna não poderia mais pesquisar diretamente no arquivo. Teria de preencher um requerimento em papel e a pesquisa seria feita por um funcionário. “O arquivista sugeriu que eu esperasse o processo eleitoral passar”, afirma Adrianna. O Arquivo Nacional está subordinado ao Ministério da Casa Civil, que foi chefiado por Dilma e depois por sua assessora Erenice Guerra, derrubada por um escândalo de tráfico de influência.
‘‘Não é o Arquivo que tem de julgar sobre o uso da informação’’ (...)
Comentários  
#1 Valdeke Silva 04-04-2015 18:19
Ao professor Fico, um apelo: divulgue mais os seus livros, pois nós que gostamos de estudar a História do Brasil, somos carentes de fontes confiáveis.
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