Acelera-se o relógio da ruína cubana
Editorial - O Globo - 15/09/2010 
Apenas alguns dias após Fidel Castro admitir que o sistema cubano já não funciona, e depois dizer que o jornalista o entendera errado, veio a confirmação: Havana anunciou o corte de 500 mil trabalhadores estatais (mais de 10% do total) nos próximos seis meses. É a admissão da falência do Estado cubano diante de um dos pressupostos do socialismo — o pleno emprego. Começa a acontecer o previsto..

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Cuba já há algum tempo é conhecida como um museu stalinista cercado de água, devido ao anacronismo de seu regime, inspirado na velha União Soviética. Nos últimos anos, foram várias as tentativas de reformas — todas tímidas —, para relançar a economia da ilha, hoje em grande parte dependente da Venezuela, que já esteve em situação muito melhor. Todas as tentativas tiveram escasso sucesso devido ao fato de os irmãos Castro evitarem mexer nos pilares do regime, para assegurar que o controle não fuja de suas mãos
Há cerca de um mês, Raúl Castro anunciou a decisão de eliminar 20% da força total de trabalho (quase 1 milhão do total de 4,2 milhões de funcionários públicos) num prazo de cinco anos. Os maiores cortes serão nas estruturas estatais de setores considerados importantes no país, como o da produção de açúcar, o de turismo e o da saúde pública.
É a mais radical reforma desde a Revolução Cubana, de 1959. Obviamente, o governo se apressa a esclarecer que haverá compensações, como a ampliação para 460 mil do número de permissões para que os cubanos trabalhem por conta própria, abrindo pequenas empresas; o deslocamento de funcionários para setores com escassez de mão de obra, como agricultura, construção civil, educação e polícia; autorizações para que os cubanos exerçam cerca de cem tipos de atividades profissionais.
Mas não há ilusões. Esse é mais um paliativo na lenta agonia do regime. A dúvida é se o Partido Comunista Cubano seguirá o modelo soviético ou o chinês. No primeiro, houve uma batida em retirada desordenada, com alto custo social e econômico. No segundo, o regime manteve o controle político e social, abrindo apenas a economia ao capitalismo.
Até aqui é bem-sucedido, mas à custa da manutenção de uma enorme máquina de repressão (o Exército Popular), para dar conta da agitação social provocada pelas inevitáveis desigualdades que se criam nos primeiros estágios do capitalismo.
É preocupante o que pode acontecer em Cuba se o atual regime não for capaz de garantir uma transição ordenada. São décadas acumuladas de repressão que podem explodir de uma hora para outra, possivelmente levando a um banho de sangue se as forças de segurança continuarem fiéis aos irmãos Castro. No momento em que proliferam os indícios da falência do modelo cubano, torna-se crucial o papel dos Estados Unidos numa possível transição. É essencial que ela se faça de forma pacífica, com redução paulatina do embargo econômico à ilha na mesma proporção em que forem introduzidas reformas democráticas que beneficiem a população cubana.
 

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