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Categoria: Revanchismo
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    Culpa da ditadura ... Desculpa esfarrapada !
Imprensa ameaçada na Argentina
Correio Braziliense - 27/08/2010  
Causa preocupação a nova investida da presidente argentina contra os meios de comunicação. Em discurso transmitido em cadeia nacional de televisão, Cristina Kirchner exibiu cadáver de 34 anos como prova contra os dois principais jornais do país. O La Nación e o El Clarín teriam tirado proveito do clima de terror da ditadura que teve início em 1976 e se estendeu até 1985 para adquirir a Papel Prensa. A empresa abastece 75% do mercado local — nada menos que 170 jornais.
Os proprietários dos periódicos teriam cometido “crime contra a humanidade” ao não respeitar a fragilidade do Grupo Graiver, que na oportunidade sofria perseguições políticas e enfrentava enormes dificuldades econômicas. Eles negam.
Cristina afirma ter relatório de 233 páginas que apresentará à Justiça para expropriar a companhia. Não só. Além de recorrer ao Judiciário, promete atacar em outra frente. Enviará ao Congresso projeto de lei que declarará de interesse público a produção e distribuição de papel.
Não é a primeira cruzada de Cristina Kirchner contra meios de comunicação críticos à administração peronista. O confronto começou há 12 anos. Em 2008, produtores rurais se insurgiram contra o aumento de 35% cobrado às exportações de cereais. A imprensa apoiou o setor produtivo, que venceu a queda de braço. A Casa Rosada acusou a imprensa de complô montado para impedir avanços sociais. No ano seguinte, novo choque. O governo sofreu constrangedora derrota nas eleições legislativas. Responsabilizou a mídia pelo fracasso.
A partir de então, a força do Estado se abateu sobre o Clarín. A Receita Federal vasculhou as contas da empresa. Lei aprovada às apressas obrigou o grupo a abrir mão de emissoras de televisão. Patrulhas abortaram a fusão com outro grupo na área de TV a cabo e licença para fornecimento de serviços de internet. Nem a vida privada escapou. O Congresso tornou obrigatório o exame de DNA dos adultos suspeitos de serem filhos sequestrados de presas políticas. Os filhos da dona do conglomerado estariam incluídos nesse caso.
Teme-se, com razão, que a Argentina avance no caminho trilhado por Hugo Chávez, que feriu de morte a liberdade de imprensa. A sobrevivência da democracia exige imprensa livre. O circular de ideias sem censura de qualquer natureza funciona como o oxigênio que mantém vivos os seres vivos. Por sinal, a existência do Mercosul pressupõe o comportamento democrático dos sócios — exigência prevista em cláusula específica. Os países-membros não podem minimizar nem fazer de conta que não veem os desvios de conduta em franca multiplicação no subcontinente. É preciso deixar de vez para trás os tempos de obscurantismo